Museu do Ipiranga é ocupado por mulheres historicamente silenciadas

Espetáculo “Matriarcado de Pindorama” reconta a história do Brasil do ponto de vista do protagonismo feminino

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Ouça no link acima entrevista da diretora e atriz Viviane Dias sobre o espetáculo Matriarcado de Pindorama, transmitida no dia 19 de março de 2019 no programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz).

Através do teatro, da dança, da música, das artes visuais e da literatura, Matriarcado de Pindorama destaca brasileiras que foram ignoradas ao longo da história – Foto: Tati Wexler / Divulgação

 Desde que, neste ano, a Estação Primeira de Mangueira desfilou no Carnaval carioca, quando desconstruiu a imagem dos heróis históricos tradicionais e apresentou uma narrativa alternativa sobre o Brasil, essa discussão se tornou mais recorrente no cotidiano. Com linha temática semelhante, o espetáculo Matriarcado de Pindorama se aprofunda ainda mais na ideia, e se propõe a recontar a história nacional por meio das vozes de mulheres que a “história oficial” silenciou.

“Ver o desfile da Mangueira surgir com o mesmo tema que já estávamos propondo é muito interessante porque mostra como isso é uma demanda coletiva. Ela é maior, está no inconsciente da nossa terra, é necessário hoje tocar nesse assunto. É uma questão para a saúde do Brasil podermos olhar para essa história que era contada sobre o País e poder alargar essas narrativas”, afirma Viviane Dias, dramaturga e co-diretora do espetáculo.

O Matriarcado de Pindorama está em cartaz no Museu do Ipiranga da USP durante todos os finais de semana de março, e compõe a Ocupação Museu do Ipiranga, projeto criado graças a uma parceria estabelecida em 2017 entre a USP – que gere o Museu – com o Sesc Ipiranga. O objetivo do projeto é levar a programação do Sesc, pautada por discussões sobre identidade e diversidade cultural, para dentro das dependências do Museu do Ipiranga, que atualmente está em processo de restauração e modernização.

O Matriarcado de Pindorama foi concebido pela Companhia Estelar de Teatro – Foto: Tati Wexler / Divulgação

O espetáculo já existe desde o ano passado, quando era performado na sede da própria Companhia Estelar de Teatro, responsável pela obra. No entanto, para levá-lo ao museu, foi necessária certa reformulação, tanto pelo fato de agora a apresentação ser ao ar livre quanto pela possibilidade que surge de dialogar com o acervo do local.

“Um exemplo do diálogo que estabelecemos com o acervo ali posto é o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo. O quadro é uma supremacia masculina tremenda, e essas são as representações que a gente estuda no colégio. Quando olhamos mais a fundo descobre-se que inúmeras mulheres foram fundamentais na luta contra a colonização. Uma delas é Bárbara de Alencar, representada na peça”, diz Viviane.

Considerada a primeira presa política do Brasil, Bárbara de Alencar (1760-1832) foi uma figura central na luta do movimento emancipacionista de 1817 conhecido como Revolução Pernambucana. Bárbara era avó do escritor José de Alencar. O espetáculo porém não se prende à época da colonização, mas avança até mulheres mais recentes, como Marielle Franco e Niède Guidon. Esta chegou a trabalhar no Museu do Ipiranga, e foi responsável por uma das maiores descobertas científicas do mundo. Graças à sua pesquisa na Serra da Capivara, hoje se tem registro de presença humana na América que data de até 58 mil anos, a mais antiga evidência já encontrada.

“Mesmo depois que ela já tinha laudos dos maiores laboratórios europeus validando sua teoria, a comunidade científica do País demorou para aceitar. Se fosse um homem que tivesse chegado às mesmas conclusões, como seria?”, questiona Viviane.

“Matriarcado de Pindorama” está em cartaz até o dia 31 de março, todos os sábados e domingos, às 15 horas, no Museu do Ipiranga (Parque Independência,  Avenida Nazaré, s/nº, Ipiranga, em São Paulo). Entrada grátis. Retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria do Sesc Ipiranga. Mais informações neste link.
Em abril, o espetáculo volta a ser exibido aos finais de semana na sede da Cia. Estelar de Teatro (Rua Treze de Maio, 120, Bixiga, em São Paulo).

 

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