Os 95 anos do amor desesperado cantado em versos por Neruda

Pablo Neruda: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite” (trecho do poema 20, de seu livro Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada) – Foto: USGov / Domínio Público

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Publicado em 15 de junho de 1924, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada (Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada) é um dos mais emblemáticos livros de poesia de Pablo Neruda, no qual o erotismo que celebra o corpo da mulher se mistura ao gosto que o autor tem pela natureza. Mesmo tendo sido publicado quando seu autor tinha apenas 20 anos de idade, o livro foi muito bem recebido pelo público e conservou a sua popularidade ao longo dos anos, tornando Neruda o poeta chileno mais conhecido no mundo e possibilitando que ele abandonasse os estudos de francês para se dedicar inteiramente à poesia. Com o mesmo impacto literário que obteve no seu país, Neruda conquistou a Europa e o resto do mundo, e sua poesia foi traduzida em quase todas as línguas modernas.

Para o chileno John Lionel O´Kuinghttons Rodríguez, “é um dos livros mais celebrados de Neruda, sem dúvida nenhuma”. “Foi escrito na juventude e possui um encanto que eu identifico como a melhor poesia dos espanhóis Gustavo Adolfo Bécquer e Pedro Salinas”, afirma Rodríguez, que defendeu seu doutorado em 2015 e fez seu pós-doutorado em 2017 no Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob a orientação da professora Maria Augusta da Costa Vieira. Segundo ele, as pessoas ainda visitam o livro como um poemário de essência, pois não fala de nada que não seja do amor.

“Os vinte poemas falam diretamente a um ‘tu’ mediante metáforas e imagens que são familiares para qualquer pessoa. Em espanhol, temos a palavra ‘ensueño’ que significa algo assim como um estado de nostalgia e encanto”, diz, acrescentando que os poemas provocam precisamente essa sensação, algo de tristeza que não é por acaso. Rodríguez comenta que o próprio Neruda celebrou o estado que provoca a melancolia triste como uma condição propícia para a evocação poética. “Creio que um dos grandes méritos desse poemário é a sensação que deixa no leitor de que ele próprio poderia ter escrito algumas de suas linhas, tão familiares e evocadoras são suas imagens.”

Rodríguez destaca dois poemas que passaram ao imaginário poético da sociedade chilena: o poema 15 e o 20. “Quase todo mundo os conhece ou ouviu alguma vez, especialmente seus versos iniciais: ‘Me gustas cuando callas porque estás como ausente’  e ‘Puedo escribir los versos más tristes esta noche’, respectivamente. São dois trechos célebres, que, junto com a entrada do Don Quijote (En un lugar de La Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme…), constituem um referência na literatura em língua espanhola.”

Capas de diferentes edições de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda – Fotos: Reprodução

“O Chile é um país de poetas”

Prêmio Nobel da Literatura em 1971, o poeta, diplomata e marxista chileno Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto (1904-1973), sim, esse é nome de nascimento de Pablo Neruda – que ele passou a usar a partir de 1920 e que adotou legalmente em  1946 –, era de família humilde e viveu no sul do Chile, em Temuco. “Geralmente se pensa que acolheu o sobrenome do escritor checo Jan Neruda, mas não há evidência contundente que justifique essa presunção”, informa Rodríguez. Estudou no liceu daquela cidade, ingressando aos 15 anos no Instituto Pedagógico da Universidade de Santiago.

Começou a escrever aos 10 anos, e apenas dois anos mais tarde conheceu a famosa poetisa chilena Gabriela Mistral – que recebeu seu Nobel de Literatura antes de Neruda, em 1945, mas acabou eclipsada pelo “pupilo”. Como conta Rodríguez, ela também utilizava um pseudônimo: seu verdadeiro nome é Lucila Godoy Alcayaga, e o nome literário é formado a partir da junção dos escritores Gabriele D’Annunzio e Frédéric Mistral. Foi a poetisa que “apresentou” Neruda aos escritores clássicos que influenciariam sua carreira.

“A poesia de Neruda, como a pintura de Picasso, teve etapas. Na juventude escreveu poesia de tom melancólico e evocador, de amor profundo, tristeza, como Los Veinte Poemas. Depois essa melancolia foi transferida para a apreciação das coisas simples que encontramos nas Odas Elementales, obra em que evoca o reconhecível e familiar como motivo poético”, conta Rodríguez. “Posteriormente, e concomitante com sua fé política, trabalhou uma literatura mais comprometida, muitas vezes diretamente agressiva contra os regimes autoritários como de González Videla (presidente do Chile de 1946 a 1952), que declarou ilegal o Partido Comunista Chileno, o que provocou o exílio do próprio Neruda.” Pablo Neruda se exilou na Europa por cinco anos, vivendo entre Itália e França. Seu exílio na ilha de Capri inspirou o também chileno Antonio Skármeta a escrever o livro O Carteiro e o Poeta, que acabaria transformado no filme homônimo, com o francês Philippe Noiret vivendo o poeta.

