“Revista do Instituto de Estudos Brasileiros” lembra Sábato Magaldi

Nova edição traz carta inédita de Mário de Andrade para o intelectual, falecido em 2016

Por - Editorias: Cultura
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“Ao sair de um espetáculo, fora dizer se tinha gostado ou não, anotava nos diários dele os detalhes que ele ia desenvolver no dia seguinte, ao escrever a crítica. Escrevia sempre com caneta Bic. Eu nunca li os diários – ele intitulou de Crônica Teatral. Vi que alguns cadernos têm folhas arrancadas, e que faltam alguns, todos com data anterior ao nosso casamento. Serão doados à Academia Brasileira de Letras – ABL. Sábato pediu que só fossem consultados 30 anos depois da sua morte. Acho que são 48 ou 49 cadernos de 400 páginas.” – Edla van Steen sobre Sábato Magaldi – Foto: Reprodução/Revista IEB

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Amor ao teatro. O título do livro que reúne os textos escritos por Sábato Magaldi (1927-2016) para o Jornal da Tarde, entre 1966 e 1988, é a melhor definição de sua trajetória profissional.

Nascido em Belo Horizonte e radicado em São Paulo, Magaldi foi titular da seção teatral do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo e comentarista especializado em teatro do Jornal da Tarde desde seu primeiro número. Deu aulas de História do Teatro na Escola de Arte Dramática (EAD) e se tornou professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Publicou quase 20 livros, dentre eles obras como Panorama do Teatro Brasileiro, O texto no teatro e Depois do espetáculo. Foi ainda um imortal da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 24, que já pertenceu a Manuel Bandeira.

É toda essa dedicação que a Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP homenageia em seu novo número. O volume traz um pequeno dossiê com o perfil do intelectual, seguido de uma entrevista com a escritora Edla van Steen, que foi sua companheira, e de uma carta de Mário de Andrade redigida em 1944 para o então jovem Magaldi, ou “Babá”, como o chama carinhosamente o modernista.

“Sua obra está marcada por uma admirável coerência, em seu empenho em compreender o teatro, sua história e presença na vida cultural brasileira”, pontuam os professores do IEB Marcos Antonio de Moraes  da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e João Roberto Faria em “Sábato Magaldi vivo”, breve perfil que abre o dossiê. Para os docentes, o intelectual foi um entusiasta da modernização do teatro brasileiro. “Dialogou o tempo todo com encenadores, dramaturgos e artistas, sempre tendo em mente o aprimoramento do nosso palco”, comentam.

São os mesmos Moraes e Faria que conduzem a entrevista com Edla Van Steen, na continuidade à homenagem. Responsável por reunir e organizar as críticas de Magaldi que dariam origem ao Amor ao teatro e também ao livro seguinte Na plateia do mundo, a escritora conta histórias recheadas de detalhes sobre a trajetória do companheiro.
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“Além da atividade como jornalista, era procurador do INSS, professor na USP, e secretário de Cultura do Município de São Paulo, durante cinco anos. Trabalhou demais a vida toda. Não tinha tempo para nada. A biblioteca, um caos. Reconheço que desenvolvi rapidamente um viés de bibliotecária para dar um jeito no nosso apartamento. Ele nunca foi de escrever cartas para os amigos. No máximo respondia com pequenos bilhetes.” – Edla van Steen sobre sua intimidade com Sábato Magaldi – Foto: Reprodução/Revista IEB

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“É impressionante como as primeiras críticas eram boas”, comenta Edla sobre o início da trajetória do intelectual. “Sábato dividia a apreciação em três ou quatro comentários. Um sobre o texto e o autor, outro sobre a direção, mais um sobre a interpretação, e ainda analisava os figurinos, a iluminação etc. Não sei como era possível, numa época sem internet!!!”

Segundo a escritora, o amor de Magaldi pelo teatro foi sua maior contribuição para a modernização dos palcos brasileiros. “Sábato sempre lia os textos, apontava defeitos”, destaca. “Fez isso com muitos autores. Além disso, ele participava de seminários de dramaturgia, prefaciava edições de livros, dirigia coleções teatrais, tanto na Editora Brasiliense, como na Abril, participava de assembleias. Sempre foi cúmplice do teatro. E defendeu a participação do Estado no teatro, na produção de espetáculos. Abominava a censura, que nunca deixou em paz o nosso teatro.”

O dossiê termina com uma carta que Mário de Andrade escreveu para Magaldi em 1944. Com apenas 17 anos, o futuro crítico conhecera o modernista quando o escritor visitou Belo Horizonte, naquele mesmo ano. Magaldi ainda não estava seduzido pelo teatro, com seu interesse voltado para a literatura, conforme contextualiza o professor Marcos Antonio Moraes na introdução à correspondência.

Apesar da brevidade da mensagem, o tom de Mário é carinhoso. “Meu caro Sábato, ou melhor, meu querido Babá, que fica mais autêntico”, diz o autor de Macunaíma. “Não posso conversar muito. É cedo, 8 da manhã. E agora vou me chafurdar em pleno séc. XVIII, nas ondas turvas e fugitivas de um pintor-padre danado de curioso e apaixonante mesmo. Lembrança muito sentida a todos daí e guarde este abraço amigo do Mário de Andrade.”

Pertencente ao Fundo Pessoal de Sábato Magaldi, cuja maior parte está no Acervo de Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o documento será doado ao IEB para se juntar às demais cartas de Mário de Andrade que estão no instituto.

Questão racial em foco

Número 68 da Revista do IEB traz dossiê sobre crítico teatral e professor da USP Sábato Magaldi, junto de artigos abordando questões raciais

Além do dossiê sobre Sábato Magaldi, o número 68 da Revista do IEB traz uma série de artigos que abordam a questão racial. É discutido o filme Branco sai, preto fica, de Adirley Queirós, ganham atenção os monumentos, praças e ruas que receberam nomes de personagens negros na cidade de Campinas e são estudados o desenvolvimento e a gestão de projetos sociais junto aos indígenas das margens do Rio São Francisco. Merece destaque também um artigo sobre a produção artística de Tom Zé na década de 1970, analisando seu projeto de música operária e o álbum Estudando o samba. A edição traz ainda resenhas de livros sobre Graciliano Ramos, Lima Barreto e João do Rio.

Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, número 68, 298 páginas. Disponível em: http://www.ieb.usp.br/rieb68/

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