Professor da USP analisa os quartetos de cordas de Villa-Lobos

Em livro, Paulo de Tarso Salles investiga uma das maiores séries de quartetos do século 20

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Trecho de partitura para viola do Quarteto de Cordas Número 1, de Villa-Lobos, em manuscrito do compositor – Foto: Reprodução/livro Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função / Fonte: Museu Villa-Lobos, Rio de Janeiro.

Em seu novo livro, Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função, o professor Paulo de Tarso Salles, docente de Teoria e Análise Musical do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, investiga os processos e aspectos composicionais e formais dos 17 quartetos de cordas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), considerado o mais importante compositor brasileiro.

O conjunto de seus quartetos de cordas, datado de entre 1915 e 1957, compõe uma das maiores séries de quartetos do século 20, fato que demonstra a importância dada pelo compositor a esse grupo de música de câmara, formado por dois violinos, uma viola e um violoncelo. Além desses 17 quartetos, Villa-Lobos escreveu mais seis obras para esses quatro instrumentos, segundo o catálogo publicado pelo Museu Villa-Lobos do Rio de Janeiro.

Trecho de partitura para violoncelo do Quarteto de Cordas Número 1, de Villa-Lobos, em manuscrito do compositor – Foto: Reprodução/livro Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função / Fonte: Museu Villa-Lobos, Rio de Janeiro

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Lançado pela Editora da USP (Edusp), o livro é dividido em quatro partes. Na primeira, Salles contextualiza o leitor diante dos quartetos de Villa-Lobos e faz uma revisão bibliográfica de outros estudos dedicados a essas obras. Ele comenta que, apesar de certas obras do compositor apresentarem algumas datas de composição questionadas por estudiosos, pode-se dizer que Villa-Lobos esteve dedicado à composição de quartetos durante praticamente toda sua vida. Apenas durante a década de 1920, quando viveu em Paris, ele não apresentou obras escritas para essa instrumentação, dedicando-se aos Choros e a outras formações camerísticas. Ao retornar ao Brasil, nos anos 1930, retomou a série de quartetos, na mesma época em que começou a compor a conhecida série Bachianas Brasileiras, na qual promoveu o diálogo entre o compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) e a música popular brasileira.

Partitura do Quarteto de Cordas Número 1, esboço do compositor – Foto: Reprodução/livro Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função / Fonte: Museu Villa-Lobos, Rio de Janeiro

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Fotomontagem de Villa-Lobos trajando roupão feito com o mesmo tecido do papel de parede – Foto: Reprodução/livro Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função / Fonte: catálogo da exposição Viva-Villa, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro

Arnaldo Estrella, autor pioneiro e referência no estudo dos quartetos de cordas do compositor brasileiro, citado por Salles, afirma que, se Bach serviu de modelo para as Bachianas, os quartetos de Villa-Lobos foram inspirados pelo austríaco Joseph Haydn (1732-1809), compositor clássico e autor de mais de 80 quartetos de cordas.

Na segunda parte de sua obra, Paulo de Tarso Salles apresenta as influências sobre o compositor. Em sua totalidade, pode-se dizer que os quartetos villa-lobianos representam a sua “escuta peculiar” das tradições europeias. Na virada para o século 20, o Rio de Janeiro estava voltado para Paris. Na então capital federal, os compositores e instrumentistas estudavam a música contemporânea feita na França. Naquele período, Villa-Lobos se interessou pela música moderna francesa, e suas composições de juventude foram marcadas por essa influência. Os Quartetos de Cordas  2 e 3 demonstram mais claramente como ele estava em contato com o estilo de compositores franceses como Vincent d’Indy, Cesar Franck, Camille Saint-Saens e Claude Debussy.

Segundo Arnaldo Estrella, Villa-Lobos afirmava, em conversas particulares, ter adquirido muito do seu “métier de compositor” estudando os quartetos de Joseph Haydn. Porém, Paulo de Tarso Salles aponta que é intrigante o fato de Villa-Lobos ter escolhido Haydn como modelo formal, pois no início do século 20 o compositor austríaco ainda não integrava o “cânone dos maiores compositores”, já que sua redescoberta se deu em 1932, por ocasião de seu bicentenário de nascimento. Mesmo assim, o recorte formal clássico do Quarteto de Cordas número 6, de 1938, pode ser associado com esse interesse por Hadyn, trazendo a forma sonata para seu estilo maduro.

O livro de Paulo de Tarso Salles, lançado pela Editora da USP – Foto: Reprodução/Edusp

Apesar dessas influências, não é raro Villa-Lobos ser considerado por estudiosos um compositor intuitivo, pouco racional e anti-intelectual. Na contramão desse pensamento, Paulo de Tarso Salles apresenta, na terceira e na quarta parte do seu livro, uma análise dos quartetos que segue por diferentes caminhos das áreas da musicologia histórica, da semiótica e da teoria e análise musical, resultando em um estudo aprofundado sobre a correlação da estrutura musical com os elementos retóricos de identidade nacional, a noção de simetria e a função formal na obra do compositor, assim como as tópicas musicais brasileiras concebidas por Villa-Lobos.

Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função, de Paulo de Tarso Salles, Editora da USP (Edusp), 376 páginas, R$ 58,00.

AMANDA FERRARESI

 

 

Ouça no link abaixo entrevista com o professor Paulo de Tarso Salles, autor do livro Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos – Forma e Função. A entrevista foi feita pelo jornalista Marcello Bittencourt e transmitida no programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz), no dia 2 de abril de 2019.

 

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