Petrobras, ódio e política

O que explica a indiferença da população frente a políticas incapazes de diminuir a mortalidade numa epidemia?

Por Janice Theodoro da Silva

“A Petrobras, o Supremo Tribunal Federal, a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto Butantan e os meios de comunicação se tornaram objeto de ódio” – Foto: Divulgação Petrobras

 

A Petrobras, o Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Butantan e os principais meios de comunicação (redes de TV e jornais) se transformaram em para-ódios. As agressões político-pessoais feitas por Daniel Silveira (deputado federal, PSL/Rio de Janeiro) ao STF, no Brasil, são da mesma natureza das agressões feitas ao Congresso americano após as eleições de Biden. Examinem a violência contra enfermeiras, contra mulheres, homossexuais, negros e outras minorias. Qual o significado político dessas intervenções e qual a origem de tanta violência?

Primeiro impulso: a lógica aparente

Frente aos fatos, o primeiro impulso é responder racionalmente aos ataques feitos à Petrobras publicando seu balanço, ao STF, afirmando a importância da separação de poderes para a democracia. Em seguida, defender a aplicação das vacinas e a valorização do papel dos médicos e enfermeiros. E apoiar os meios de comunicação, valorizando a importância da ciência e a denúncia das fake news.

Parece simples, lógico e racional defender pessoas, instituições e redes de comunicação objetos de ódio injustificado.

O problema

O que estamos assistindo no mundo contemporâneo não é simples e não se explica a partir de uma lógica aparente. Estamos diante de um fenômeno político-social novo, cuja gênese se encontra em um longo período de aprofundamento das desigualdades sociais, de diferenciação, inferiorização de amplas camadas sociais. Esse processo foi acompanhado de uma correspondente expansão do eu (individualismo), estimulado pelo uso intenso das redes sociais. As novas mídias (Instagram, Facebook, podcasts, entre outras, com centenas e milhares de “amigos”) comprovam o crescimento de condutas narcisistas e individualistas. O excesso de visibilidade nas redes sociais nem sempre produz o efeito desejado, ou seja, reconhecimento social. Na maior parte das vezes ocorre o inverso, a frustração.

O antídoto mais frequente para esse mal-estar social é a utilização de cenografia espalhafatosa, em desacordo com a circunstância: usar paletó verde ou vestir fantasias em situações inusitadas. Outro instrumento é a linguagem.  Metáforas podem chamar a atenção, especialmente aquelas com referência a objetos e animais. Virar jacaré, tomar detergente, entre outras. Uma metáfora sugestiva pode produzir um momento de fama, se a mídia repetir. Mas, apesar do esforço linguístico, o gesto de chamar a atenção não satisfaz o emissor da mensagem. Permanece no subconsciente do autor a sensação de um desejo não satisfeito. Em outras palavras, o modelo de representação política da sociedade em que vive, expresso cenograficamente pelo Judiciário e outras instituições de poder e com poder, é injusto.

Quem são esses novos agentes da cena política?

Eles podem ser pobres, fazer parte da classe média ou ser ricos, até muito ricos. São ambiciosos, mas não dispõem de instrumentos (políticos, educacionais, pessoais, emocionais) para alcançar seus objetivos (o poder). Procuram reconhecimento político-social, mas encontram dificuldade em manter ou fazer as amizades e relações estáveis em grupos ou partidos. São belicosos e avaliam a realidade com a lente da guerra e qualificam o outro (contido sempre no dissenso) como inimigo. Têm apego ao risco e não descartam em suas ações a possibilidade da morte útil, quando adequada aos seus interesses e ao seu campo político. Não consideram o ser humano como categoria universal e não atribuem a ele valor. Facilmente se identificam com temáticas nacionalistas e excludentes, em razão do apego à ideia de fronteiras e de diferenciação (nacional, social e étnica). Gostam de muros e valorizam apenas pessoas brancas. Com frequência são antissemitas, machistas, masculinistas e racistas. Reconhecem o mundo por meio de clichês e estereótipos. Demonstram irritação diante de determinadas palavras, como: verdade, justiça, dúvida e direitos humanos. Não gostam de conversa ou discussão e valorizam os autoritarismos e a obediência na sua dimensão militar. Defendem a eliminação de oponentes e o apagamento de espaços de memória e história.

O deputado federal Daniel Silveira – Foto: Reprodução TV Globo via Senado Federal

 

Os mais agressivos são os masculinistas. Odeiam as mulheres, defendem a ideia de que elas devam ser caçadas e usadas apenas para a reprodução. Usam roupas de couro, tatuagens, produzem e divulgam uma cultura homoerótica. A estética teatral violenta é essencial para ganhar e manter visibilidade. Essa insatisfação, de uma vida sem luz, sem aplausos, sem amigos, leva esse personagem à política em busca do que falta, respondendo à humilhação por meio da revanche, fruto de assimetrias históricas.

Que formas de representação política poderão responder às profundas assimetrias e invisibilidades socioculturais?

Ódio é excesso de raiva acumulado em sociedade. Qual a raiz?

Um pouco de história

A desigualdade, a fome, a falta de liberdade em diversos momentos da história geraram levantes da população. A Revolução Francesa, por exemplo, eclodiu no dia em que o preço do pão estava mais alto, deixando clara a raiz do conflito: recursos escassos para a sobrevivência e excessos de gastos dos monarcas. Nas sociedades modernas e democráticas, a política foi executada por partidos que, mediante negociações, procuraram enfrentar as assimetrias econômicas e políticas e implementar seus projetos (com maior ou menor êxito).

