Nova edição da “Revista USP” presta homenagem a José Saramago

Dossiê traz artigos sobre diferentes aspectos da obra do escritor português, Prêmio Nobel de Literatura de 1998

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O escritor português José Saramago (1922-2010) – Fotomontagem: Vinicius Vieira/Jornal da USP
Premiado com o Nobel de Literatura em 1998 e, três anos antes, com o Prêmio Camões, José de Sousa Saramago (1922-2010) é considerado o responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. “Dez anos após sua morte, suas histórias – e a forma como soube contá-las – continuam a nos maravilhar e a suscitar leituras as mais diversas e instigantes”, afirma o professor da USP Jean Pierre Chauvin na apresentação da nova edição da Revista USP, que traz um dossiê sobre o escritor português.

Segundo Chauvin, que organiza o dossiê, desde a morte de Saramago, há dez anos, uma “porção de nós” se sente um tanto órfã: “Em parte, devido à ausência de uma voz alternativa ao que aí está; em parte, porque se tratava de um escritor que se tornou paradigmático em vida, capaz de amalgamar traços estéticos e questões éticas; hábil ao compor diálogos situados entre a digressão e a síntese; convincente ao aproximar múltiplas formas de contestação e sensibilidade”.

O dossiê reúne ensaios de pesquisadores da USP, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com diferentes perspectivas sobre a obra de Saramago. Para Chauvin, a coletânea é uma reunião de importantes palavras sobre o “notável artífice e contestador” que foi José Saramago. “Para além de celebrar a efeméride, essa reunião de leitores propõe outros modos de ver, perceber e sentir literatura, política e história, num momento em que parte dentre nós persiste em assinalar modos de se distinguir em relação às outras e outros, como se este fosse o sentido único e o propósito maior da existência.”

Artigo do professor Marcos Lopes na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

O artigo Ler Saramago em Tempos Liberais e Conservadores, do professor de literatura Marcos Lopes, da Unicamp, abre a revista. “Saramago era um ateu convicto e comunista. Implacável com os poderes políticos da religião e crítico mordaz das estruturas econômicas do capitalismo da segunda metade do século 20, o escritor português foi um arauto da justiça social em sua ficção romanesca, além de artífice exímio de uma escrita literária que emulou alguns dos principais escritores de língua portuguesa, tais como Padre Vieira e Eça de Queirós. Romances como Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982) e História do Cerco de Lisboa (1989) se inscrevem em uma tradição da prosa ficcional em que a presença de um narrador irônico e a denúncia das assimetrias sociais constituem dois traços ostensivos de uma literatura preocupada com a representação da realidade histórica e social”, escreve Lopes.

A inscrição de Saramago na tradição literária portuguesa, segundo Lopes, é um gesto crítico que, além de dar legibilidade e legitimidade à sua criação artística, procura situar um projeto ficcional que apostou suas fichas em alguns valores éticos, como a defesa da igualdade entre os homens, a denúncia da opressão social vivida pelos trabalhadores e a compreensão dos mecanismos de conservação das injustiças sociais. “As personagens saramaguianas encarnariam o drama de uma sociedade cindida entre opressores e oprimidos, sendo que as vozes narrativas mais expressivas e contundentes seriam aquelas situadas nas classes populares. A empatia do narrador com essas classes populares seria um sinal inequívoco da solidariedade e do compromisso dessa ficção com os despossuídos e esquecidos na história de Portugal”, comenta.

Formação e obras

Artigo da professora Maria Fernandes de Carvalho na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

“Quem sabe seja ainda útil, porém, identificar a recriação por apropriação de suas fontes, perscrutando onde Saramago aprendeu a escrever.” A frase da professora de Literatura Portuguesa Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, da Unifesp – autora de Poesia de Agudeza em Portugal pela Editora da USP (Edusp) -, surge depois que “muito já foi escrutinado quanto ao estilo e modos, quanto à sua inserção no sistema literário da língua portuguesa em Portugal e no cenário lusófono internacional”. Como ela escreve em seu artigo Palavra Não Puxa Palavra: História e Ficção em José Saramago – presente no dossiê da Revista USP -, estudiosos ou biógrafos já assinalaram artigos heterodoxos na formação do ganhador do Prêmio Nobel: vindo das classes populares, o primeiro Nobel lusófono foi fisgado por um literato que “correu por fora”, como se diz, pois sua formação escolar prosseguiu até um certificado tirado em escola técnica.

