Orquestra Sinfônica da USP participa de iniciativas sobre a COP 26

A orquestra toca variação de Vivaldi baseada em algoritmo sobre o clima em 2050

 Publicado: 23/11/2021
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Mayra Moraes narra e troca de acessórios conforme as estações - Foto: Reprodução/Youtube/Canal OSUSP

Um estudo liderado por Stella Manes e Mariana Vale, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que as políticas atuais relativas ao meio ambiente colocam o mundo no caminho de 3°C de aquecimento, o que contribui para a extinção de 84% dos animais e plantas endêmicas (espécies de regiões específicas). Um dos objetivos de pesquisas dessa natureza é promover reflexões sobre a crise climática para a sociedade, instituições e governos. Diferente das pesquisas que os leitores estão acostumados, a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) propõe gerar essa reflexão de uma forma mais artística, por meio de duas iniciativas relacionadas à COP 26. A primeira é a participação do projeto The Uncertain Four Seasons, que envolve orquestras de vários países para tocar variações das Quatro Estações, de Vivaldi, conforme as mudanças climáticas em 2050. A segunda é um minidocumentário que mescla a música e a linguagem visual. “A Osusp traz uma interpretação artística da crise climática, um assunto que é muito racional. Se não há como explicar pela razão, talvez seja possível tocar as pessoas pela arte”, sugere Tiago Cesquim, assessor da Osusp.

The Uncertain Four Seasons

Junto com outras 13 orquestras espalhadas pelos continentes, a Osusp recebeu o convite para participar do projeto The Uncertain Four Seasons, uma iniciativa de AKQA e Jung von Matt, o compositor Hugh Crosthwaite, a Orquestra Sinfônica de Sydney e o Monash Climate Change Communications Research Hub. O projeto baseia-se em um site que criou uma recomposição algorítmica de As Quatro Estações, de Vivaldi, desenvolvido por compositores, músicos, cientistas do clima e da computação usando previsões do clima geoespacial para 2050. No site há um mapa-múndi que pode ser manipulado: ao clicar no ponto, que representa uma orquestra de cada local, o público viaja pelas estações. Em cada ponto há uma variação da música e textos vinculados com os dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC em inglês) de previsão climática para 2050 se nada for feito.

No caso do Brasil, o algoritmo utiliza uma partitura específica conforme a localização da sede da Osusp (Anfiteatro Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária). Tiago destaca que, entre as variações, o que chamou mais a atenção foi a parte Outono, composta apenas de pausas. A equipe da orquestra achou que era um erro de transmissão de arquivo. Depois foi informado pelo compositor que essas pausas são os reflexos de uma das situações drásticas para São Paulo em 2050. “Então resolvemos gravar durante um minuto a orquestra fechada, sem tocar”, ressalta Tiago.

Site Uncertain Four Seasons - Foto: Reprodução/Uncertain Four Seasons

Imagina-se ouvir os concertos publicados em Amsterdã, As Quatro Estações (1725), com um conforto, pois representam combinações entre o que as pessoas sentem e as emoções associadas a cada estação. Vivaldi traduzia imagens poéticas como o cair das folhas de outono em música. Mas com as variações climáticas drásticas, a música se altera junto com essas sensações. Por exemplo, a falta de chuva no Inverno, em 2050, é representada por notas mais alongadas, demonstrando incertezas. Na parte da Primavera algumas notas foram removidas, o que reflete a extinção de animais. E no Verão houve desaceleração no andamento da orquestra, o que simboliza o calor incessante. Em algumas partes há tensão e, em outras, lentidão. “Gostei muito dos movimentos lentos, que me passaram um sentimento de angústia. Como se a natureza estivesse nos mostrando o perigo do nosso desleixo perante ela”, conta o primeiro-violino e solista da orquestra, Cláudio Micheletti. O músico relata que as diferenças são grandes da versão original de Vivaldi. “Alguns trechos ficaram muito distorcidos, o que dificultou demasiadamente a execução, porém com um resultado muito interessante. Todas as mudanças causam um certo desconforto no início, mas depois de ensaiar vários dias me identifiquei com esta nova versão.”

