Nova edição de “A Origem das Espécies” traz Darwin mais “radical”

Revisado por Nelio Bizzo, da USP, livro não contém inserções posteriores que fazem “concessões” à religião

Por - Editorias: Cultura
O cientista inglês Charles Darwin: para o professor Nelio Bizzo, pressão dos críticos fez o criador da teoria da evolução alterar a primeira edição de A Origem das Espécies – Foto: John Collier – National Portrait Gallery/Wikimedia Commons

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“Não vejo nenhuma boa razão para que a visão deste livro devesse chocar os sentimentos religiosos de alguém.” Essa frase do cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) não está na primeira edição de The Origin of Species (A Origem das Espécies), publicada em 1859, em Londres, mas sim na segunda e nas demais edições desse livro que apresentou ao mundo a teoria da evolução e revolucionou a ciência. Também na segunda edição da obra, lançada em 1860, surgem uma epígrafe do bispo anglicano Joseph Butler referindo-se a um “projeto inteligente” – expressão que na década de 1980 substituiu o termo “criacionismo” – e citações a um “Criador” que teria “soprado” a vida.

É o texto completo da primeira edição de A Origem das Espécies – sem as inserções feitas nas edições seguintes, até a sexta, de 1872, base das traduções publicadas em vários países até hoje – que a Edipro acaba de lançar.  “Logo depois de derrubar a ideia de uma providência divina a guiar todos os detalhes de nossa existência, Darwin se esforçou em acalmar o leitor falando da possibilidade de convivência pacífica entre ciência e religião”, escreve no prefácio da nova edição o professor Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da USP, um dos maiores especialistas em Darwin do Brasil, responsável também pela revisão técnica e pelas notas do livro.

A primeira edição de A Origem das Espécies, lançada em 1859, em Londres: sem acréscimos que seriam “concessões” aos críticos de Darwin – Foto: Wikimedia Commons

Para o professor, as alterações feitas à primeira edição podem ser tomadas como tentativas de diminuir o choque provocado pelo livro no grande público ou como estratégias de defesa diante das muitas críticas recebidas. Ele lembra que a teoria da evolução despertou reações iradas não apenas de religiosos fundamentalistas, aferrados à ideia de uma criação instantânea e imutável da natureza por Deus, mas também de cientistas, que apontavam nas ações dos seres vivos e nas condições ambientais – e não na seleção natural – as causas das transformações verificadas nas espécies. “Essas duas perspectivas colidiam frontalmente com as ideias de Darwin, que via na seleção de formas bem-sucedidas a chave da compreensão da diversidade, seja de variedades de animais e plantas cultivadas nas fazendas europeias, seja nas múltiplas formas de seres vivos de campos e florestas ao redor do mundo.”

Bizzo destaca que, nas edições posteriores do livro, serão acrescentadas nove referências ao Criador – “com letra maiúscula”, enfatiza o professor – como sujeito de ações que não se restringem apenas a instituir leis para o comportamento da matéria. Além disso, Darwin retira da primeira edição de A Origem das Espécies um parágrafo do capítulo 6 em que sugere a possibilidade de a baleia ter origem num mamífero terrestre – ideia amplamente ridicularizada na época do lançamento do livro e confirmada pela ciência no século 20. E mais: no capítulo 9, Darwin faz cálculos que contam em centenas de milhões de anos a idade do Vale do Weald, no sudeste da Inglaterra, tornando-se um dos pioneiros da geocronologia. Muito criticado pela exorbitância da estimativa – até hoje, setores mais conservadores do judaísmo e do cristianismo acreditam ter o universo cerca de 6 mil anos, contados a partir da criação de Adão -, Darwin retirou esses números já na edição seguinte. “Por tudo isso, creio que Darwin fez essas alterações por causa das pressões que sofreu”, afirma Bizzo, em entrevista ao Jornal da USP.

“Formas produzidas por leis que agem em seu entorno”

A primeira edição de A Origem das Espécies está livre dos receios de Darwin em relação a seus críticos. “A versão original traz a radicalidade de suas ideias exposta de forma direta, sem requerer do leitor o conhecimento das reações do grande público nem detalhes das críticas das numerosas resenhas que se seguiram à primeira publicação”, destaca Bizzo, no prefácio da nova edição.

A nova edição brasileira de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, publicada pela Edipro: baseada na primeira edição inglesa – Foto: Reprodução/Edipro

Nela, como a confirmar as impressões do professor da USP, percebe-se um Darwin sereno, dedicado apenas a observar e a descrever as evidências que se colocam diante de seus olhos. “É interessante contemplar a margem de um rio coberta com todo tipo de vegetação, pássaros cantando nos arbustos, vários tipos de insetos ali voando e vermes rastejando pela terra úmida e, então, refletir sobre o fato de que essas formas construídas de maneira tão elaborada – muito diferentes e dependentes umas das outras e de maneira tão complexa – foram todas produzidas por leis que agem em seu entorno”, escreve o cientista.

Ele conclui o livro com a palavra que sintetiza sua teoria e, curiosamente, aparece uma única vez em toda a edição de 1859: “Há grandiosidade nessa forma de conceber a vida, com seus diversos atributos, como algo originalmente soprado em poucas formas ou em apenas uma; e é igualmente grandioso saber que, enquanto este planeta gira de acordo com a lei fixa da gravidade, infinitas formas, as mais belas e maravilhosas, tenham iniciado a partir de uma origem muito simples, e mantenham sempre em marcha sua evolução”.

A primeira edição de A Origem das Espécies, de 1859, foi a base de apenas duas traduções da obra de Darwin publicadas no Brasil, segundo Bizzo: uma lançada nos anos 80 pela Editora da USP (Edusp) e outra, mais antiga, mas não integral, produzida pela Editora da Universidade de Brasília (UnB), ambas já esgotadas. As várias outras traduções surgidas no Brasil seguem a sexta edição.

A Origem das Espécies, de Charles Darwin, tradução de Daniel Moreira Miranda, Edipro, 480 páginas, R$ 77,90.

 

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