Pablo Neruda em visita à União Soviética, em agosto de 1950 – Foto: MRE do Chile via Wikimedia Commons / CC por 2,0 cl

Segundo Rodríguez, influenciado pelas vanguardas, Neruda teve uma poesia de tom surrealista (Residencia en la Tierra) e pan-americanista, em que celebra com tom bolivariano a unidade dos povos americanos. “Seu livro Canto General (Canto Geral) faz uma apologia da América, idealizada e politizada, e uma censura explícita dos poderes autoritários”, lembra. “É um poeta que certamente evoluiu, tanto nos temas quanto nas formas. Ele se aproximou também do teatro com uma única peça, Fulgor y Muerte de Joaquín Murieta, e da literatura de testemunho com Confieso que he Vivido (Confesso que Vivi)”.

Neruda foi nomeado cônsul, em 1927, em Rangoon, na então Birmânia, e em 1933, em Buenos Aires – daí data a sua amizade com o poeta espanhol Federico García Lorca, que foi à capital argentina estrear sua peça Bodas de Sangue. Depois de passar pela Guerra Civil Espanhola (durante a qual Lorca seria fuzilado) em 1936, regressa ao Chile, em 1943, e é ovacionado por seus conterrâneos. “Sim, foi ovacionado mas também criticado, sobretudo por suas posições políticas”, afirma Rodríguez, e opina: “Pessoalmente eu acho que essas censuras não são pertinentes. Afinal de contas, o que resta para os leitores de sempre são as obras e não as opiniões políticas”.

Rodríguez ressalta que o Prêmio Nobel foi um reconhecimento justo à sua trajetória. “No Chile, Neruda acabou ganhando estatura de símbolo. Você pode ver sua imagem, de poncho, boina e sua voz cadenciosa reproduzida como representação do país. Ele ajudou a criar um imaginário de si mesmo, suas casas – “La Chascona”, em Santiago, Valparaíso e na Isla Negra – viraram museus e sua poesia passou a integrar o cânone poético junto com Gabriela Mistral, Pablo de Rocka e Vicente Huidobro.”

Pablo Neruda morreu aos 69 anos, em 23 de setembro de 1973. Estava com um câncer de próstata em estágio avançadíssimo, mas muitos de seus amigos mais próximos acreditam que ele tenha “se deixado morrer”, deprimido e abalado com o golpe militar liderado por Augusto Pinochet, que derrubou e levou à morte seu amigo, o presidente socialista Salvador Allende. Depois de sua morte, “La Chascona” foi invadida e depredada por soldados do exército, e muitos de seus livros, queimados.

Capa da edição chilena de 1924 de Veinte Poemas de Amor e Una Canción Desesperada (1924), o mais famoso livro de Pablo Neruda – Foto: Reprodução

Segundo Rodríguez, se você perguntar para qualquer pessoa sobre a constituição cultural do Chile, ouvirá a seguinte declaração: “O Chile é um país de poetas”. “Pessoalmente ouvi a mesma declaração para países tão distintos como Romênia, China e Irlanda. No caso chileno acho que o Nobel foi decisivo para fortalecer esse imaginário, pois contamos com dois premiados (Neruda e Mistral).” Rodríguez ainda reafirma que “Veinte Poemas de Amor continua a ser sua obra vertebral. “Para a maioria das pessoas esse livro é, sem sombra de dúvida, Pablo Neruda.”

Essa impressão sobre Neruda pode ser vislumbrada no trecho inicial de La Canción Desesperada:

Emerge tu recuerdo de la noche en que estoy. 
El río anuda al mar su lamento obstinado. 
Abandonado como los muelles en el alba. 
Es la hora de partir, oh abandonado! 
Sobre mi corazón llueven frías corolas. 
Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos! 
En ti se acumularon las guerras y los vuelos. 
De ti alzaron las alas los pájaros del canto. 
Todo te lo tragaste, como la lejanía. 
Como el mar, como el tiempo. Todo en ti fue naufragio! 

Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada pode ser lido neste link: http://www.rinconcastellano.com/biblio/sigloxx_27/neruda_20poe.html

Este post foi modificado as 17/06/2019 15:56