Projeto da Biblioteca Brasiliana convida à leitura

Leitura de Autores promove encontro, nesta quarta-feira, dia 24, com o escritor Marcelino Freire

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A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, local do evento Leitura de Autores – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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O ciclo de palestras Leitura de Autores promove encontros com escritores contemporâneos sobre sua formação como leitores e como essas leituras influenciaram em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Promovido pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e pelo Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele) da USP, o projeto é coordenado pelos professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho e Jean Pierre Chauvin. O próximo convidado é o escritor e editor pernambucano Marcelino Freire, que participa do encontro no dia 24 de outubro, às 16 horas, na Sala Villa-Lobos do Complexo Brasiliana.

Segundo Martins Filho, a Biblioteca Brasiliana tem uma característica especial. “Ela não é uma biblioteca de consulta imediata e sim de obras raras, de primeiras edições, com um acervo voltado ao pesquisador. Mas entre as atividades de uma biblioteca deve estar sempre em primeiro lugar a questão da leitura, que era de alguma forma uma obsessão de José Mindlin, que dizia que queria inocular um vírus nas pessoas, e que esse vírus seria o da leitura. Claro que não temos essa pretensão, mas queremos desenvolver atividades em que a leitura seja objeto de percepção, audição e desenvolvimento das pessoas”, afirma.

Foi a partir daí que surgiu a ideia de convidar autores para falar de suas leituras, conta Martins. O que eles leram para se transformar em escritores? Como eles chegaram a essa carreira? Foi intuição, foi formação? São algumas das questões que os escritores vão responder, principalmente, para alunos de colégios públicos, como diz o professor. “Porque quando se fala em autores, esses jovens só se lembram de Machado de Assis e José de Alencar”, completa. Além desse público, como escreve o professor Chauvin no texto de apresentação do projeto, “o evento visa a estimular o encontro de profissionais da palavra (em verso e prosa) com aqueles que já são aficionados por literatura, mas também leitores em potencial: alunos, pesquisadores, professores, escritores amadores etc.”.

Plinio Martins Filho: “O projeto visa a desenvolver atividades em que a leitura seja objeto de percepção, audição e desenvolvimento das pessoas” – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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A edição de estreia do projeto traz autores contemporâneos. O primeiro encontro, realizado em setembro, contou com a participação da escritora, jornalista, professora e crítica de arte brasileira Veronica Stigger, que depois de três livros de contos lançou seu primeiro romance Opisanie swiata (Descrição do mundo, em polonês), com o qual ganhou vários prêmios – na plateia, alunos do Colégio José Mindlin (no Grajaú), uma homenagem ao bibliófilo.

O segundo convidado foi Rodrigo Lacerda, que, segundo Martins, é um escritor jovem, mas com uma carreira consolidada, tanto no âmbito da ficção, da narrativa, do conto, quanto como excelente tradutor. Entre suas obras, o professor cita dois livros do autor diretamente ligados à questão da leitura, O Fazedor de Velhos (Cosac & Naif, 2008, premiado com Jabuti, prêmio da Biblioteca Nacional e prêmio da FNLIJ) e Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos (Zahar, 2015, Prêmio Jabuti), um guia de leitura de obras do dramaturgo inglês.

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A linguagem “teatral” de Marcelino Freire

Leitura de Autores traz agora Marcelino Freire, um dos mais festejados contistas brasileiros da nova geração. É dono de uma prosa marcada pela representação da violência do Brasil contemporâneo, narrada em primeira pessoa e com uma linguagem baseada na oralidade, o que confere uma veia teatral a suas obras. “Eu escrevo para dar vexame”, define o autor. “Minha prosa solta o verbo, solta os cachorros do peito, abocanha a perna de quem passa. Sou meio um cachorro louco. Mas posso abanar o rabo idem, se for o caso.”

Segundo o escritor, seu gosto pela leitura surgiu aos nove anos de idade, quando leu uma poesia de Manuel Bandeira. “A partir daí fui atrás de mais poesias do poeta recifense. Fiquei orgulhoso de saber que ele era pernambucano igual a mim. A partir daí também quis ser doente igual ao Bandeira. A poesia dele foi uma maldição e uma salvação na minha vida”, afirma. Além da poesia, o teatro é o outro “culpado” por ele seguir essa carreira de escritor. “A leitura de poesia foi me levando e o fato de eu ter feito teatro também.”

