Obra completa de António Vieira tem 30 volumes e textos inéditos

Recém-lançado pelas Edições Loyola, o projeto tem a participação do professor da USP João Adolfo Hansen

Por - Editorias: Cultura
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O padre António Vieira – Imagem: Wikimedia Commons

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Definido por Fernando Pessoa como o “imperador da língua portuguesa”, exaltado por José Saramago, que afirmou que “a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta” e considerado, ao lado de Camões, peça fundamental para a formação e o desenvolvimento da nossa língua. Esse é o padre António Vieira, religioso e escritor português — entre outras tantas ocupações — nascido em Lisboa no início do século 17, mas que passou boa parte de sua vida no Brasil.

No último dia 9 de fevereiro, as Edições Loyola lançaram a Obra Completa do Padre António Vieira na Academia Paulista de Letras, no centro de São Paulo. Sonhado há mais de um século “por diferentes gerações de estudiosos da língua e da cultura portuguesa de várias nacionalidades”, o projeto foi dirigido por José Eduardo Franco e Pedro Calafate, ambos da Universidade de Lisboa. Contando com a colaboração de mais de 50 renomados especialistas do país luso e do Brasil, demandou cerca de uma década de “intensa investigação científica”, segundo comunicado da editora.

O resultado do trabalho são mais de 13 mil páginas distribuídas em 30 volumes, incluindo cartas, sermões, escritos proféticos, poesia, teatro e textos inéditos. “Há mais de 150 anos já havia a tentativa de recolher os escritos de Vieira, pois o material andava disperso. Houve a necessidade de se fazer um trabalho crítico, ou seja, aplicar o método histórico-crítico para saber se realmente procediam de Vieira. Esta edição crítica apresenta o contexto de um escrito e ao mesmo tempo acrescenta notas explicativas para sua compreensão”, explica o padre Danilo Mondoni, diretor geral das Edições Loyola.

Trajetória

Em meio a uma sociedade do Antigo Regime, com uma indissociável união entre Igreja e Estado, o Vieira religioso e o político também caminharam lado a lado. António Vieira exerceu, ao longo de sua vida, funções eclesiásticas e diplomáticas, ao mesmo tempo em que se destacou como escritor e orador.

Atuando na Companhia de Jesus, Vieira catequizou indígenas brasileiros e defendeu o fim da escravização dos índios. Além disso, o jesuíta atuava em favor dos chamados cristãos-novos, especialmente dos judeus. Por essa postura, Vieira foi preso pela Inquisição portuguesa, que à época perseguia essa população. Segundo Mondoni, a prisão deveu-se especialmente a motivações políticas. António Vieira passou cerca de dois anos preso e foi posteriormente absolvido.
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O professor da USP João Adolfo Hansen – Foto: Reprodução/YouTube

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Segundo o professor João Adolfo Hansen, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Vieira também defendia as teses católicas relacionadas à monarquia, em contraposição às teses ateias de Maquiavel e às protestantes de Lutero, Calvino e outros. “Ele recorre à oratória como meio de convencimento das vontades dos seus diversos públicos, em Portugal, na Itália, no Brasil, no Maranhão e Grão-Pará, acerca da verdade profética que ele interpreta nos textos do Velho e do Novo Testamento, estabelecendo concordâncias ou relações de semelhança deles com os acontecimentos e homens do Império português na Europa e em suas extensões coloniais”, aponta.

Para Hansen, Vieira tinha uma “imaginação extraordinária” nas relações que estabelecia, e utilizava de formas da língua portuguesa “extremamente bem articuladas, engenhosas e agudas”. “Ele é um dos primeiros autores a sistematizar a língua portuguesa culta em formas escritas, tornando-se, por isso, independentemente das referências religiosas dos seus textos, um grande armazém de formas imitado por autores dos séculos 18, 19 e 20, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Machado de Assis, Guimarães Rosa e outros”, explica.

Inéditos

Além dos conhecidos Sermões — agora catalogados segundo o critério temático — e outros textos conhecidos do padre António Vieira, a obra completa recém-lançada traz também textos traduzidos do latim, com especial destaque para A Chave dos Profetas, que Vieira ditou em latim para um secretário pouco antes de falecer.

O escrito inédito conta com prefácio de Hansen, que trata “dos pressupostos escolásticos do pensamento de Vieira, do modo como ele pensa o tempo histórico e da profecia que faz a respeito do destino de Portugal como nação escolhida por Deus para cristianizar todo o planeta”. Segundo o professor da FFLCH, o texto é “uma sistematização metafísica, teológico-política, do pensamento profético que Vieira representou em outras obras, como a carta de 1658 para o jesuíta André Fernandes, o texto profético História do Futuro e, de modo geral, em seus mais de 200 sermões e em muitas de suas cartas”.

Lançamento

 

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A obra completa do Padre António Vieira, lançada pela Loyola – Foto: Reprodução

Segundo o padre Danilo Mondoni, as Edições Loyola vão reimprimir a Obra Completa de José de Anchieta, em 11 volumes, e lançarão a a obra completa de Manuel da Nóbrega em um único volume, ainda em 2017. “O lançamento na Academia Paulista de Letras foi muito importante para nós, pois nos fizemos presentes entre acadêmicos. É claro que a figura de Vieira também contribui muito nesse sentido, por ser um homem de cultura eclética e versado nas letras. Ficamos muito felizes com a receptividade e o interesse despertado pelos acadêmicos”, aponta.

A Obra Completa do Padre António Vieira está disponível no site da editora. Os 30 volumes saem por R$ 2.500,00, mas também é possível comprar os volumes separadamente por valores que vão de R$ 54,00 a R$ 138,00.

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