Preservar as escassas florestas das cidades é o desafio

No livro “Natureza em Megacidades”, Jörg Spangenberg defende a vegetação integrada à paisagem de concreto

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São Paulo e o verde do Ibirapuera – Foto: Jörg Spangenberg/Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana

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A importância da integração da natureza no espaço urbano é apresentada por Jörg Spangenberg no livro Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana. Lançada pela Editora da USP (Edusp), a obra apresenta um estudo detalhado sobre os benefícios da vegetação como uma solução para adaptar as cidades às mudanças climáticas e garantir uma melhoria da qualidade de vida da população.

A pesquisa foi apresentada como tese de doutorado do autor na Universidade Bauhaus, na Alemanha, em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Spangenberg é arquiteto, urbanista e engenheiro alemão radicado no Brasil. Optou pela cidade de São Paulo como objeto de pesquisa. “São Paulo foi uma das primeiras cidades do século 20 a atingir o status de megacidade”, justifica. “Foi escolhida para este estudo por ser considerada um exemplo icônico e relativamente antigo de uma megacidade com todos os seus benefícios culturais, seus contrastes e problemas ambientais, e por ser uma das cidades com a menor taxa de cobertura vegetal do mundo, apenas 2,6 metros quadrados por habitante.”

Segundo o pesquisador, “o rápido processo de modernização de São Paulo levou ao desrespeito, à ignorância, à negação e à expulsão de elementos naturais como vegetação, rios, riachos e solos abertos no interior da área metropolitana.”.

Os contrastes da cidade: a comunidade Paraisópolis e o edifício de alto padrão no bairro do Morumbi – Foto: Tuca Vieira/Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana

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“No discurso urbanístico do século 20, é possível observar que a vegetação urbana tem sido quase sempre negligenciada.”

 

Rua Voluntários da Pátria sombreada por copas de árvores em Araraquara – Foto: Jörg Spangenberg/Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana

O livro chega em um momento de questionamentos sobre a qualidade de vida nas metrópoles. “A vegetação urbana é um dos elementos mais óbvios para se melhorar a qualidade ambiental e reverter parcialmente os impactos ambientais negativos da urbanização”, defende o autor. “Mas, no discurso urbanístico do século 20, é possível observar que a vegetação urbana tem sido quase sempre negligenciada, provavelmente porque não representa urbanidade em seu sentido tradicional.”

O arquiteto lembra que os arquitetos brasileiros modernos mantêm um diálogo entre suas construções e a natureza tropical. Aponta os jardins de Roberto Burle Marx, em colaboração com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, em Brasília. Cita também o projeto inicial de Lina Bo Bardi de fachadas verdes para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), que se limitou à execução da base na parte de trás do prédio.

Mudanças na paisagem de mata atlântica – Foto: Bjorn Crhistian Torrissen/Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana

Na defesa de que a relação entre os homens e seu ambiente precisa ser revisada e discutida, Spangenberg apresenta a sua pesquisa em sete capítulos, que discutem os desafios ambientais nas megacidades, a relação entre os moradores da cidade e seu meio ambiente, a metropolização e os conflitos ambientais e o papel da vegetação urbana. Apresenta um panorama de custos e benefícios, além dos conceitos de floresta urbana de São Paulo, destacando as raras áreas onde ainda estão fragmentos da Mata Atlântica.

O livro de Jörg Spangenberg, lançado pela Editora da USP (Edusp) – Foto: Reprodução

O livro termina com Spangenberg entrevistando Oscar Niemeyer. O autor indaga: “A natureza na sua arquitetura hoje seria puramente formal ou também integrada ao meio físico?”. Niemeyer responde:

Para mim, a arquitetura tem de levar em conta a natureza que a envolve. As áreas, os espaços mais próximos da arquitetura fazem parte dela. A natureza do solo, as inclinações que aparecem no local onde deve ser construído um edifício fazem parte também, a meu ver, da arquitetura. Daí evitar, ao máximo, nos edifícios que projeto, cortes no terreno, áreas subterrâneas etc.”

Natureza em Megacidades – Serviços Ambientais da Floresta Urbana, de Jörg Spangenberg,  Editora da USP (Edusp), 200 páginas, R$ 116,00.

 

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