Revista “Estudos Avançados” analisa o mundo do trabalho hoje

Uberização é um dos temas do número 98 da revista do Instituto de Estudos Avançadas (IEA) da USP

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A economia no Estado do Amazonas, os efeitos da uberização do trabalho nas metrópoles e ensaios sobre obras literárias estão no número 98 de Estudos Avançados – Fotomontagem: Jornal da USP/Luana Franzão

A nova edição da revista Estudos Avançados – publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP – reúne um “substantivo número de estudos baseados em sólidas investigações empíricas que abordam o mundo contemporâneo do trabalho, desde artigos que exploram as relações entre trabalho, gênero e cuidado, incluindo o cuidado sob enfoque jurídico e sindical, até metodologias do trabalho contemporâneo”, como escreve no editorial o professor Sérgio Adorno, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Uberização do trabalho transformou a mobilidade nos grandes centros urbanos, mostra artigo publicado em Estudos Avançados – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Um dos destaques da publicação – de número 98 – é o artigo Uberização: A era do trabalhador just-in-time?, de Ludmila Costhek Abilio, que se baseia em pesquisa empírica de cerca de dez anos com revendedoras de cosméticos e motofretistas, além de dados secundários sobre motoristas de Uber e os chamados bike boys. Compreendendo-se a uberização como um novo tipo de informalização, a autora discute como ela envolve uma generalização de características tipicamente femininas e periféricas do trabalho, conferindo uma nova visibilidade a elementos que estruturam o viver de trabalhadores e trabalhadoras da periferia.

“Nas metrópoles, o fenômeno ganhou visibilidade com a multidão de motoristas e a empresa Uber, que simplesmente vem reconfigurando a questão da mobilidade urbana no mundo; com os entregadores em motocicleta – que já existiam, mas têm agora seu trabalho transformado; também com os jovens negros periféricos que se tornam bike boys no espaço urbano, que por vezes pedalam mais de 50 quilômetros por dia, sete dias por semana, em torno de dez horas por dia, para ter um ganho médio de aproximadamente um salário mínimo, em um trânsito que não oferece condições mínimas de segurança para o ciclista. Mas, em realidade, a uberização abarca diversas ocupações, atravessando o mercado de trabalho de alto a baixo, seja no presente, seja desenhando-se como um futuro próximo e possível”, escreve Ludmila.

Outro artigo é um estudo comparativo que aponta diferenças e similitudes entre experiências e organizações sociais do cuidado no Brasil, na França e no Japão, como destaca Adorno. A diversidade dos contextos social, econômico, político e cultural são temas centrais do artigo Comparando relações de cuidado: Brasil, França e Japão, de Helena Hirata. A autora aborda o trabalho de cuidadoras/es de idosos naqueles três países, considerando a centralidade das mulheres no cuidado, quer gratuito, quer mercantilizado. Além disso, analisa a divisão sexual do trabalho de cuidado, a relação subjetiva ao trabalho e o papel do trabalho emocional, levando em conta as características individuais e as trajetórias profissionais e pessoais das cuidadoras.

Bioeconomia – a economia ligada aos recursos naturais – é uma alternativa ao desenvolvimento do Estado do Amazonas, enfatiza ensaio publicado na nova edição da revista do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP – Imagem: revista Estudos Avançados

A revista ainda traz estudos sobre meio ambiente e desenvolvimento. Entre eles, Estratégias para o desenvolvimento da bioeconomia no Estado do Amazonas, de André Luis Willerding, apresenta um panorama da realidade do Estado do Amazonas com relação ao desenvolvimento de uma bioecomonia fortemente ligada com as potencialidades dos recursos naturais. Essa discussão se encaixa nas buscas por alternativas para a economia do Estado, muito centralizada pelo Polo Industrial de Manaus, que se torna ano a ano cada vez mais ameaçado. Também discute os impactos econômicos e tecnológicos de inovação em biodiversidade e capacitação dos recursos humanos, necessários para alavancar o desenvolvimento de uma ciência aplicada na conversão de produtos da natureza em produtos comerciais.

Outra contribuição se ocupa de tema da maior relevância não apenas para a economia e sociedade no Brasil, mas também para o mundo globalizado, como relata Adorno. Trata-se do artigo Dinâmica climática e biogeográfica do Brasil no Último Máximo Glacial: o estado da arte, de Daniel Meira Arruda e Carlos Ernesto Gonçalves Reynaud Schaefer, um balanço do estado da arte em torno da dinâmica climática e biogeográfica do Brasil no Último Máximo Glacial (UMG). Como relatam os autores, diversos pesquisadores têm proposto modelos para explicar a cobertura da vegetação brasileira sob as condições do UMG desde a década de 1960. Porém, o recente avanço dos modelos climáticos globais tem proporcionado novas perspectivas para uma reconstrução mais fiel das condições pretéritas. “Nesse sentido, aqui discutimos sobre teorias biogeográficas formuladas e modificadas ao longo dos últimos 60 anos de estudos sobre a reconstrução das vegetações do Brasil para o UMG.”

Pintura que retrata o Cerco de Lisboa – Imagem: revista Estudos Avançados

Para fechar o número 98 de Estudos Avançados, há vários estudos culturais. Há “o teatro tardio de Samuel Beckett a partir do conceito de paródia; os mecanismos político-discursivos que caracterizam a epistemologia dos padres da Companhia de Jesus na obra O Jesuíta, de José de Alencar; as disputas estéticas e ideológicas no pensamento católico brasileiro por meio de artigo de autoria de Murilo Mendes; a reflexão sobre a vida e a obra do Marquês de Sade a partir de distintas noções de arquivo; a possibilidade da existência de indivíduos em Mayombe, de Pepetela; os trajes e hábitos (não) vestimentares dos indígenas brasileiros tratados a partir de iniciativa de Johan Maurits van Nassau-Siegen em festa ocorrida em Haia, em 1644”, como cita Adorno, chamando a atenção ainda para ensaios sobre a obra de José Saramago, em especial História do Cerco de Lisboa.

A revista Estudos Avançados, número 98, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP está disponível na íntegra e gratuitamente neste link

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