Peça infantil “Era uma Vez um Tirano” está em cartaz em São Paulo

Dirigida por professora da Escola de Arte Dramática da USP, montagem é baseada em livro de Ana Maria Machado

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=201593
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O Grupo Prole em cena – Foto: Gisa Araujo

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Até o dia 11 de novembro, fica em cartaz no Centro Cultural São Paulo a peça infantil Era uma Vez um Tirano, baseada no livro de mesmo nome de Ana Maria Machado, publicado pela primeira vez em 1982. A peça é apresentada pelo Grupo Prole, sob direção de Bete Dorgam, professora da Escola de Arte Dramática (EAD) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Apesar de não contar com muitos apoios financeiros, a peça obteve a cessão do direito de uso pela própria Ana Maria Machado. “Quando a gente fala que a Ana Maria Machado está conosco, que ela concordou com a montagem, as portas se abrem, porque ela tem um nome respeitadíssimo”, conta Bete Dorgam. Além de ter apoio da escritora, o grupo conseguiu a utilização do Teatro Jardel Filho, que é um espaço público.

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A história

A história de Era uma Vez um Tirano é facilmente reconhecível. Trata-se de uma cidade, reino ou país (Ana Maria Machado deixa bem claro que não existe nenhuma localização específica) em que todos tinham como hábito o exercício da democracia. Dessa forma, havia uma chuva de palpites e opiniões por todos os lados.

Entretanto, “as decisões eram tomadas coletivamente, e isso era uma ‘bagunça’, porque todo mundo queria falar e discutir”, diz a professora Bete. Ela continua: “Até o dia em que alguém resolve que tem que acabar com tudo isso e se torna um tirano. Ele assume o poder. Inclusive, na peça é dito que muita gente apoiou e achou que aquela criatura iria acabar com a bagunça, que iria impor ordem, que o país/reino iria viver em segurança”.

Chegou um momento em que o povo percebeu que as coisas não eram bem assim. O tirano proibia a música, a dança, a escrita e até mesmo conversas em grupos formados por mais de três pessoas. “Ele age como um bom e maravilhoso tirano, proibindo tudo”, explica Bete. Mas o principal ainda estava por vir: ele proibiu as cores. Todos agora tinham que se vestir de cinza, assim como as casas e os carros deveriam ser acinzentados.

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A elaboração da peça

A professora da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP Bete Dorgan, diretora da peça infantil Era uma Vez um Tirano – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A professora Bete pontua que a adaptação do livro foi extremamente rigorosa. Foi decidido que o livro não fosse transformado em uma peça de teatro, e sim que o texto da peça fosse o livro na íntegra. Ou seja, ao assistir o espetáculo, você estará vendo o livro encenado. “Só alguns parágrafos, nós transformamos em música, mas é o livro do começo ao fim”, diz Bete.

Ana Maria Machado teve participação na criação da peça, embora não diretamente. Houve uma troca constante de e-mails para consultas e sugestões. Bete fala que algumas palavras foram transformadas, porém não no sentido de modernização e sim de atualização.

Na peça, três atrizes e um ator se alternam entre os personagens: Angela Ribeiro, Bruna Aragão, Fernanda Assef e Humberto Morais. Há ainda apresentação de música ao vivo do compositor Alexandre Mello. Carlos Mendes é responsável pelo figurino e cenário e Felipe Tchaça é o desenhista de luz.

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A obra traz perguntas

O livro foi escrito próximo ao fim da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985) e publicado em 1982 pela Editora Salamandra, após recusas de outras editoras, que ainda tinham receio de represálias por publicar obras virtualmente contrárias ao regime.

Na peça elaborada neste 2018, Bete fala que a proposta é outra. “Quando você faz um espetáculo de teatro, normalmente você não passa uma mensagem, você faz uma pergunta. Então a pergunta é: vale a pena? Vale a pena abrir mão da liberdade de expressão, da liberdade de ir e vir? Vale a pena perder as possibilidades que a arte coloca, em nome de uma pretensa segurança? O que é realmente um país seguro?” Logo, segundo ela, “são muito mais do que mensagens”.

“Essas perguntas são necessárias em todo o mundo”, afirma Bete. Ela acrescenta que o objetivo não é mudar o pensamento de ninguém, mas trazer “uma reflexão sobre os milhares de refugiados, sobre a miséria encampada, sobre a violência muitas vezes estimulada. Você tem tiranias retornando, o medo que transforma as pessoas em pessoas violentas, capazes de atos que normalmente elas não cometeriam. Essa peça traz questões que atualmente são importantes no mundo. Infelizmente ela é atual”.
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Na peça, quatro atores se alternam para contar a história de Era uma Vez um Tirano – Foto: Gisa Araujo

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Relações humanas e afeto

Para a diretora da peça, o livro de Ana Maria Machado é uma “obra-prima”. “É uma obra que fala não só da questão da tirania, mas também da alteridade, das relações humanas e do afeto, das relações de amizade, das relações com a arte e das possibilidades lúdicas do ser humano.”

“A peça faz as crianças se divertirem muito e desperta nos adultos recordações e compreensões das coisas. Faz com que todos parem para refletir um pouco sobre as nossas escolhas e possibilidades”, considera Bete.

A peça Era uma Vez um Tirano fica em cartaz até o dia 11 de novembro, sempre aos sábados e domingos, às 16 horas, na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, São Paulo, perto da estação Vergueiro do Metrô). O ingresso custa R$ 10,00.

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