“Revista do IEB” reúne artigos que refletem temas da educação

Publicação do Instituto de Estudos Brasileiros da USP homenageia professores e alunos

 06/01/2021 - Publicado há 1 ano
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A capa da nova edição da Revista do IEB lembra as vítimas da covid-19 no Brasil – Foto: Reprodução
“Diante do consenso sobre a importância da educação, ressoa a pergunta: quem estuda, o que estuda; quem e
como? São questões refletidas nos artigos que passamos a apresentar.” Assim os professores do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP Fernando Paixão, Inês Gouveia e Luciana Suarez Galvão escrevem na introdução da edição número 77 da Revista do IEB, que acaba de ser publicada.
A revista é uma homenagem ao ensino, ao professorado e aos alunos. Isso está refletido até nas fotos publicadas na edição: são imagens presenteadas por alunas ao jovem professor Mário de Andrade, entre 1910 e 1930, com dedicatórias que expressam uma respeitosa e amigável relação pedagógica. “São documentos a partir dos quais se indaga, por exemplo, sobre a dimensão pública e privada da fotografia e das pessoas fotografadas”, acrescentam os professores Paixão, Inês e Luciana, que editam o volume.
Os livros Quarto de Despejo e Laços de Família, publicados em 1960 pela Francisco Alves Editora – Fotos: Reprodução

No primeiro artigo da revista, Pão, Fama e Outras Fomes: Uma Leitura de Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector, a professora Marise Hansen, doutora em Literatura Brasileira pela USP, observa a relação entre as autoras através de suas obras, respectivamente, Quarto de Despejo e Laços de Família, ambas lançadas em 1960 pela Livraria Francisco Alves Editora. O objetivo, segundo a autora, é abordar as duas obras, a despeito das diferenças de gênero literário, de estilo e das problemáticas que instauram, como manifestações de um mesmo tempo, escritas por mulheres. “Se as diferenças são salientes, a começar pelos conflitos que a literatura dessas mulheres deixa transparecer e pelas circunstâncias de publicação das duas obras, também é verdade que ambas participaram de um mesmo discurso cultural de valorização da palavra escrita e da literatura. Revisitar essas obras sob essa perspectiva equivale a problematizar: a tradição da literatura de autoria feminina, a representação da mulher, especificamente da mulher que escreve, o campo literário, a necessidade de escrever e as limitações e angústias associadas a ela, as questões de poder – poder feminino, poder da palavra.”

Em Adoniran Barbosa e a Língua Certa do Povo, Adriano de Paula Rabelo – mestre pela USP em Literatura Brasileira e doutor na mesma área pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos – afirma que um dos aspectos mais interessantes da obra musical de Adoniran Barbosa é a forma como ele estiliza a fala popular. Além disso, Adoniran problematiza a relação entre escolarização e classes populares. “Como se sabe, no Brasil, onde persistem há séculos enormes desigualdades sociais e as classes mais escolarizadas e privilegiadas economicamente demonstram aversão aos pobres, as variantes linguísticas associadas às classes populares têm sido estigmatizadas como ‘erradas’, ‘inexpressivas’, ‘feias’”, escreve Rabelo. Ainda segundo o autor, em seus sambas Adoniran mostra o quanto a fala popular – além de ser adequada às situações vivenciadas pelos personagens que protagonizam as histórias tragicômicas de suas canções – é bela, poética, corretíssima. “Ao expor a cultura e a linguagem dos estratos da sociedade mantidos na invisibilidade, o compositor exerce, ainda que de maneira involuntária, uma resistência às forças mais retrógradas do País.” Como lembra Rabelo, a naturalidade e a espontaneidade com que Adoniran utilizava essa linguagem era algo difícil de atingir, e o próprio Adoniran tinha consciência disso, como expressa numa entrevista: “Não é fácil escrever errado como eu escrevo, pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas, não diz nada”.

Com base na lei número 11.645/08 – que institui a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena no Brasil–, os professores Sanderson Pereira Leal, da Secretaria Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul (MS), e Walter Guedes da Silva, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), analisam o currículo do ensino básico da educação pública no Mato Grosso do Sul, onde se concentra a segunda maior população indígena do País, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No artigo Educação, Currículo e Diferenças: Uma Análise dos Povos Indígenas na Educação Escolar de Mato Grosso do Sul, Brasil, eles apresentam ainda uma preocupação com o crescimento de diversas formas de violência cometida contra esses povos dentro e fora do ambiente sociocultural a que pertencem. Os autores informam que, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), coletados entre 2003 a 2017, o Estado do Mato Grosso do Sul contabilizou 461 assassinatos de indígenas, entre os 1.119 ocorridos em todo o território brasileiro, o que corresponde a 41% do total de assassinatos de indígenas no período. Entre as principais causas, afirmam, estão os conflitos com produtores rurais pelo uso e/ou posse de terras e o confinamento dos povos indígenas em reservas que não permitem a sobrevivência integral desses povos.

