Cesto de Compras, de Abigail de Andrade, Coleção particular, Rio de Janeiro – Foto: César Barreto

Os desafios das mulheres para ter direito aos caminhos da arte

“Profissão Artista”, livro de Ana Paula Simioni, revela a dimensão das mulheres na pintura e na escultura

 15/10/2021 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 22/10/2021 as 12:07

Por Leila Kiyomura

Arte: Simone Gomes

Quando vemos o rigor estético de Regina Silveira na 34ª Bienal de São Paulo ou andamos pela cidade apreciando a criatividade da arte de Maria Bonomi nos espaços públicos, não dá para imaginar que as mulheres brasileiras tiveram que trilhar um longo caminho sob a sombra. Até chegar o Modernismo, quando Anita Malfatti e Tarsila do Amaral iluminaram a arte brasileira, a produção feminina na pintura e na escultura parece ter sido envolta em uma névoa.

O livro Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras, de Ana Paula Cavalcanti Simioni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP,  revela a inserção da mulher no campo da arte no Brasil desde meados do século 19 até 1922. Relançado pela Editora da USP (Edusp), o livro é resultado da tese de doutorado que a autora defendeu, em 2004, no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com a orientação do professor Sérgio Miceli.

Les Foins, de Jules Bastien-Lepage, 1877, acervo do Museu D’Orsay – Foto: Hervé Lewandowski

“No período que antecedeu os chamados anos heróicos de 1920, de renovação da cultura no Brasil, a participação de mulheres no meio artístico estava ocultada por densa camada de representações corriqueiras, que as relegaram ao limbo do amadorismo e da vivência bissexta”, analisa, na apresentação do livro, a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, docente do Departamento de Sociologia da FFLCH e ex-diretora daquela unidade. “Foi somente a partir do Modernismo que, como é amplamente reconhecida, a presença feminina foi vista como relevante. Até então, a história das artes entre nós não havia registrado a existência de mulheres artistas que se distinguiram ou mereceram tratamento crítico nos moldes daqueles devotados aos trabalhos produzidos por homens.”

Este livro dedica-se a responder tais inquietações: existiram artistas mulheres no século 19? Se sim, quem foram elas? Em que condições estabeleceram suas carreiras?”

Um Canto do Meu Ateliê, de Abigail de Andrade, 1884, Coleção particular, Rio de Janeiro - Foto: César Barreto

Auto-Retrato, de Georgina de Albuquerque, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro - Foto: César Barreto

Auto-Retrato, Berthe Worms, 1893. Coleção Fernando Worms - Foto: Reprodução

Como bem assinala Ana Paula Simioni, há uma névoa que acoberta a atuação de artistas antes das modernistas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. É como se, até então, as mulheres não tivessem tido o desejo de pintar, desenhar, esculpir, limitando-se à condenação de sexo frágil, como observa a autora. “Este livro dedica-se a responder tais inquietações: existiram artistas mulheres no século 19? Se sim quem foram elas? Em que condições estabeleceram suas carreiras? A que tipo de produção se dedicaram? E por que sabemos tão pouco sobre elas?”, ressalta Ana Paula. “Essas indagações se baseiam na premissa de que o despontar das modernistas não foi um fato isolado – visão esta que corrobora certa imagem de heroínas solitárias –, mas que, ao contrário, encontra respaldo em uma tradição de artistas anteriores.”

Ana Paula se dedicou a pesquisar a época acadêmica. “A primeira etapa da investigação exigiu, assim, que essas artistas fossem retiradas dessa vala de esquecimento coletivo”, explica. “Isso levou à consulta de algumas fontes específicas, primeiramente os dicionários de artistas plásticos, que forneceram os nomes femininos atuantes entre os primórdios do Oitocentos até 1933, contabilizando um número aproximado de 90 mulheres provenientes das mais variadas regiões, com obras dos mais diversos tipos, reunindo em uma mesma mostra desde escultoras acadêmicas premiadas até artesãs regionalmente singulares.”

Paisagem, de Abigail de Andrade. Coleção de Sérgio e Hecilda Fadel, Rio de Janeiro – Foto: César Barreto

No decorrer das 360 páginas do livro, o leitor vai poder acompanhar os desafios das artistas acadêmicas.”Procurei ao longo do trabalho contemplar ordens diversas de significados. Ao analisar as prerrogativas legais e as situações institucionais das artistas, tanto no Brasil como no exterior, pretendi não perder de vista as dimensões macrossociológicas que prescreveram limites às suas atuações. Discursos normativos, como o apregoado chamado à maternidade, e os valores da época – como a crença na inferioridade intelectual feminina – eram outras modalidades de cerceamento importantes, quanto mais porque, quando plenamente interiorizados,  podiam servir como bloqueadores insuperáveis para as mulheres, abalando a autoconfiança e inibindo o desejo de profissionalização.”

 “As poucas mulheres que ousaram ingressar nesse sistema dominado pela academia eram julgadas por seus pares de modo pejorativo, como amadoras.”

 

Desenho de Julieta França, 1899, Museu Dom João VI, Rio de Janeiro – Foto: Ana Paula Cavalcanti Simioni

Saudade de Nápoles, Berthe Worms, 1895 – Foto: Pinacoteca do Estado de São Paulo

A Hora do Pão, de Abigail de Andrade, 1888. Coleção de Sérgio e Hecilda Fadel, Rio de Janeiro – Foto: César Barreto

Ana Paula explica que, durante o século 19,  ser artista parecia uma profissão masculina. “As poucas mulheres que ousaram ingressar nesse sistema dominado pela academia eram julgadas por seus pares de modo pejorativo, como amadoras.” A autora dedica um capítulo a essa gênese do amadorismo. “É importante ressaltar que, em grande parte, o próprio título deste livro, Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras, é uma provocação, ou melhor, uma contraposição à ideia  desse ‘eterno amadorismo’ que, a meu ver, foi um dos grandes fatores de obscurecimento das trajetórias das artistas.”

Mas, segundo destaca Ana Paula, as mulheres enfrentaram sérias dificuldades também em outras profissões. “Praticamente todas as carreiras universitárias lhes foram vetadas até a Primeira República, quando as alunas foram finalmente admitidas nos cursos superiores. Uma exceção nesse quadro era a profissão de parteira, eminentemente feminina, o que contribuiu para a abertura dos cursos de Medicina para as mulheres antes dos demais, em 1879.”

O acesso das mulheres à educação artística foi liberado somente com a República, a partir de 1893. “Elas foram legalmente previstas na mais importante instituição consagrada à formação artística existente em território nacional: a Escola Nacional de Belas Artes.”

Ana Paula analisa cinco casos de artistas que se destacaram entre 1884 e 1922: Abigail de Andrade, Berthe Worms, Georgina de Albuquerque, Julieta de França e Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto. “Procurei mobilizar as mais diversas fontes para narrar e compreender suas carreiras e produções. Os elementos biográficos, a opinião dos críticos, as encomendas recebidas, o modo com que foram representadas por outros artistas, tudo colabora para o desvendamento de suas próprias obras, vistas sempre  a partir do  contexto no qual foram realizadas.”

Capa do livro de Ana Paula Simioni – Foto: Reprodução

Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras, de Ana Paula Cavalcanti Simioni, Editora da USP (Edusp), 360 páginas, R$ 88,00


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