“O teatro não perdeu Bibi. O teatro celebra Bibi Ferreira”

Professores da Escola de Comunicações e Artes da USP falam do legado da atriz para a cultura brasileira

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Ouça no link acima a última entrevista de Bibi Ferreira concedida à Rádio USP (93,7 MHz), em agosto de 2015, quando a atriz se apresentou no Theatro NET, em São Paulo, cantando músicas de Frank Sinatra. A entrevista foi feita pelo radialista Mário Sant

Abigail Izquierdo Ferreira, ou Bibi Ferreira – apelido que ganhou ainda na infância –, nasceu em 1º de julho de 1922, no Rio de Janeiro. Filha de um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil, o ator Procópio Ferreira (1898-1979), e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi fez sua estreia profissional em 1941, ao lado do pai, no espetáculo La Locandiera, de Goldoni. Segundo ela, “foi uma data realmente memorável, dia 28 de fevereiro de 1941, e perigosa, porque eu não tinha absolutamente nenhuma ideia do que era o teatro”.

Atriz, cantora, compositora e apresentadora, com passagens pela TV, ganhou status de diva e é reconhecida como uma das grandes diretoras de teatro do País. Bibi Ferreira inaugurou o teatro musical com My Fair Lady (1962), cantou Edith Piaf, além de grandes sucessos de Frank Sinatra (ouça no link acima sua entrevista à Rádio USP, em que fala do musical que encenou em 2015 no Teatro Net, em São Paulo), e foi protagonista de Gota d’Água, peça que considerava a melhor dramaturgia da cena brasileira. Ao longo de décadas de carreira, recebeu diversos prêmios, como o Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Governador do Estado e Pirandello. Foi enredo da Viradouro no Carnaval do Rio em 2003 e, recentemente, sua vida e obra foram ‘cantadas’ em Bibi, Uma Vida em Musical, escrito por Artur Xexéo e Luanna Guimarães, com direção de Tadeu Aguiar.

Bibi Ferreira: “Quero ser lembrada pelo meu trabalho, por meus espetáculos, pelas interpretações, pois tudo isso foi feito sempre com total amor e respeito por mim” – Foto: Arquivo TV Brasil via Agência Brasil

Bibi Ferreira morreu na tarde de quarta-feira, dia 13, aos 96 anos, de parada cardíaca. “Bibi Ferreira está entre as maiores atrizes do século 20: completa, talentosa e visceralmente comprometida com o teatro. Em nenhuma outra atriz brasileira a confusão entre arte e vida foi tão explícita”, afirma o professor e chefe do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Luiz Fernando Ramos.

O professor Ramos continua: “Se, nas últimas décadas, até os recentes últimos shows, já nonagenária, exibia a excepcionalidade de um desempenho ainda extraordinário, nas primeiras fases de sua carreira experimentou com brilho todas as teatralidades possíveis. Com seu pai, Procópio, fez o teatro à antiga, do primeiro ator e do ponto. Depois da modernização, introduziu no País os musicais à Broadway em grande estilo e, nos anos 1970, em plena ditadura, com Paulo Pontes, fez um teatro político de qualidade, em diálogo com as correntes contemporâneas. Em cada uma dessas experiências entregou-se de corpo e alma”. Para Ramos, “a cena é uma arte efêmera, mas Bibi flertou com a glória e alcançou a eternidade”.

Segundo o professor Felisberto Sabino da Costa, da ECA, “Bibi Ferreira alcançava, de forma magistral, articular a tradição à contemporaneidade, envolvendo questões que nos tocavam de forma profunda. Trazia, em sua performance no palco, um jeito brasileiro de atuar, de rara beleza, dado que não era ‘representado’, mas intensamente vivido”.

“Foi uma data realmente memorável, dia 28 de fevereiro de 1941, e perigosa, porque eu não tinha absolutamente nenhuma ideia do que era o teatro”, disse Bibi Ferreira, a respeito de sua estreia profissional, ao lado do pai, Procópio Ferreira – Foto: Arquivo TV Brasil via Agência Brasil

Para o professor Fábio Cardozo de Mello Cintra, também da ECA, Bibi Ferreira é uma referência para todos que trabalham com o teatro. “Ela morou bastante tempo em São Paulo e inaugurou o teatro musical com My Fair Lady, nos anos 60, com Paulo Autran”, diz, ressaltando que esse foi o primeiro musical encenado no Brasil digno desse nome. Como a própria Bibi contou certa vez: “Foi a primeira vez em que se fez um grande musical no Brasil. Foi com nosso saudoso Paulo Autran, e um momento muito importante na minha vida pela qualidade do espetáculo que conseguimos dar para o público, com uma esplêndida e enorme orquestra”.

“A obra dela tem um significado fundamental para o teatro brasileiro. Ela é uma representante desde o teatro de revista até o teatro mais moderno, dos anos 40 e 50, passou pelo TBC e teve sua própria companhia. Nos anos 60, foi casada com Paulo Pontes, que escreveu ao lado de Chico Buarque o espetáculo Gota d’Água, e interpretou a Joana, protagonista da peça que ela mais gostava, que ela considerava a melhor dramaturgia brasileira”, conta Cintra. Além disso, segundo ele, durante toda a sua carreira, Bibi Ferreira foi extremamente ativa em relação à classe teatral e à resistência à ditadura. “Ela teve todo um outro papel de referência como profissional de teatro e atriz, inclusive papel internacional, basicamente em Portugal, onde morou no final dos anos 50.” E conclui: “Não há como defini-la, ela sempre foi única em tudo que fez, e é uma influência e presença marcante para as novas gerações”.

Mais homenagens

“Menino em Botucatu, ouvia as Histórias da Tia Bibi, num disco em 45 rotações. Sua voz era delicada e aconchegante, aveludada e musical. Eis minha primeira lembrança de Bibi Ferreira. Ainda não conhecera seu canto piafiano vibrante e cheio de emoção”, afirma o diretor de teatro e professor da ECA Zebba Dal Farra. “Vi Bibi ao vivo somente uma vez: numa leitura inesquecível de A Longa Noite de Cristal, de Vianninha, dirigida por ela, no Rio dos anos 70, com Paulo Gracindo no papel principal. Minha lembrança mais fresca é de uma aluna colombiana que, dedicada a estudá-la, disse lindamente um trecho da Gota d’Água”, relembra. “Bibi era clássica, atriz para se estudar nas classes, como Myrian Muniz, Dina Sfat e Cacilda Becker. Nosso palco mais uma vez se esvazia, mas espera sempre novas ressonâncias, que em sua irradiação estremeçam o autoritarismo que impera.”

“Bibi é sinônimo de vida linda, dedicada ao teatro, vivendo tantas vidas de personagens emblemáticas. Ela vai continuar cantando e dançando para os anjos”, diz a vice-chefe do Departamento de Artes Cênicas da ECA, professora Alice Yagyu. Já para o professor Fausto Viana, também da ECA, “quando a gente se acostuma desde o nascimento com a presença de uma artista do porte de Bibi Ferreira, nunca se espera que ela vá um dia seguir o curso natural de qualquer outro humano, que é mudar de dimensão”. E presta sua homenagem: “Não lamento e não sofro, porque se alguém deixou um legado, foi Bibi Ferreira. Não há lacunas no trabalho meticuloso e exigente de Bibi: no canto, na interpretação, na direção. Para celebrar essa carreira, basta ouvir a gravação do espetáculo Gota d’água. O teatro não perdeu Bibi Ferreira. O teatro celebra Bibi Ferreira”.

Como a própria Bibi Ferreira afirmou: “Quero ser lembrada pelo meu trabalho, por meus espetáculos, pelas interpretações, pois tudo isso foi feito sempre com total amor e respeito por mim”.

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