Peça de Roberto Schwarz contra a ditadura é tema de evento

No dia 28, pesquisadores vão discutir “A Lata de Lixo da História“, escrita pelo professor da USP em 1968

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Peça foi concebida durante o período mais repressivo da ditadura militar no Brasil – Foto: Acervo Estadão

Com o Ato Institucional número 5 (AI-5) a poucos dias de cair sobre a cabeça, o crítico e professor da USP Roberto Schwarz, na época assistente do célebre professor Antonio Candido, começou a rascunhar sua leitura de riso esgarçado sobre a situação política da época. Embalado por erudição literária e afeito ao clássico, olhou uma edição de O Alienista, de Machado de Assis, fisgou ideias de O Príncipe, de Maquiavel, e, já desembarcado em Orly para o exílio, concebeu a peça A Lata de Lixo da História.

Gênese, contexto e legado dessa inflexão dramatúrgica de Schwarz são a substância do evento Roberto Schwarz em 1968: A Lata de Lixo da História, que acontece no dia 28 de agosto, terça-feira, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Para encarar a atualidade do texto e situá-lo na trajetória do crítico, o professor de Filosofia da FFLCH Paulo Arantes se junta a Edu Teruki Otsuka, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da mesma faculdade. Quem organiza a programação é o grupo de estudos Sequências Brasileiras.

O crítico literário e professor aposentado da USP Roberto Schwarz, autor de A Lata de Lixo da História – Foto: Reprodução/Companhia das Letras

De acordo com Maurício Reimberg, doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e um dos organizadores do evento, a obra de Schwarz compartilha referências com o filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, a montagem de O Rei da Vela (1967), feita por José Celso Martinez Corrêa, o primeiro tropicalismo de Caetano Veloso e as tentativas de teatro político nos anos 1960. No entanto, Reimberg destaca, essas produções também apresentam antagonismos significativos, que surgem como respostas distintas aos acontecimentos de 1964.

“O fundamental seria especificar as semelhanças e as diferenças caso a caso. Em relação aos procedimentos da Tropicália, para citar o termo de comparação mais recorrente, pode-se dizer que, embora os materiais da peça operem extensivamente a partir da conjunção esdrúxula de arcaico e moderno no País, aspecto fundamental na montagem tropicalista, o autor não toma essa lógica de reprodução social como emblema insolúvel e atemporal do Brasil”, comenta o pesquisador. “Isso marca uma divergência de fundo em relação a certo tipo ambivalente de ‘delação amorosa’ das atrocidades brasileiras, segundo os termos do próprio Schwarz em Cultura e Política, 1964-1969, que assim se refere às canções tropicalistas. De fato, o ponto de vista narrativo de A Lata de Lixo da História não se circunscreve a constatações agônicas ou gozosas sobre o País golpeado em 1964. A peça quer examinar de modo distanciado as causas da derrota, o que lhe confere um lugar próprio na produção cultural do período.”

A peça de Schwarz é uma chanchada política, conforme anuncia o subtítulo da mais recente edição do texto, lançada em 2014 pela Companhia das Letras. Em 13 atos, resgata Simão Bacamarte, o totalitário alienista que aparece na coletânea de contos Papéis Avulsos, de 1882. Com a releitura, Schwarz leva a provinciana cidade machadiana de Itaguaí, uma miniatura do Brasil imperial, para a neutra Suíça. Uma homenagem à censura.

Rebento e progenitor se esquadrinham mutuamente nessa atualização empreendida pelo crítico. Não é só a fábula macabra do cientista que aterroriza Itaguaí com suas teorias da loucura que discorre sobre o Brasil enquadrado: fruir A Lata de Lixo da História é minerar em novas camadas de leitura do clássico de Machado.

O doutorando Maurício Reimberg, um dos organizadores do evento  – Foto: acervo pessoal

“À luz da contrarrevolução preventiva de 1964, que para Schwarz expôs a coexistência reiterada entre a modernização tecnocrática e a regressão social no País, com direito a ‘Deus, pátria e família’, a peça desdobra o caráter de classe latente no sarcasmo machadiano”, analisa Reimberg. “O autor começa a demonstrar como a técnica literária de Machado formaliza a situação das classes proprietárias brasileiras no século 19, assentadas na escravidão e, ao mesmo tempo, aspirantes à condição de sujeitos autônomos e civilizados, ligados aos melhoramentos do mundo moderno. Na sua adaptação do conto, ele tenta explicitar o entrelaçamento entre as teorias universalistas da loucura de O Alienista e o jogo bruto de poder na província, cheio de perversidades de classe, arranjos sociais grotescos e ressentimentos coloniais. De modo estridente, a peça destaca na ironia de Machado o fundo bárbaro da escravidão. Para isso, confere-se maior relevo no palco às movimentações conflitivas dos ‘notáveis’ e da camada popular, maximizando certa dimensão de levante político do conto.”

Capa da edição de 2014 de A Lata de Lixo da História – Foto: Reprodução/Companhia das Letras

Na peça, bonecos representando negros são maltratados no palco, ligando a violência da escravidão do século 19 aos abusos da ditadura. Os notáveis da cidade tramam e destramam para manter seus privilégios. A ditadura do cientificismo torna-se opressão escancarada. Sempre com o cutucão da risada. O texto de Schwarz é um olhar aguçado sobre a piada sufocante de generais tropicais de óculos escuros, elites histriônicas rivais das guitarras elétricas e a modernização alimentada com bananas. Na estratégia típica das artes da época (tal qual aquele olho piscando de lado para o cupincha, referendando a traquinagem), o peso do clássico de Machado serve de verniz bem aplicado para dar um olé na censura.

Segundo Reimberg, a atualidade de A Lata de Lixo da História ganha força com sua reedição, no contexto das manifestações de 2014. “Tratava-se de uma inquietação que partia em geral do público, parte dele sob a experiência recente de participação nas manifestações de junho, e sendo alvo da forte repressão policial-militar subsequente, que parecia reexpor à luz do dia as figuras mais histriônicas e destrutivas gestadas pela dominação social brasileira (e que são escrachadas na peça)”, explica o pesquisador. “Nessas discussões, porém, perdia-se às vezes a mediação estética da obra, bem como as especificidades sociais dessas duas derrotas políticas (a dos anos 1960 e a dos tempos atuais). Valeria a pena iluminar reciprocamente as coordenadas históricas do pensamento de Schwarz e as práticas de gestão e controle no capitalismo contemporâneo, com as quais a ação política radical hoje tem que se haver, de modo a acolher a dificuldade própria de intervenção nos nossos dias.”

O evento Roberto Schwarz em 1968: A Lata de Lixo da História acontece no dia 28 de agosto, terça-feira, às 17h30, na sala 14 do prédio de Ciências Sociais e Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Av. Prof. Luciano Gualberto 315, Cidade Universitária, São Paulo). Entrada grátis.

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