Peça de Chico Buarque ganha leitura dramática com música ao vivo

“Gota D’Água”, escrita em parceria com Paulo Pontes, leva tragédia grega para o subúrbio carioca dos anos 1970

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Bibi Ferreira interpreta Joana na peça Gota D’Água, em 1975, com direção de Gianni Ratto – Foto: Reprodução/Site memoriasdaditadura.org.br

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Neste sábado, 30 de junho, a peça Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, ganha leitura dramática no Centro de Pesquisa e Formação (CPC) do Sesc. A apresentação é acompanhada pela execução ao vivo das músicas que integram a obra, compostas por Chico.

O evento faz parte do projeto Liberdade em Cena, parceria do Sesc com o Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Ao longo de 2018, a iniciativa apresenta textos teatrais brasileiros seguidos de debates.

No dia 30, a direção da leitura será de Roberto Ascar e as canções de Chico serão tocadas por Jean Garfunkel, Betinho Sodré e Pratinha Saraiva. O debate terá participação da diretora e atriz Georgette Fadel e da professora e pesquisadora Cecilia Furquim, com mediação de Edson Martins Morares, do CPC.

Gota D’Água foi escrita em 1975 e atualiza a tragédia grega Medeia, de Eurípedes, para o subúrbio do Rio de Janeiro. Conta a história de Joana e Jasão, que moram com seus dois filhos no conjunto habitacional “Vila do Meio-Dia”. Quando Jasão faz sucesso com o samba Gota D’Água, troca a companheira por Alma, filha de Creonte, dono dos imóveis. Como vingança, Joana envenena seus próprios filhos e se mata no dia da festa de casamento de Jasão.

A montagem de estreia de Gota D’Água contou com Bibi Ferreira no papel de Joana, direção de Gianni Ratto e direção musical de Dori Caymmi. A ideia para a peça partiu de um roteiro para televisão feito por Oduvaldo Vianna Filho.

Conforme os próprios autores afirmam na introdução ao texto, publicado em livro no mesmo ano, três preocupações fundamentais guiaram a escrita da peça. Em primeiro lugar, o que Chico e Pontes chamam de “trágico dinamismo” da “radical, violentamente predatória, impiedosamente seletiva” experiência capitalista do Brasil do milagre econômico. “O santo que produziu o milagre é conhecido por todas as pessoas de boa fé e bom nível de informação”, escrevem. “A brutal concentração da riqueza elevou, ao paroxismo, a capacidade de consumo de bens duráveis de uma parte da população, enquanto a maioria ficou no ora-veja.”

A segunda preocupação dos autores envolve a representação popular na esfera cultural. “O povo sumiu da cultura produzida no Brasil”, afirmavam em 1975. “Isolado, seccionado, sem ter onde nem como exprimir seus interesses, desaparecido da vida política, o povo brasileiro deixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido às estatísticas e às manchetes dos jornais de crime.”

Finalmente, Chico e Pontes manifestam insatisfação com o estado da produção teatral nacional, numa época em que espetáculos com acenos performativos ou pós-dramáticos ganhavam relevo. “A palavra deixou de ser o centro do acontecimento dramático. O corpo do ator, a cenografia, adereços, luz, ganharam proeminência, e o diretor assumiu o primeiríssimo plano na hierarquia da criação teatral”, analisam.

Para os autores, tal transformação era evidência de uma crise cultural, que atingia o âmago do teatro. “Criou-se um abismo entre a complexidade da vida brasileira e a capacidade de sua elite política e intelectual de pensá-la. O desespero, o deboche, a supervalorização dos sentidos etc. — que tomaram conta do nosso melhor teatro em anos recentes — a partir de determinado momento deixaram de ser substitutivos conscientes do realismo policiado e passaram a ser, no plano teatral, a expressão da incapacidade de nossa cultura de perceber e formular, em toda a sua complexidade, a sociedade brasileira atual.”

A leitura dramática de Gota D’Água acontece em 30 de junho, sábado, das 14h30 às 17h30, com recomendação etária de 16 anos. A participação é gratuita e as inscrições já estão esgotadas. O Centro de Pesquisa e Formação do Sesc fica na Rua Doutor Plínio Barreto, 285, 4º andar, na Bela Vista, em São Paulo.

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