Educação na Região Centro-Oeste do Brasil é tema de artigo publicado na Revista do IEB – Foto: Divulgação

Educação Básica e o Acesso de Transexuais e Travestis à Educação Superior é assunto tratado por Tatiane Lima, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), com o objetivo de analisar como os debates de gênero e sexualidade durante a educação básica podem interferir no acesso de transexuais e travestis à educação superior. O estudo é baseado em dados obtidos por meio de pesquisas realizadas por iniciativas de projetos, produções acadêmicas, organizações não governamentais (ONGs), redes de apoio ou de associações, como também por notícias em mídias sociais, além das ações governamentais que têm o intuito de promover equidade e respeito às identidades de gênero na escola. A autora mostra que, embora as questões de gênero e sexualidade tenham obtido relevância em políticas e legislações que se vinculam tanto ao campo da educação como a outros campos, estudantes transexuais e travestis ainda têm dificuldade para concluir o período de escolaridade obrigatória; concluindo que “propor reflexões e trabalhar conceitos nas escolas de educação básica não é o suficiente, é preciso investir na formação inicial e continuada de todo o corpo docente”.

“Talvez não haja, nos estudos brasileiros, tema mais discutido, investigado, combatido e defendido do que o da democracia racial. Termo geralmente associado ao nome de Gilberto Freyre, a chamada ‘democracia racial’ ajudou a pautar a agenda das ciências sociais tanto no âmbito nacional como internacional”, afirma Alfredo Cesar Melo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no artigo O Texto e o Pacto: Estratégias Discursivas em Casa-Grande & Senzala para Pactuar a Democracia Racial. A partir da complexa e  multidimensional definição de democracia racial estabelecida por Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (mito, ideal e pacto), o autor analisa como Gilberto Freyre estabelece discurso  performativo sobre a democracia racial, em que supostamente se constatariam as interações não racistas dos brasileiros, ao mesmo tempo que também articula um discurso da democracia racial como pedagogia, em que ele desmente os estigmas raciais relacionados à presença do negro no Brasil, e busca celebrar as contribuições materiais e imateriais dos negros à cultura brasileira.

Outros cinco artigos completam a publicação: Sobre “Ser Caboclo”: as Vozes de Caboclos do Oeste Catarinense, de autoria de Maria de Souza, Luci dos Santos Bernardi e Jorge Alejandro Santos, faz um inventário acerca da cultura imaterial dessa região; O Brasil e os Brasis no Antropoceno: Bifurcações à Vista, de Stelio Marras, apresenta uma série de indagações, à luz do contexto atual, em que não se pode dissimular os constrangimentos diante da situação ecossocial. Anna Maria Maiolino sob a Perspectiva da Crítica de Processo: Vestígios da Criação, assinado por Vinícius de Oliveira Gonçalves e Cecilia Almeida Salles, discute a obra da artista sob a perspectiva de seu processo de criação.Esquecer Williams?”: Materialismo Cultural, Estruturas de Sentimento e Pesquisas sobre Música Popular no Brasil, de Sheyla Castro Diniz, retoma aspectos do debate crítico de Raymond Williams, discutindo o potencial de suas reflexões para a pesquisa em música popular. O último artigo, Pequeno Monstro e Leviano: Infância e Adolescência de Mário Peixoto, de Denilson Lopes, traz trechos de diário inédito de Peixoto, chamado de Cadernos Verdes, dividido em duas partes: a narrativa de Mário Peixoto, e as cartas trocadas pelo escritor com sua prima.

Heloisa Buarque de Hollanda e a coletânea que organizou em 2019 – Fotos: Reprodução/ Amazon e Arquivo Pessoal

A revista ainda traz duas resenhas, elaboradas a partir da obra Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e Contexto, coletânea organizada por Heloisa Buarque de Hollanda e publicada em 2019. Em Estudos Feministas Brasileiros: (Re)conhecer e Continuar, Renata Cardozo Padilha comenta a obra e a sequência de suas quatro partes, destacando aspectos fundamentais, como as interseccionalidades, além de fornecer um olhar crítico acerca das questões de gênero. Na segunda resenha, Feminismo Brasileiro como Luta e Epistemologia, Gleyce Kelly Heitor explica a seleção feita por Heloisa Buarque de Hollanda no intuito de oferecer referências e repertórios para a atual geração de pesquisadoras, pesquisadores e ativistas que se identificam com a pesquisa e a luta feminista, além de inserir o contexto histórico ao mapear os debates nacionais e internacionais, históricos e emergentes.

Fechando a revista, a seção Documentação traz Diários de Maria Isabel Silveira: Vestígio e Inscrição de Uma Voz, de Mariana Diniz Mendes. O texto aborda o conjunto de 62 cadernos pertencentes a Maria Isabel Silveira, casada com o escritor e político Valdomiro Silveira, cujo acervo pessoal foi doado ao IEB em 2006. Segundo a autora, os volumes acolheram a sua escrita diarística como registro do cotidiano de sua família, especialmente de seus filhos e, posteriormente, de seu dia a dia. “O presente estudo versa sobre materialidade documental, escrita feminina e memória das mulheres, tendo como corpus os diários de Maria Isabel, uma mulher que, com rigor e disciplina, escreveu sobre si e, consequentemente, sobre sua época”, escreve Mariana. Além disso, a autora inclui estudo sobre o livro publicado pela neta de Maria Isabel Silveira, observando neste a suspensão do conteúdo político e do estilo verborrágico dos originais. Como concluem os editores: “Do fim voltamos ao começo. E, novamente, convém refletir sobre presenças e ausências, sobre quem é sujeito e quem é objeto”.

A Revista do IEB número 77, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, está disponível neste link.


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