Professora da USP discute a pandemia por meio da dança

Vídeo “Coreografia do Vírus” é um “comentário político dançado”, segundo a professora Andréia Nhur

Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=337986
A professora Andréia Nhur em cena do vídeo Coreografia do Vírus – Foto: Reprodução/ Youtube

Por Amanda Ferreira

Há cerca de quatro meses, a professora Andréia Vieira Abdelnur Camargo (Andréia Nhur), do Departamento de Artes Cênicas (CAC) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, chegou à Bélgica como professora visitante da Ghent University. Naquele momento, o contágio por covid-19 estava em plena ascensão na Europa e começava a se alastrar no Brasil. Ao longo das semanas seguintes, enquanto cumpria as medidas de isolamento implementadas pelo governo belga, a docente acompanhou com apreensão as notícias sobre a pandemia em solo brasileiro.

Para reagir a um quadro que classifica como “aterrorizante”, Nhur realizou com a artista Paola Bertolini o vídeo Coreografia do Vírus. “Uma espécie de comentário político dançado”, segundo as palavras da professora, o vídeo faz uma metáfora sobre o papel do presidente Jair Bolsonaro e de seu governo nas crises sanitária, econômica e política que hoje atingem o País.

O vídeo se insere na profusão de materiais audiovisuais que vêm sendo realizados no âmbito das artes performáticas durante a pandemia. Impossibilitados de ocupar os palcos, os artistas têm recorrido principalmente às redes sociais, promovendo encontros e experiências de caráter coletivo em plataformas que foram e ainda são criticadas como espaços voltados exclusivamente para o culto ao individualismo.

A artista Paola Bertolini – Foto: Arquivo pessoal

“As artes da presença sofrem pela nulidade de espaço que possa abrigar algo além do compartilhamento de obras filmadas ou de lives. Os espaços de intimidade (que fora desse contexto pandêmico poderiam ser lidos como projeção narcisística) se tornaram uma das únicas plataformas de criação para os artistas na pandemia”, diz a professora.

Não é a primeira vez que a docente faz reflexões políticas por meio da dança. Em 2016, pouco antes do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, Nhur lançou um vídeo chamado Coreografia do Golpe, também realizado em parceria com Paola Bertolini. A intenção naquele momento, assim como hoje, era “chamar o público para uma discussão urgente”, afirma a professora.

Além de oferecer uma perspectiva crítica para o contexto brasileiro atual, as coreografias de Andréia Nhur dialogam com seu principal objeto de pesquisa no momento. Como professora visitante do Departamento de História da Arte, Musicologia e Estudos do Teatro da Ghent University, ela tem realizado estudos sobre a relação entre som e movimento nas artes cênicas contemporâneas, com ênfase “nas dinâmicas de integração entre voz e movimento em performances que envolvem multitarefas, como cantar dançando ou falar em movimento”.

A realização do Projeto Sonorocoreográfico envolve pesquisa bibliográfica, estudo de técnicas vocais expandidas, investigação artística, captação de movimento e áudio nos laboratórios do departamento e participação no grupo de pesquisa do Institute for Systematic Musicology (Ipem). Nhur também desenvolve atividades junto ao ArtScienceInteractionLaboratory (Asil), do mesmo departamento. Os resultados previstos para o projeto incluem publicação de artigos, criação de obra artística e desenvolvimento de novas disciplinas a serem ofertadas no CAC e no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da ECA. O projeto conta com financiamento da Capes, por meio de bolsa concedida pelo Programa Institucional de Internacionalização (Print).

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.