Apesar de, na atualidade, especialmente no Brasil, grande parte dos partidos ter se distanciado de seus programas e projetos políticos, permaneceram algumas tendências como marca nos projetos. Podem ser mais ou menos estatizantes, mais ou menos preocupados com o meio ambiente, com políticas sociais e mudanças nos costumes. Essas pautas uniram e separaram congressistas, dificultaram, em maior ou menor medida, a atuação do Executivo e, após a Constituição de 1988, conviveram com as decisões do Judiciário, no seu papel de guardião da Constituição.

As eleições de Jair Bolsonaro e Donald Trump representaram uma ruptura com os modelos tradicionais de formas de representação política. Entrou em cena um grande número de votantes marcados por uma formação precária e apegados a uma pauta de costumes tradicional, profundamente conservadora, racista e machista, mais ligada a costumes do campo do que da cidade. No caso brasileiro e norte-americano essa pauta foi vinculada a uma visão liberal (livre-mercado) da economia. O mercado financeiro, no caso brasileiro, sentiu entusiasmo, especialmente com anúncios de privatizações, e considerou a pauta cultural um assunto de menor importância. Era frequente considerarem o desenvolvimento econômico capaz de melhorar a educação e a saúde e favorecer a liberdade de costumes e até a ética, sem ser necessário dar maior destaque a essas pautas. Elas viriam a reboque.

As hipóteses levantadas não levaram em conta as profundas mudanças ocorridas na sociedade, em especial as novas lógicas do campo midiático e suas interferências na política. Poucos partidos observaram as novas roupagens da desigualdade, especialmente no campo cultural. Esses novos atores sociais foram capazes de produzir e mobilizar, nas redes sociais, um grande capital simbólico, distante dos campos políticos tradicionais e próximos de um eu expandido, movido por uma longa cadeia de frustrações. O ator Jair Bolsonaro entrou na cena política desvinculado de interesses partidários, marcado por um ímpeto de construir a seu modo, sem ciência das coisas, o seu modo de ver o mundo. Manteve como perfil o apego ao risco, às situações de violência e guerra, a indiferença à morte, atento aos cargos-chave e posições de poder.

Jair Bolsonaro e Donald Trump – Fotomontagem: Jornal da USP sobre foto de Isac Nóbrega-PR/Agência Pública

 

Cito aqui um exemplo: o caso da Petrobras. A demissão de Roberto Castello Branco, cargo de poder e visibilidade, demonstra o que significa um eu expandido e seu distanciamento em relação a projetos políticos e econômicos. Não se trata aqui de discutir o projeto econômico proposto pelo seu ministro Paulo Guedes, mas a prática política com foco na perseguição e eliminação dos inimigos, independentemente do projeto a que estão vinculados. Novamente a política é a vontade de um.

Diz o presidente: “Eu não tenho medo de mudar, não. Semana que vem deve ter mais mudança. E a mudança comigo não é de bagrinho, não, é tubarão” (O Estado de S. Paulo, 21/2/2021). Bolsonaro, distante de seus compromissos eleitorais, quer demonstrar força, ele não tem medo, é macho. Esse é o lugar central da sua política, porque faz ver a si mesmo no centro do espetáculo do poder, espetáculo a que por anos assistiu sentado na última fileira do cinema. De deputado sem importância no Congresso (inferiorização) para presidente do Brasil, expandindo o eu, de “bagrinho para tubarão”, como ele mesmo caracterizou a sua decisão indicando um novo dirigente para a Petrobras. Projeto político não existe, pode ser hoje um, amanhã outro. O que está sendo desvendado é a vontade de poder de um personagem que sentou na última fileira do cinema.

O outro exemplo é o caso das bicicletas. André Shalders (O Estado S. Paulo, 22/2/2021), entrevistando o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-Amazonas), comenta que o presidente toma algumas decisões por impulso porque alguém sugeriu para ele, enquanto andava de bicicleta, uma liberação de imposto. Mais uma vez a vontade de um, sem uma política indicando a direção da economia.

O mais complicado dessa novela real refere-se ao fato de 32,9% de brasileiros apoiarem Bolsonaro e 43,5% apoiarem o seu desempenho pessoal. Esses dados são assustadores se pensarmos na pandemia, com mais de 250 mil mortos e, apesar da tragédia, a sua aprovação permanecer entre um número significativo de pessoas.

O que explica a opção pela alienação política e a indiferença da população frente a políticas públicas incapazes de diminuir a mortalidade em meio a uma epidemia?

Segundo o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, em 1960 a renda total dos 10% mais ricos era 34 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Trinta anos depois a diferença havia saltado para 60 vezes. O pais passou de rural para urbano. Em 1949, 69% da população estava no campo e, em 2000, apenas 19%. O Brasil profundo ganhou voz. As elites políticas, marcadas por uma superioridade intrínseca e uma sensibilidade desconectada da vida real, encontraram um parceiro, supostamente ligado ao livre-mercado, “um pouco” extravagante.

A circunstância me fez lembrar a última cena do filme Queimada (dirigido por Gillo Pontecorvo). Marlon Brando, representando um inglês, manipula politicamente a população de uma ilha no Caribe, em razão dos interesses econômicos de uma elite. Ele pensou ser sempre possível enganar e manipular as pessoas da ilha, ingênuas e incompetentes. Mas, na última cena, um simpático carregador de malas oferece seus préstimos (segurar a mala) e, em meio a sorrisos e olhar submisso, desfere uma facada, matando o protagonista empoderado e arrogante: no papel, o ator Marlon Brando.

Resumo da ópera, com Lacan podemos refletir: a raiz do problema está contida na construção ou na desconstrução do eu? De que lado da pirâmide (representando população e renda)? De cima ou de baixo? Qual o lugar da crise e como reformular a crítica na economia e na política?

Janice Theodoro da Silva é professora titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP


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