Desde a Conferência Rio-92, as nações concordaram em assumir o compromisso de “estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera” para evitar interferências perigosas da atividade humana no sistema climático. Este tratado, que passou a vigorar em 1994, hoje envolve 197 países. A última conferência ocorreu em novembro deste ano em Glasgow (Escócia), a COP 26 (Conferência das Partes), ou seja, uma cúpula climática global. No início do Dia da Juventude e Empoderamento Público na COP 26, no último dia 5, o The Uncertain Four Seasons lançou as apresentações. Um dos objetivos do projeto é pressionar os líderes mundiais para assinarem o Compromisso dos Líderes pela Natureza e, assim, se comprometerem a reverter a perda de biodiversidade até 2030.

Além disso, foi incluído um orador para apresentar a orquestra e trazer alguma reflexão sobre o assunto. “A Osusp escolheu o professor Jacques Marcovitch para ser o apresentador, pois é uma das figuras mais relevantes tanto para a USP quanto para o Brasil quando o assunto é  transformação climática, tanto no aspecto econômico quanto no ambiental. O professor chegou até a participar da Comissão Coordenadora da USP para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92”, afirma Tiago.

“A Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo se junta a suas parceiras de outros países para fazer um apelo musical em prol do meio ambiente do planeta. Fazemos isso porque, como cidadãos do mundo, queremos que as quatro estações de Vivaldi continuem sendo tão diversas quanto as estações que inspiraram o grande compositor.” Esse é o início do discurso de Marcovitch que alerta sobre as mudanças no clima. Ele ainda alerta que, para limitar o aquecimento global a 1,5ºC, são necessárias grandes mudanças na organização da vida humana em quase todos os níveis, como descarbonizar as economias e integrar a humanidade de forma correspondente aos riscos que estamos enfrentando.

Incertas estações

Baseado nesse projeto, alguns membros da Osusp separaram uma série de textos científicos, jornalísticos, filosóficos e poéticos para realizar uma espécie de obra ficcional, o minidocumentário As (incertas) Quatro Estações, que mescla imagens da orquestra, a narradora e imagens da natureza. Junto com jovens integrantes da Orquestra de Heliópolis e Instituto Baccarelli, a Osusp colabora com um alerta para as terríveis alterações climáticas. A responsável pela narração da produção audiovisual é a violinista Mayra Moraes. A artista conta que de uma certa forma os algoritmos e o material analisados levam à conclusão de que aquele mundo idílico do século 18, de Vivaldi, como o inverno com lareira, a chuva gostosa, as colheitas no inverno… Tudo isso tende a desaparecer. “O que aconteceria se Vivaldi estivesse escrevendo As Quatro Estações hoje?”, reflete Mayra.

As (incertas) Quatro Estações, por Mayra Moraes

“O minidocumentário é algo incômodo, da mesma forma que os impactos climáticos geram incômodo, para dizer o mínimo. A ideia de conceber esse minidocumentário nesse formato foi causar inquietação no público”, conta Isabelle Menegasse, sócia fundadora da Rawziski Registros Musicais e roteirista da produção. Ela explica que a intenção do minidocumentário foi trazer algo um pouco bizarro, como um violinista tocando com chapéu de sol e muito suado na parte do Verão, ou um violinista tocando e tossindo porque não consegue passar uma frase musical inteira sem tossir na parte do Inverno. Isabelle ressalta que a grande importância do minidocumentário é “abrir a nossa visão de que nós, artistas, podemos também participar de manifestações que contribuem para causas maiores, no quesito de urgência”. 

Para Mayra, o objetivo do projeto, além de alertar sobre a crise climática, é fazer um convite para que as pessoas e as instituições reflitam sobre iniciativas para reverter esse quadro de desastre ambiental e para que as pessoas lembrem que há apenas uma humanidade, cheia de diversidade, mas que a questão climática exige uma atitude global, com todos juntos. 


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