Revista “Estudos Avançados” debate o ensino de humanidades

Publicação traz os dossiês “Ensino de humanidades”, “Vida urbana e saúde” e “Artes e cultura”

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=187236
  • 182
  •  
  •  
  •  
  •  
O ensino das humanidades passa por reflexões e questionamentos, mostra a nova edição da revista Estudos Avançados – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Um dossiê com 14 artigos sobre o ensino das humanidades é o destaque da edição 93 da revista Estudos Avançados, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. O editorial instiga os leitores com a expectativa de que essa edição da revista dá início a uma série de dossiês com reflexões e questionamentos sobre o conhecimento e o ensino das ciências humanas em geral, que “passa por uma situação paradoxal”. E chama a atenção “para os novos métodos propostos pela pedagogia e didáticas específicas, que abrem novos rumos ao magistério, resultando na depreciação das humanidades pelo pensamento tecnicista que se generalizou em órgãos burocráticos dentro e fora da Universidade”.

Um dos dossiês da revista debate as correlações entre vida urbana e saúde – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O dossiê Ensino de humanidades é aberto com o artigo “Limites e possibilidades do ensino de filosofia”, do professor Franklin Leopoldo e Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Segundo ele, é importante examinar a questão das perspectivas e possibilidades de vida que a educação pode oferecer aos jovens de hoje, que vivem num mundo fragmentado em que as desilusões e as decepções podem se tornar, a todo momento, a tônica da existência. “A filosofia tem como levar a um enfrentamento dos riscos sociais e históricos, de modo a que os indivíduos não submerjam na decomposição existencial, ética e política que nos ameaça”, observa.

Um artigo do Professor Emérito da Faculdade de Educação da USP Celso de Rui Beisiegel – morto em novembro de 2017 – lembra a Pedagogia do Oprimido, um dos livros mais importantes do educador Paulo Freire (1921-1997). E traz também a trajetória de Freire na luta pela educação. “Convém esclarecer, desde logo, que a atuação em favor do embasamento da educação na realidade das populações desfavorecidas não era um fator de empobrecimento das análises e propostas de Paulo Freire”, observa Beisiegel. “Ao contrário, desde seus primeiros escritos, a insistente defesa da necessidade da prática de uma educação diferente, fundada nas condições da vida popular e na cultura de seus agrupamentos, atraiu a atenção de educadores e explica em grande parte o crescente prestígio alcançado antes e depois de seu autoexílio no Chile.”

Há necessidade de uma educação que proponha a emancipação humana.”

“A reforma do ensino médio e a sua questionável concepção de qualidade da educação” é a reflexão apresentada por Celso João Ferretti, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. O artigo aborda a reforma promovida, em 2017, pelo Ministério da Educação do governo Temer. Ferretti defende que “não basta apenas a defesa da perspectiva de educação democrática e participativa com vistas à formação cidadã (emancipação política), como propõe a contrarreforma do ensino médio. Há necessidade de uma educação que proponha, além disso, a emancipação humana.”

O ensino de humanidades é abordado de forma abrangente. Apresenta pesquisas, questionamentos e reflexões no campo da geografia, história e também no ensino da religião, da música e das artes plásticas.

A nova edição de Estudos Avançados apresenta também o dossiê Vida urbana e saúde. Amélia Cohn, socióloga e professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, escreve sobre os caminhos da reforma sanitária, revisitando uma análise realizada há três décadas e atualizando a discussão sobre a complexidade da proposta e do projeto de implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). A professora dá ênfase à estratégia política da sua implementação e aos desafios atuais para a permanência de seus princípios e diretrizes constitucionais.

Importante destacar também, na mesma edição, o dossiê Artes e cultura, que reúne diversos artigos. Ana Mae Barbosa, professora titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, questiona o ensino superior de artes visuais no Brasil. “As bases desse ensino superior têm 200 anos, sendo, portanto, um dos mais antigos do Brasil. Apesar de seu atestado de antiguidade, é um dos sistemas mais maltratados pelos governos e administrações ditatoriais em geral”, observa.

A nova edição da revista Estudos Avançados – Foto: Reprodução

Martin Grossmann, também professor titular da ECA, questiona: “O que se espera de uma escola de arte hoje? Qual é o papel ou a influência da academia no ensino da arte? Ou melhor, esse ensino ainda não estaria, em parte, condicionado à tradição da academia?”. Grossmann procura responder a essas questões com o intuito de propor novos parâmetros e referenciais para a formação atual em arte. “Há uma grande sensibilidade em relação à presença de outras cosmologias na formação cultural e artística de um lugar, nação, região. As revisões críticas pós-coloniais e pós-modernistas impõem outras condições ao ensino da arte e para tanto exigem sensibilidade, flexibilidade e permeabilidade institucional”, defende.

A revista é dedicada ao professor da USP Paul Singer (1932-2018) e a Paulo Freire por seus ideais democráticos em prol da educação. O pensamento de cada um é enaltecido nos depoimentos sobre o legado de sua trajetória.

Revista Estudos Avançados, número 93, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, 400 páginas, R$ 30,00. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-1675.

  • 182
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados