O humanismo: inimigo da cena política

“Minha esperança é que todos se unam e comecem a fabricar novamente a antiga trama da política”

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Imagem: Jornal da USP

Por Janice Theodoro da Silva

Separar os opostos, o bem e o mal, o certo e o errado, o particular e o universal, entre tantas outras combinações, é uma forma de simplificar a realidade, onde as coisas sempre se misturam. Infelizmente o populismo, frequentemente, lança mão dessas simplificações para fazer política.

Na sequência observa-se a formação de dois times opostos: aqueles que defendem a vida, sugerindo “fiquem em casa”, e aqueles que defendem o retorno à circulação, para preservar a economia.

A pergunta, fruto do raciocínio binário, é:  por que, na atual conjuntura, não se consegue agregar os dois times?

Vou usar uma palavra antiga, mas verdadeira. A contradição para os humanistas chegou no seu limite. Os humanistas podem negociar tudo, menos a vida. Esta epidemia é a maior crise, em âmbito planetário, experimentada pela humanidade desde a Segunda Guerra, com os campos de extermínio de judeus e minorias. A diferença é que naquela época a barbárie do extermínio foi ocultada. Hoje é debatida nos diversos meios de comunicação.

Não é possível mais ficar “em cima do muro”.

Posto o fato, resta a pergunta: por que, hoje, alguns chefes de Estado defendem prioritariamente o mercado, acirram o ódio e pretendem desmontar as instituições internacionais criadas no pós-guerra?

O coronavírus expôs o limite da condição humana: a morte para ricos e pobres de todo o planeta.

A história assiste, na atualidade, a uma forma de fazer política contrária à herança da polis grega. As virtudes políticas defendidas eram e são (ainda): a prudência no agir, o respeito ao equilíbrio entre as partes e a manutenção da vida em dimensão planetária.

Os autoritários contemporâneos substituíram a prudência pelo ódio, o equilíbrio pelo confronto e a vida humana pela manutenção do mercado (com justificativas variadas).

Retomo a pergunta: por que tanta gente escolheu o ódio, o desequilíbrio e a morte como arma política?  Porque para muitos seres humanos as condições de vida tornaram o futuro inexistente (ausência de utopia) e o presente, a vida, com sentido duvidoso. Para muitos, morrer tornou-se mais palatável do que viver. E essa constatação não é fruto apenas da renda de cada um de nós. O lugar remete a antigas formulações sobre a sociedade contemporânea, onde o sentido da vida deixou de estar na condição humana e passou apenas para as coisas.

Fazia muito tempo que os humanistas não ficavam bravos, coléricos. Não faz parte do perfil prudente. Minha esperança, velha companheira, é que todos se unam e comecem a fabricar novamente, como nos velhos tempos, a antiga trama da política, bem lembrada por Jean-Pierre Vernant. Ela consiste em passar pela frente, por trás, pela frente, por trás. E, de certa forma, essa imagem da constituição de um tecido social comunitário é também a imagem grega da amizade. É uma forma de philia (amizade), porque a philia também supõe esse trabalho e essa tensão.

A política, amigos, exige philia.

Janice Theodoro da Silva é professora titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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