Nova montagem de “Roda Viva” amplia crítica política

Criada durante o regime militar, peça de Chico Buarque ganha nova versão de José Celso Martinez Corrêa

LUIZ ROBERTO SERRANO


Em julho de 1968, o Grupo Teatral Politécnico, o GTP, do qual eu participava, ensaiava As Feiticeiras ou Bruxas de Salém, do dramaturgo norte-americano Arthur Miller, sobre a caça às bruxas no fim do século 17, 1692, em Massachusetts, nos EUA. A peça foi encenada, pela primeira vez, em 1953, auge do macarthismo nos EUA, época em que o senador republicano Joseph McCarthy promoveu feroz perseguição a artistas, escritores, educadores e sindicalistas. Os EUA estavam em plena Guerra da Coreia, Mao Tsé-Tung comandava a China e a União Soviética estendia seu poder até a Alemanha Oriental. McCarthy via “comunistas” em todo lugar.

Em 1968, a primeira peça de Chico Buarque e um dos marcos do teatro brasileiro, Roda Viva, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, foi proibida pela censura – Foto: Reprodução

Assim como Miller escreveu a peça em reação àquele momento da vida norte-americana (também depôs na Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado, comandada por McCarthy), nós, no GTP, julgamos que, naquela quadra de 1968, com o endurecimento do regime militar, seria útil encená-la para dramatizar o momento que o Brasil vivia. Sendo uma peça norte-americana consagrada, dificilmente seria censurada. Para nos dirigir, convidamos o ator Cláudio Mamberti, com larga experiência em teatro, cinema e TV.

Numa fria tarde de julho, nos preparávamos para mais um ensaio, no mezanino da Casa do Politécnico, ainda situada na Rua Três Rios, no centro da cidade, quando Mamberti surge exaltado: “Pessoal, ontem o CCC invadiu e bateu no elenco do Roda Viva. Vamos para lá para fazer segurança na sessão de hoje à noite!”.

Desembarcamos no Teatro Galpão, da criativa e combativa Ruth Escobar, e por lá fizemos segurança por três noites consecutivas, eu com um capotão de lã, até os joelhos, barra de ferro na mão, perto de uma das portas de saída. Qualquer barulho externo causava inquietação, mas felizmente o Comando de Caça aos Comunistas não voltou e nada mais aconteceu em São Paulo. A agressão se repetiu em Porto Alegre, semanas depois, e a peça foi censurada, considerada “subversiva”.

A peça Roda Viva, como o próprio autor, Chico Buarque, a definiu, foi escrita como uma paródia sobre a absorção de jovens artistas pela engrenagem da indústria cultural, do show business, suas exigências e imposições. No caso de Chico, a absorção do ainda estudante de arquitetura na FAU-USP, em meados de seus 20 anos, pela engrenagem das paradas de sucessos no embalo dos festivais de música dos anos 1960, território dominado pela TV Record e no qual a ainda incipiente Rede Globo tentou fincar pé mais tarde.

Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina estavam todos, muito jovens, nesse barco rumo ao sucesso. Todos brilhavam nos festivais de música. Já no Festival da Record de 1967, Chico apresentou Roda Viva, a canção, acompanhado pelo MPB-4, prato de resistência da peça, e um ano depois – 1968, quando a tensão política cresceu, as passeatas e os protestos tomaram as ruas e os teatros, a repressão da ditadura recrudesceu e o AI-5 caiu sobre o País pouco antes do Natal. Roda Viva foi, sobretudo, uma crítica à indústria cultural, ao star system, fabricante de ídolos e mitos, mas sua linguagem e encenação agressivas, dirigidas por José Celso Martinez Corrêa, carregavam críticas aos costumes e ao regime político.

Na nova montagem de Roda Viva, o diretor José Celso Martinez Corrêa ora se faz de plateia, ora de animador de cena – Foto: Reprodução / Youtube

Nesse trajeto, diante do crescimento da oposição ao regime de 64, o CCC tentou acabar com a temporada da Roda Viva em São Paulo. O Teatro Galpão, de Ruth Escobar, em São Paulo, centro de resistência cultural na época, também abrira suas salas para a censurada Feira Paulista de Opinião. O CCC se antecipou à censura do regime e partiu para a agressão como instrumento de repressão. A partir desse momento, Roda Viva transformou-se no símbolo de um momento de resistência cultural que Chico Buarque provavelmente jamais imaginara que ela pudesse alcançar.