“Por fora da sistemática do ensino superior formal, por fora da austera hierarquia acadêmica, por fora do beneplácito estamental dos convencionais meios de aquisição de erudição, Saramago formou-se por si e essa forma foi por ele mesmo plasmada. O ranger dos dentes da inveja que se ouviu a partir do sucesso internacional por ele alcançado assentava portanto sobre substrato classista contra alguém que tinha tudo para não ser tido como ‘dos nossos’. Mas o galardoado, que se desenvolvera no universo da comunicação e da imprensa diária, que aprendera muito bem a transitar no mundo globalizado da mídia, esteve também por dentro dos velhos livros portugueses, muitos dos quais tão canônicos quanto embolorados nas estantes institucionais. Ao que parece, foi em narrativas antigas, dos cronicões, dos romances velhos, das velhas cantigas e dos poemas sem data que não deixam esquecer aquilo que é tomado para ser lembrado, foi lá que o serralheiro mecânico por profissão efetivamente aprendeu a ler, ouvir e escrever”, escreve a professora Maria Fernandes, que no artigo acompanha as personagens que compõem o universo de História do Cerco de Lisboa e Claraboia.

 

Artigo do professor Marcelo Lachat na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

A produção romanesca de José Saramago pode ser dividida em três ciclos, conforme propõe Ana Paula Arnaut, citada pelo professor Marcelo Lachat, da Unifesp, em seu artigo Fabular é Aprender a Morrer: As Intermitências da Morte, de José Saramago, também parte do dossiê da Revista USP. “O primeiro – que se inicia com Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e se estende até O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) – caracteriza-se pela ‘portugalidade intensa’ dos romances, isto é, pelo tratamento de temas históricos relacionados, direta ou indiretamente, ‘com a história e com a cultura portuguesas, seja de um passado mais remoto, seja de um tempo mais recente’.” Já nas obras do segundo ciclo – de Ensaio sobre a Cegueira (1995) a Ensaio sobre a Lucidez (2004) – observa-se um “teor universal ou universalizante”, devido “quer à utilização de estratégias que evidenciam o culto de temas de cariz mais geral, quer a uma reconhecida ressimplificação da linguagem e da estrutura da narrativa”. Finalmente, o terceiro é o ciclo dos chamados “romances fábula” – As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008) e Caim (2009) –, nos quais se destaca, entre outras coisas, um “tom marcadamente cômico”.

É a obra de José Saramago publicada em 2005, As Intermitências da Morte, o objeto de estudo de Lachat. Segundo ele, é uma fábula paródica, irônica e alegórica, cuja personagem central é a própria morte, ou melhor, a “pequena morte cotidiana” das pessoas de um país não nomeado. Tal relato se inicia com estas palavras: “No dia seguinte ninguém morreu”; e assim, inexplicavelmente, a partir de 1º de janeiro de um ano qualquer, não se morre mais naquele país. Para discutir essa obra, Lopes recorre ao capítulo 20 do livro I dos Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), intitulado “Que filosofar é aprender a morrer”, para mostrar que, “nessa ‘inverídica história sobre as intermitências da morte’, fabular é aprender a morrer”.

Compaixão e cotidiano

Artigo do professor Jaime Bertoluci na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

Em outro artigo do dossiê, Os Mansos Morrem Trabalhando e os Bravos, Lutando, o professor Jaime Bertoluci, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, analisa Memorial do Convento (1982), o quarto romance publicado por José Saramago que consolidou seu nome nas letras portuguesas. Na obra, o narrador se compadece pelo sofrimento de bois de carga durante o transporte de uma pedra colossal, destinada ao pórtico da igreja do convento em construção, e de touros e outros animais massacrados em uma arena em Portugal no século 18. O estudo de Bertoluci integra seu projeto de pesquisa no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, que tem como objetivo examinar a expressão da compaixão pelo sofrimento imposto pelo homem aos animais, frequentemente relacionado a uma crença religiosa, na obra de ficção de José Saramago, e demonstrar que a compaixão não está necessariamente relacionada à religiosidade e que, pelo contrário, a ausência de compaixão pode estar paradoxalmente relacionada a algum tipo de crença no sobrenatural.

Artigo do professor Jean Pierre Chauvin na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

O organizador do dossiê, Jean Pierre Chauvin, professor de Cultura e Literatura Brasileira da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, assina o artigo Poder e Contrapoder em José Saramago, em que o leitor é convidado, em suas palavras, a “reparar e ver” como as mínimas e máximas formas de poder são negociadas e representadas ironicamente no Ensaio sobre a Lucidez. “Editado em 2004, o livro reencena personagens que haviam participado do mundo temporariamente desnorteado, totalitário e violento de Ensaio sobre a Cegueira, publicado nove anos antes. A narrativa, igualmente redigida em terceira pessoa, enquadra um comportamento atípico adotado por eleitores de uma capital, que tanto poderia ser Lisboa, quanto Paris, Tóquio, Nova York, São Paulo, Nova Delhi, Madri ou Johannesburgo, que promove uma autêntica e justificável desobediência civil, a desafiar a fachada democrática do governo.