Freire começou sua carreira escrevendo para teatro, com a peça O Reino dos Palhaços (1981), e já teve vários contos adaptados para a cena teatral. “Hoje eu escrevo meus contos pensando em teatro. Construo, assim, uns monólogos. Quando escrevo, penso no corpo e no gesto de meus personagens.” Outra inspiração é sua mãe, “muito teatral”, como ele afirma. “A fala nordestina dela tinha poesia e tinha tragicomédia, e me inspirou tal qual Guimarães Rosa.” E acrescenta: “O silêncio do meu pai também foi inspirador. Meu pai está sempre nas entrelinhas de minha escrita”.

Marcelino Freire: “O livro que eu mais leio é a rua. A rua está aberta sempre à criação pura” – Foto: Coletivo Garapa/Flickr.com

Entre os seus autores preferidos cita Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Noémia de Sousa, Carolina Maria de Jesus, Jean Genet e Manoel de Barros. Dos atuais, André Sant’Anna, Andréa Del Fuego, Aline Bei, Sérgio Vaz, Ferréz, Lourenço Mutarelli e muitos poetas. “Leio poesia sempre. E ensaios também. Estou fissurado em ensaios e diários. É muita gente ao mesmo tempo…” Mas o livro que mais lê, segundo ele, é a rua. “A rua está aberta sempre à criação pura.”

É autor, entre outros livros, de Angu de Sangue (2000) e EraOdito (2002) pela Ateliê Editorial; Contos Negreiros (Record, 2005, Prêmio Jabuti, traduzido na Argentina e México); e Nossos Ossos (Record, 2013), ganhador do Prêmio Machado de Assis de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional e publicado na Argentina e na França. Também é idealizador e organizador da antologia de microcontos Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004).

Freire é um dos integrantes do coletivo EDITH, pelo qual lançou o livro de contos Amar É Crime (2011), marcando também presença em diversas antologias no Brasil e no exterior – a última, Olhar Paris (Editora Nós, 2016). E criador do evento Balada Literária, que reúne escritores e artistas para debater a arte contemporânea. “Evento que toco na guerrilha desde 2006, anual e ininterruptamente”, adiantando que a 13ª edição será realizada de 20 a 25 de novembro.

Também escreve o blog Ossos do Ofídio, uma espécie de diário em que publica ensaios, poemas e comenta acontecimentos da atualidade; e acaba de lançar seu livro, depois de cinco anos, Bagaceiro (Editora José Olympio). “Estou de mãos dadas com esse livro. É paixão recente. É um livro de contos que, na verdade, eu chamo de ‘ensaios de ficção’. Misturo prosa e causos, e tem muita mentira lá. Adoro mentir.” Fora isso, diz, “estou de olho no Brasil. Estou juntando forças para lutar, fora e dentro da literatura. Não tem descanso para mim. Se eu descansar eu morro, ou vejo meu país morrer. Não desejo para ninguém este fim…”

Mais leituras

Cartaz do projeto, criado por Piqueira, traz uma batata com diversas cores, em uma metáfora para as várias interpretações tanto da imagem quanto da leitura, segundo o coordenador e professor Plinio Martins Filho – Foto: Divulgação / BBM – USP (Clique na imagem para ampliar)

O projeto Leitura de Autores recebe ainda neste ano, no dia 28 de novembro, o professor e poeta José de Paula Ramos Jr. E para a próxima edição, prevista para março de 2019, já estão confirmados Milton Hatoum, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, Arnaldo Antunes e José Agnaldo Gonçalves, em um encontro onde, como conta Martins, o professor (José Agnaldo Gonçalves) fala das leituras que fez, e o aluno (Arnaldo Antunes) diz o que assimilou, transformando-se em autor e músico. Um convite ao universo da leitura que, como escreve Chauvin, “mais não digo, a fim de evitar spoiler”.

O projeto Leitura de Autores, com Marcelino Freire, acontece no dia 24 de outubro, das 16 às 18 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (R. da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, tel. 3091-1154). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail bbm@usp.br.

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