“Navios Iluminados”, fugidios cenários de ilusão

A saga de Severino no Porto de Santos para ajudar a família e casar com Raimunda

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Embarque de café no Porto de Santos – Foto: Divulgação/Museu do Porto – portodesantos.com.br

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Pesquisando a sequência de leis getulistas que resultaram, em 1943, na Consolidação das Leis do Trabalho, a sempre citada CLT, aportei no Centro de Pesquisa e Documentação da História do Brasil, o CPDOC da FGV.

Na página A Era Vargas dos anos 20 a 1945, deparei-me, no link Anos de Incerteza – 1930-37, com o item Literatura Proletária, que dizia: “A literatura dos anos 30 era bastante distinta da literatura modernista, que procurava romper com os padrões convencionais através da pesquisa estética. A preocupação agora era trazer para as letras brasileiras um tema praticamente desconhecido: o cotidiano dos pobres e oprimidos. Foi essa a origem do ‘romance proletário’, inspirado na temática da miséria urbano-industrial. O estilo dessas obras se aproximava do chamado ‘realismo socialista’, centrado no relato fiel dos fatos”.

Ao relacionar as obras que se filiavam a essa escola, o texto apontava, mais à frente: “A vida dos trabalhadores no porto de Santos inspirou Navios Iluminados (1937), de Ranulfo Prata”. Minha alma santista imediatamente lembrou-se dos idos da década de 60, quando, à noite, nas constantes greves no Porto de Santos, a barra da Baía de Santos ficava repleta de navios iluminados, à espera de descarregar suas cargas no porto. Era como se houvesse uma cidade do outro lado da barra.

Porto de Santos é o cenário principal de Navios Iluminados – Foto: Divulgação/Museu do Porto – portodesantos.com.br

Reeditado, em 2016, pela primorosa Coleção Reserva Literária, da Com-Arte e da Editora da USP (Edusp), Navios Iluminados conta uma história bem anterior aos agitados anos 60 no Porto de Santos. Uma história que semeou os movimentos que, ao longo do tempo, alimentaram a lenda do Porto Vermelho, da Barcelona brasileira, como o Porto de Santos foi conhecido até 1964. É a história dos trabalhadores nortistas, nordestinos, e estrangeiros que migraram para Santos para ganhar a vida no trabalho insalubre de carregar e descarregar navios nos braços, nas costas, num tempo em que a mecanização do porto ainda era incipiente.

É uma história personificada em José Severino, baiano de Patrocínio do Coité, cuja família explorava uma terra digna de Vidas Secas. A conselho do amigo Felício, que tinha dons de encantador de serpentes e há anos trabalhava no porto, Severino desbancou-se para Santos, movido pela ilusão de ganhar algum dinheiro e poder casar-se com Raimunda – que em Coité ficou à sua espera.

Ranulfo Prata foi um médico sergipano, formado em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, que depois de rodar Sergipe, Minas Gerais e São Paulo estabeleceu-se em Santos. Teve consultório próprio, mas chefiou o serviço de radiologia da Santa Casa, trabalhou na Beneficência Portuguesa e no Ambulatório Gaffrée e Guinle, os concessionários que receberam, nos estertores do reinado de D. Pedro II, o direito de construir e explorar o porto por 90 anos. Autor de contos, crônicas e livros, a sua experiência nos hospitais de Santos, em especial no Ambulatório Gaffrée e Guinle, o fez conviver cotidianamente com as doenças e males que acoçavam os trabalhadores braçais do cais – e essa vivência o inspira e transparece em várias passagens de Navios Iluminados.

“De súbito, surgiu sobre as águas um imenso clarão. Um transatlântico passava, gigantesco, vagarosamente. Ia tão iluminado que parecia levar todas as estrelas do céu… Severino, numa fascinação de quem via aquilo pela primeira vez, acompanhou-o com a vista até ele desaparecer na curva do canal.

 

O médico e escritor Ranulfo Prata – Foto: Reprodução/ Blog literaturasergipana

“Prendia a atenção de Severino a chegada e a partida de grandes vapores (de passageiros), principalmente à noite, com o fulgor de suas luzes. Havia dias de ver este espetáculo duas e três vezes, em armazéns diferentes, e não se cansava.” Essa era a distração de Severino, antes de conseguir seu emprego no porto. De fato, antes que a aviação dominasse o transporte de passageiros, a chegada e a partida de transatlânticos em Santos era uma festa. Criança, eu, meus irmãos e nossos pais embarcávamos os tios Balbina e Gustavo para sua viagem anual a Buenos Aires, em algum transatlântico da Linea C, e corríamos para a Ponta da Praia para dar adeus a eles quando o navio por ali passava. Era um hábito comum na cidade. Hoje, com passageiros, só aportam em Santos navios de turismo.

Severino conseguiu emprego na Cia. Docas, primeiro no trabalho bruto de uma oficina de reparação de barcos e depois numa turma do tráfego, leia-se carregar e descarregar os navios de carga, levando pesadas sacas nas costas… Ali, imaginava ele, conseguiria fazer um dinheirinho a mais para mandar para família e casar-se com Raimunda.

“Deixou o serviço com uma dor no peito esquerdo, uma dor que aumentava ao puxar pelo fôlego… Depois do café, ao rumar para o cais, teve um acesso repentino de tosse e tornou a cuspir sangue, desta vez uma estria vermelha e mais grossa.

 

O livro lançado pela Editora da USP e pela Com-Arte – Foto: Reprodução/Edusp

O amigo Felício desaconselhou-o: “Homem não faça isso, a turma é um buraco, desgraça com a saúde da gente. Fique onde está. Pobre, pra qualquer banda que penda, só piora…”. Desta vez, Severino não seguiu os conselhos de Felício. Vergando sob pesadíssimos sacos, dia após dia, continuou correndo atrás de suas ilusões. As chegadas e as partidas dos navios iluminados eram um dos poucos momentos de prazer de uma vida de trabalho pesado, duro e desgastante.

“A matéria de Navios Iluminados impôs-se ao autor, que deu a ela um tratamento ficcional primoroso, só comparável ao de Graciliano Ramos, entre os escritores do romance de 1930”, dizem José de Paulo Ramos Jr., editor da Coleção Reserva Literária, e André Saretto, na orelha da belíssima edição de capa dura de Navios Iluminados. Recuperar obras esquecidas no tempo é o propósito da Coleção Reserva Literária. Navios Iluminados é um belo exemplo de concretização desse propósito.

Clique aqui para ler artigo de Francisco Costa, editor de Artigos do Jornal da USP, sobre a Coleção Reserva Literária.

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