Pois alcançou e, no cinquentenário da primeira montagem, José Celso Martinez Corrêa decidiu retomá-la em seu Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem sido sucesso de público, desde a estreia, em dezembro passado, pois, principalmente entre os jovens, há uma grande curiosidade por tudo o que ocorreu naquele trepidante 1968.

Além disso, a peça estreou dois meses após a eleição de Jair Messias Bolsonaro, um admirador de 64, que chegou ao Palácio do Planalto surfando um projeto conservador, em inúmeros aspectos retrógrado, gerando incertezas sobre os rumos do País. Críticas e referências ao governo, a suas propostas e a alguns de seus ministros perpassam toda a montagem, ocupando mais espaço, pela minha memória, do que a montagem original de 1968.

José Celso adaptou a remontagem ao espaço cênico diferenciado do Oficina, concebido por Lina Bo Bardi como uma extensa passarela ladeada por duas elevadas estruturas metálicas à guisa de plateia. Bem distinto do palco tradicional da montagem original, na qual a “quarta parede” já havia sido abolida. A interação com o público, presente em 1968, é mais intensa, direta, envolvente na versão atual, rica e dinâmica na concepção cênica, musical e coreográfica ao longo da passarela.

A transmissão ao vivo da peça para dois enormes telões, como se fossem smartphones gigantes, estrategicamente colocados no meio da passarela, amplifica a encenação. Logo no início, passam cenas de refugiados de todo o mundo em busca de seus incertos destinos, ao som de Caravanas, música recente de Chico Buarque. O diretor ora se faz de plateia, ora de animador de cena, para um público majoritariamente jovem.

Ao fim da peça, que dura quase quatro horas, ficou-me uma questão: quanto um “revival” deve ser fiel ao original ou atualizar o enredo de uma peça histórica?

Depois de 50 anos de sua estreia, a peça Roda Viva é remontada pelo Teatro Oficina – Foto: Reprodução / Sesc Pompeia

A saga de Ben Silver, ou Benedito Lampião, mito criado artificialmente pelo star system, sua ascensão, queda e o coro dionisíaco que devora seu fígado, e marcou época na encenação original, estão lá, continua o eixo da história. A doce Sem Fantasia e a filosófica Roda Viva, esta com uma bela coreografia, também. Mas, pergunto, ainda se fazem ídolos via televisão ou poderosas gravadoras como antigamente?

O Facebook, Youtube, Twitter, Instagram, Spotfy, Netflix não são hoje os meios efetivos para criar ídolos, arregimentar seguidores, fãs, criar mitos, até políticos, arrastar multidões? Todas essas redes sociais são citadas no enredo de José Celso, até pedem-se desculpas a Chico Buarque por sua inserção. Não faltam as famigeradas fake news. Mas sem ressaltar sua atual preponderância.

No final da peça, o público sai pela passarela, junto com os atores, num clima de catarse, ao som da Estação Primeira de Mangueira, com a sensação de ter revivido o clima daquele mítico 1968.

Recordar é viver, mas fica um desafio: a montagem de outra peça, outro enredo, inteiramente dedicado às redes sociais e aos onipresentes smartphones que colocam nossas vidas de cabeça para baixo e nos levam sabe-se lá aonde. É um tema instigante.

P.S.: As Bruxas de Salém nunca foi encenada pelo GTP, um motivo prosaico provocou o afastamento do diretor Cláudio Mamberti. O grupo escreveu a peça A Bomba, sob a batuta da atriz Dudu Barreto Leite. Foi apresentada uma única vez, no Teatro Popular João Caetano, na Vila Mariana, em São Paulo, e foi censurada.


Luiz Roberto Serrano é jornalista e superintendente de Comunicação Social da USP

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