Artigo do jornalista Marcello Rollemberg na Revista USP – Foto: Reprodução/Revista USP

O dossiê se encerra com Quatro Vezes com Saramago, artigo que recupera a memória das vezes em que o jornalista e editor de Cultura do Jornal da USP Marcello Rollemberg esteve com Saramago, como numa visita ao escritor em sua casa, em Lisboa, e numa entrevista sobre o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como conta Rollemberg, “de férias em julho de 1989, invertendo a mão dos navegantes lusitanos de quase cinco séculos antes, eu descobri Portugal. Ouvi pela primeira vez a voz onírica de Teresa Salgueiro (a alma do grupo Madredeus) enquanto perambulava pela livraria Vieira de Carvalho (outra descoberta), provei ginjinha em copo de chocolate. E conheci José Saramago”. Foi durante a Feira do Livro de Lisboa “que vi um senhor de óculos sentado a uma mesa, cercado por alguns poucos leitores curiosos, distribuindo autógrafos de forma simpática, mas pouco efusiva. Ali estava José Saramago, já com 66 anos, quase derretendo sob o sol, cumprindo seu papel de autor”, conta.

Rollemberg continua: “Autor, diga-se, um tanto temporão, já que – depois de trabalhar em redações de jornais e fazer traduções – havia publicado seu primeiro livro de sucesso apenas nove anos antes. Levantado do Chão abriu seu caminho para um reconhecimento que, apesar de tardio, não parou mais de crescer até chegar a níveis planetários. Até lhe dar um Nobel de Literatura, em 1998. Mas, àquela altura, nem aquele senhor sentado à mesa nem eu pensávamos nisso. Eu queria apenas apertar a mão de José Saramago, trocar algumas palavras aleatórias, estender-lhe meu exemplar de O Ano da Morte de Ricardo Reis (meu favorito até hoje) e ganhar meu autógrafo. Consegui”.

Revista USP, número 125, dossiê “Saramago”, publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, 155 páginas. A revista está disponível na íntegra, gratuitamente, neste link. 

LEIA MAIS:

“Quatro vezes com José Saramago”, de Marcello Rollemberg, texto publicado no dossiê “Saramago”, da Revista USP (clique aqui).

Revista traz ensaios sobre arte, cinema, literatura e cosmologia indígena

A Revista USP traz ainda mais três textos. O primeiro, O cinema entre o real e o imaginário, de Rogério de Almeida (professor associado da Faculdade de Educação da USP), aborda os modelos cinematográficos documental e ficcional, desde sua criação com Georges Méliès e os irmãos Lumière, até o cinema inventivo de Abbas Kiarostami, que aboliu a distinção entre ficção e documentário. O segundo, Lima Barreto, Roberto Arlt, João Antônio e os trens suburbanos no Rio de Janeiro, integra a pesquisa de pós-doutorado de Clara Avila Ornellas, em andamento em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, que investiga, entre outros aspectos, como as visões desses escritores, em épocas diferentes, se aproximam ou se diferenciam sobre diversos aspectos da realidade do Rio de Janeiro. E o terceiro, Histórias e cosmologia indígenas no Popol vuh, livro maia-quiché, de Eduardo Natalino dos Santos (professor de História da América Pré-Hispânica e História Indígena Colonial do Departamento de História da USP), aborda o Popol vuh, uma instigante narrativa com a perspectiva dos maias-quichés de meados do século 16 sobre a longa história dos povos maias.

A seção Arte apresenta uma série de imagens sobre Visões divergentes da fotografia e do Japão, por Atílio Avancini (fotógrafo e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP), com fotos autorais, produzidas entre 2015 e 2017 no Japão, principalmente nas cidades de Osaka e Kyoto. E, em Livros, Criaturas que o mundo esqueceu. Esqueceu?, de Antonio Bivar, sobre Criaturas que o mundo esqueceu, de João Carlos Rodrigues (Humana Letra, 2019); Leituras da esquerda brasileira, de Luis Fernando Franco Martins Ferreira, sobre A batalha dos livros: formação da esquerda no Brasil, de Lincoln Secco (Ateliê Editorial, 2017); e Uma constelação chamada Flaubert, de Marisa Midori Deaecto, sobre o Dictionnaire Flaubert, sob a direção de Gisèle Séginger (Champion Classiques, 2017).

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