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Professores da USP discutem a noção digital de cidadania

Evento Admiráveis Pensamentos Novos acontece nesta quinta-feira, dia 9, às 15 horas, com transmissão ao vivo

 08/09/2021 - Publicado há 1 mês

Por: Claudia Costa

Arte: Simone Gomes

A superindústria do imaginário, as políticas da imagem, a cidadania digital e a sociedade incivil serão discutidas no evento Admiráveis Pensamentos Novos, que vai reunir os professores Eugênio Bucci, Massimo Di Felice, ambos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Giselle Beiguelman, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), também da USP, e Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que acaba de assumir a Cátedra Otavio Frias Filho, mantida pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e pela Folha de S. Paulo (leia o texto abaixo). Com mediação do professor Carlos Vogt, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o evento acontece nesta quinta-feira, dia 9, das 15 às 17 horas, com transmissão ao vivo pelo site do IEA.

Abrindo os debates, o professor Eugênio Bucci, coordenador acadêmico da Cátedra Oscar Sala, que organiza o evento, fala sobre seu novo livro, A Superindústria do Imaginário: Como o Capital Transformou o Olhar em Trabalho e se Apropriou de Tudo que é Visível (Editora Autêntica). Segundo o autor descreve na orelha da obra, o capitalismo entrou em acelerada mutação e o corpo da mercadoria perdeu lugar para a imagem da mercadoria, interpelando o sujeito pelo desejo, não mais pela necessidade.

“O valor de uso deu lugar ao valor de gozo. Assim, os conglomerados monopolistas globais que se ocupam da comunicação, da exploração do olhar e da extração dos dados pessoais – e dos quais as mídias digitais são um combustível e uma extensão – se tornaram o centro do capitalismo, a aura mais fulgurante da superindústria do imaginário”, escreve Bucci. Para explicar essa mudança de curso a partir da qual a comunicação desenvolveu a capacidade de fabricar valor em escala superindustrial, dominando o capitalismo, o professor utiliza conceitos da sociologia jurídica, linguística, física, filosofia, psicanálise e economia política, além de elementos da própria comunicação.

Eugênio Bucci,  - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Eugênio Bucci - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Também recém-lançado, o livro Políticas da Imagem: Vigilância e Resistência na Dadosfera (UBU Editora), de Giselle Beiguelman, colunista da Rádio USP, trata do papel da imagem nas relações sociais hoje. Imagem digital, selfies, memes, deep fake, internet das coisas, Inteligência Artificial e censura digital são discutidos em ensaios inéditos, em uma reflexão sobre a imagem no mundo contemporâneo. Segundo a autora, as imagens tornaram-se as principais interfaces de mediação do cotidiano, e atualmente são um campo de tensões e disputas políticas.

Como afirma Giselle, a incontável produção das imagens configura uma nova estética da vigilância. Para a autora, a distribuição massiva de smartphones está associada a um novo regime de vigilância, não mais instituído pelo Estado, mas resultado da captação sistemática de dados pessoais, oferecidos deliberadamente pelos usuários às plataformas de mídias sociais – a dadosfera. “A imagem se tornou um campo de batalha. Um território instável atravessado por toda sorte de embates: tecnológicos, estéticos, comerciais, sociais, subjetivos, biopolíticos”, escreve a professora Fernanda Bruno, da UFRJ, na apresentação do livro.

Giselle Beiguelman – Foto: IEA/USP

O livro A Cidadania Digital, do professor Massimo Di Felice, publicado no Brasil pela Editora Paulus, propõe uma análise teórica da ruptura epistêmica da contemporaneidade. Segundo Felice, no começo do terceiro milênio, entramos num profundo processo de transformação. “Não somente a pandemia mas, também, as alterações climáticas e o conjunto de inovações tecnológicas digitais nos impuseram uma mudança de passo e uma profunda transformação da nossa condição habitativa”, escreve. Segundo ele, esses novos atores sociais são capazes de influenciar e de alterar os processos decisionais das pessoas e suas ações.

Felice defende que, diante de tais mudanças, a ideia de sociedade composta apenas de cidadãos é obsoleta, dando lugar a uma outra ecologia, formada por outro tipo de parlamentos aos quais temos acesso através de softwares, sensores e big data, e que, conectando as diversas superfícies de Gaia, reúnem toda a biosfera. “A cidadania do terceiro milênio é o resultado da conectividade e da interação das diversas esferas: a biológica, a geológica, a do clima, que, uma vez transformadas em dados pelo processo de ‘datification‘, passam a compor um novo e interativo ‘co-mundo’”, afirma, acrescentando que “entramos na época das ‘hiperinteligências’, como a define J. Lovelock, onde habitamos redes ‘simpoiéticas’ (D. Haraway) e na qual agimos, pensamos, decidimos e mudamos enquanto conectados”.

