Livro busca explicar por que a história enterrou René Thiollier

Obra investiga ostracismo do escritor ligado aos modernistas e criador da “Revista da Academia Paulista de Letras”

Por - Editorias: Cultura
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O advogado e escritor René Thiollier – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

Seu nome está no recibo de aluguel do Teatro Municipal para a Semana de 22. Seus passos acompanharam os de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade pelas cidades históricas mineiras na “viagem de redescobrimento do Brasil”, em 1924. Seu casarão, na Avenida Paulista, abrigou por anos as reuniões da Academia Paulista de Letras, da qual foi aclamado secretário-geral perpétuo.

Então, por que ninguém conhece René Thiollier?

Teorias e respostas estão em René Thiollier – Obra e Vida do Grão-Senhor da Villa Fortunata e da Academia Paulista de Letras. O livro, do professor da Universidade Federal de Sergipe Valter Cesar Pinheiro, é o resultado de sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

René Thiollier nasceu em 1884 em São Paulo, filho de um francês que lutou ao lado de Giuseppe Garibaldi contra os prussianos e de uma paulista de família tradicional. Estudou em Paris e formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Além de advogado, foi cronista e colunista social, escrevendo para publicações como Diário Popular, Jornal do Commercio, Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo e a Revista do Brasil.

A famosa foto dos participantes da Semana de 22, feita durante almoço no Hotel Términus. Em primeiro plano, Oswald de Andrade. Sentados, da esquerda para a direita: Rubens Borba de Moraes, Luís Aranha e Tácito de Almeida. Em pé, da esquerda para a direita: Couto de Barros, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Sampaio Vidal, Cândido Mota Filho, Francesco Pettinati, Paulo Prado, Flamínio Ferreira, Graça Aranha, René Thiollier, Manuel Villaboim e Gofredo da Silva Telles – Foto: Acervo Iconographia

Alugou em seu nome o Teatro Municipal de São Paulo para abrigar a Semana de Arte Moderna de 1922. Dois anos mais tarde, juntou-se a Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Blaise Cendrars, Gofredo da Silva Telles e Olívia Guedes Penteado em viagem às cidades históricas de Minas Gerais, produzindo um dos principais relatos sobre a expedição, De São Paulo a São João del-Rei. Recebeu a dedicatória de Oswald no poema Crônica (Era uma vez/O mundo) e lutou na Revolução Constitucionalista de 1932.

Para entender o desaparecimento de René Thiollier da história da literatura brasileira, Pinheiro analisa três obras de ficção: Senhor Dom Torres, A Louca do Juqueri e Folheando a Vida – Foto: Reprodução

Publicou livros de contos (Senhor Dom Torres e A Louca do Juqueri), estudos histórico-biográficos (Um Grande Chefe Abolicionista: Antônio Bento e A República Rio-Grandense e a Guerra Paulista de 1932), crônicas e ensaios (O Homem da Galeria, Episódios de Minha Vida e A Semana de Arte Moderna). Foi eleito para a Academia Paulista de Letras em 1934 e lá criou a Revista da Academia, que dirigiu por 15 anos. Quando perdeu o título de secretário perpétuo, em 1952, abandonou a revista e afastou-se para sempre da Academia.

“Quem era aquele rapaz de origem francesa”, questiona Pinheiro na introdução da obra, “que, durante décadas, frequentou os principais redutos de vanguarda paulistanos, os salões de Freitas Valle, Yan de Almeida Prado, Paulo Prado e Dona Olívia Penteado? Sobre o advogado, jornalista, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e anfitrião da Villa Fortunata, não se encontrou um único artigo”, continua, “no qual fosse elencada sua produção literária e relevada sua contribuição para a vida cultural da capital paulista.”

Pinheiro começa a desenhar as hipóteses para solucionar o mistério nas páginas seguintes. “O que justificaria tal abandono? Desconhecimento? Descaso? Ou seria esse silêncio, por si só, uma forma de ação? A reação possível perante escritos desprovidos de qualidade literária?”

“Ao fim e ao cabo, o que teria varrido das estantes (e da memória) paulistanas aquele que, em plenos anos 60, permanecia ‘pré-modernista’, não seria tão somente a fragilidade de sua obra?” – Foto: Gregori Warchavchik

Para entender como alguém com tamanho trânsito entre a elite e nomes consagrados da intelectualidade tornou-se nota de rodapé na história da cultura brasileira, o professor estuda a obra literária de Thiollier. A investigação se aprofunda em três trabalhos: os livros de contos Senhor Dom Torres e A Louca do Juqueri e o folhetim inacabado Folheando a Vida, publicado durante a década de 40 na Revista da Academia Paulista de Letras.

Na análise de Senhor Dom Torres, por exemplo, Pinheiro passa em revista os narradores de todos os contos da obra. Como resultado, encontra uma série de problemas de escrita que demonstram a fragilidade da prosa de Thiollier. “Os dispositivos literários de que fazem uso aqueles narradores são, em muitos casos, inadequados: gêneros textuais diferentes moldados na mesma forma (A Prisão de São Lázaro), onisciência ilegítima (De Cartola e Sobrecasaca), recordação forçada ou injustificada de um evento passado (Os Prisioneiros da Morte e Na Minha Travessa), articulação interna inoperante (O Ladrão).”

O professor dá atenção também às dedicatórias e epígrafes do livro, mapeando o ambiente cultural e a filiação intelectual de Thiollier. É a partir da presença de nomes como Olavo Bilac, Montesquieu e Anatole France e da ausência de escritores ligados ao Modernismo que Pinheiro identifica o Grão-Senhor da Villa Fortunata como um homem preso às tradições do século 19. E é isso que contribui para deixá-lo marginalizado.

Trabalho é fruto da tese de doutorado de Pinheiro, defendida na USP – Foto: Reprodução

“Dentre eles”, explica Pinheiro sobre os autores epigrafados, “não há nenhum que tenha participado da Semana ou tenha colaborado nas revistas literárias modernistas que seriam lançadas nos anos seguintes. O ‘grito da independência’ proferido por Graça Aranha no Teatro Municipal de São Paulo não faz parte do ‘horizonte auditivo’ do senhor da Villa Fortunata: suas referências – simbolistas, parnasianas, acadêmicas – não se introduzem sorrateiramente nas entrelinhas do discurso; ao contrário, têm nome e sobrenome, e vêm anunciadas, como já se viu, em destaque no início da cada narrativa.”

Essa filiação, traduzida na escrita como conservadorismo, nostalgia e crítica à modernidade, é que torna a obra de Thiollier velha já de nascimento, segundo Pinheiro. “Que nasce velho”, corrige o autor, “talvez seja um eufemismo. Para a história literária, Senhor Dom Torres é um natimorto.”

Os problemas de escrita e o descompasso com os rumos literários do País continuam nas obras seguintes, revelando que pouca importância tiveram os títulos e as relações de Thiollier para perpetuarem seu nome na história. “Ao fim e ao cabo, o que teria varrido das estantes (e da memória) paulistanas aquele que, em plenos anos 60, permanecia ‘pré-modernista’, não seria tão somente a fragilidade de sua obra?”, conclui Pinheiro.

René Thiollier – Obra e Vida do Grão-Senhor da Villa Fortunata e da Academia Paulista de Letras, de Valter Cesar Pinheiro, Ateliê Editorial, 272 páginas, R$ 49,00.

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