Massimo Di Felice – Foto: ECA

A sociedade incivil é um conceito defendido pelo novo catedrático do IEA Muniz Sodré em seu livro que acaba de ser publicado pela Editora Vozes. A Sociedade Incivil: Mídia, Iliberalismo e Finanças apresenta as mudanças do velho civilismo liberal. Como descreve um extrato da obra: “As consequências sociais, políticas e culturais do fenômeno do ‘iliberalismo’ são inquietantes por sua recorrente ameaça à estabilidade da democracia e das instituições em regiões diversas do planeta”. Para o autor, esse é o mundo-zero dos valores ou a sociedade “incivil”, como define. Seu livro sugere a regeneração da realidade objetiva asfixiada pelas redes, propondo a reinvenção da práxis pela busca reconciliatória da política com o espírito.

O evento Admiráveis Pensamentos Novos será realizado nesta quinta-feira, dia 9, das 15 às 17 horas, com transmissão ao vivo pelo site do IEA. Grátis. Não é necessário fazer inscrição. Mais informações neste link

Sociólogo e comunicólogo Muniz Sodré assume Cátedra Otavio Frias Filho

O professor Muniz Sodré, primeiro titular da Cátedra Otavio Frias Filho, mantida pela USP e pelo jornal Folha de S. Paulo – Foto: Dan Figliuolo/UFBA via IEA

Professor Emérito e um dos fundadores da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré é o primeiro titular da Cátedra Otavio Frias Filho, criada em fevereiro deste ano no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, a partir de um convênio firmado entre a Universidade e a Folha de S. Paulo. Com o objetivo de desenvolver estudos nas áreas de comunicação, democracia e diversidade, a cátedra é um centro de pesquisas e disseminação do conhecimento sobre o papel da comunicação, em especial o jornalismo, para a manutenção e o constante fortalecimento da democracia, incluindo os direitos das minorias e contra os diferentes tipos de discriminação, bem como outros fenômenos relacionados, como os novos populismos, que ameaçam o Estado democrático de direito.

Como afirma Sodré, em entrevista concedida ao jornalista Mauro Bellesa, do IEA, suas pesquisas estão relacionadas à “indagação multiforme sobre a existência e a consistência do povo brasileiro”, que, segundo ele, ganha novos contornos neste século a partir de “uma movimentação identitária de baixo para cima, em que a diversidade humana se impõe e põe em questão a unicidade do ‘povo nacional'”.  Por outro lado, diz, a realidade paralela que vem sendo progressivamente construída por mídia e algoritmos também inventa um povo específico, indagando: “o que seria afinal o povo brasileiro?”.

Outro debate proposto por Sodré, como relata na entrevista, é o de como se contrapor ao que chama de “sequestro da fala”, ou seja, “a intervenção da comunicação eletrônica nos discursos sociais”. Segundo ele, “os subterrâneos criptográficos constituem um universo à parte, cuja ‘sombra’ tem realidade e progressivamente expropria os circuitos autônomos da fala. Isso é algo que se observa até mesmo na superfície das trocas linguísticas cotidianas. A comunicação funcional a serviço exclusivo do mercado neutraliza a fala comunitária”. Além disso, diz, “o poder do capital tenta construir um ordenamento social imóvel, mas pleno de respostas programadas. O sujeito consumidor se esbalda na compulsão à repetição, alheio ao sequestro tanto do humano como da natureza pelo poder, fascinado pela criação simulada de riquezas e de bens”.

Sodré ainda fala na entrevista sobre o futuro do jornalismo e o esvaziamento da representação política. Segundo ele, a notícia é uma espécie de marcação temporal do cotidiano pelo acontecimento, mas quando “a notícia passa a ser garantida apenas pelo clique do sujeito num teclado de computador ou de celular, não mantém a devida distância da fofoca ou do boato”. Para ele, é tarefa do jornalismo restaurar a dignidade da notícia, possivelmente combinando-a com o debate de ideias e com a crítica social das instituições.

Sobre a questão do enfraquecimento da representação política, disse que esse é um fenômeno mundial, com modalidades diferentes e em diferentes graus de intensidade: “Ele caminha pari passu com o enfraquecimento do regime parlamentar e da democracia política”. Para ele, a política é fundamental e reconstruí-la implica buscar formas deliberativas que não sejam totalmente homogêneas ao capital. “A questão das redes é importante, mas não é central.”

Natural de São Gonçalo, na Bahia, Sodré graduou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), é mestre em Sociologia da Informação e Comunicação pela Universidade Sorbonne (França) e doutor em Letras pela UFRJ, onde atua como livre-docente em Comunicação. Com pós-doutorado também pela Sorbonne, atuou como pesquisador-colaborador na Universidade de Tampere, Finlândia. Trabalhou como jornalista em várias publicações, deixando a área em 1974 para se dedicar à carreira acadêmica. Dirigiu a TV Educativa e foi presidente da Biblioteca Nacional. Atualmente, é membro da Academia Baiana de Letras e tem atuação destacada na pesquisa sobre a cultura afro-brasileira e sua defesa e na luta contra o racismo. É autor de 45 livros, dentre eles, o recente A Sociedade Incivil: Mídia, Iliberalismo e Finanças.

Capa do livro de Eugênio Bucci - Foto: Reprodução

Capa do livro de Giselle Beiguelman - Foto: Reprodução

Capa do livro de Massimo Di Felice - Foto: Reprodução


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