Museu de arte moderna mostra o Brasil “Sob as Cinzas, Brasa”

A 37ª edição de Panorama da Arte Brasileira questiona o passado colonial através de obras de 26 artistas

Eu Não Sou Daqui (2014), de Eneida Sanches e Tracy Collins - Foto: Divulgação

 Publicado: 05/08/2022

Texto: Leila Kiyomura

Arte: Adrielly Kilryann

O movimento para reconstituir a história do Brasil, desconstruir paradigmas como o heroísmo dos bandeirantes e tentar mostrar a real face do ser brasileiro está acendendo o olhar dos visitantes do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. São 26 artistas e grupos de diferentes gerações que estabelecem uma conexão com o cotidiano político, social e ambiental para apresentar a 37ª edição da exposição Panorama da Arte Brasileira.

O tema Sob as Cinzas, Brasa instiga a reflexão sobre o racismo, a vida e a morte dos indígenas e a vala aberta da desigualdade social. A curadoria é integrada pelos pesquisadores, historiadores e críticos de arte Claudinei Roberto da Silva, Vanessa Davidson, Cristiana Tejo e Cauê Alves.

Ao entrar, o público já é recepcionado com uma obra de Giselle Beiguelman, artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. A obra Meio Monumento é uma releitura da estátua do bandeirante Borba Gato (1649-1718), feita em encaixes de madeira clara, cortada ao meio e deitada no chão. Interessante lembrar que a estátua de Borba Gato instalada em Santo Amaro, na zona sul paulistana, referência para o trabalho da artista, foi incendiada em 2021 e por pouco não virou cinzas. Beiguelman contou com dois parceiros da FAU: o arquiteto e doutorando Felipe Abud e o professor Renato Cymbalista. O mais curioso é que a obra é um convite para as crianças e adultos se sentarem nela. “Ué, pensei que fosse um banco para descansar”, diz Carlos Moreira, de 10 anos, retirando sua mochila de cima da peça. “É o Borba Gato que conheci nas aulas de história? Só olhando bem é que vejo o bandeirante.”

Beiguelman explica: “A obra funciona como uma plataforma, busca pensar novos usos para o patrimônio, rompendo com as cadeias de significado já assentadas”.

A mostra 37º Panorama da Arte Brasileira aproveita duas efemérides, o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, para refletir sobre o legado colonial

"Meio Monumento" (2022), de Giselle Beiguelman - Foto: Divulgação

A cenografia da mostra tensiona como se fosse a cidade ou o clima do próprio País. O mural da entrada principal é vermelho, uma cor que está em todo o teto. As obras conversam no espaço, mas, entre elas, há uma distância que insinua o vazio. 

O 37º Panorama da Arte Brasileira, com o título Sob as Cinzas, Brasa aproveita duas efemérides, o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, para refletir sobre o legado colonial, as heranças modernistas presentes na arte contemporânea e problematizar, questionar esse Brasil colônia que se forma”, explica o curador-chefe, Cauê Alves, mestre e doutor em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “A ideia é passar um panorama da arte brasileira levando em conta não apenas questões regionais, mas as diversidades étnico-raciais e de gênero, apresentando os artistas de formação universitária mas também os informais, que se dedicaram à arte nas ruas, que vieram da pichação, do grafite.”

A equipe de curadores buscou valorizar a dimensão pedagógica da arte e prospecta rupturas estruturais. Ainda em um mundo pandêmico, a exposição propõe investigar como os artistas enraizados no Brasil têm enfrentado os múltiplos problemas causados pelo modelo de desenvolvimento adotado nos últimos séculos.

Esta edição enfatiza as pesquisas que resultam em questionamentos e possíveis soluções artísticas surgidas do enfrentamento de um cenário onde a barbárie está manifestada de diversas formas”

Foto: Cecília Bastos

Independência e Morte (2022), de Jaime Lauriano - Foto: Cecília Bastos

Com a obra Independência e Morte, o pintor paulistano Jaime Lauriano faz uma referência ao célebre Grito da Independência (1888), quadro de Pedro Américo que é um dos destaques do Museu Paulista da USP. “É uma provocação”, sintetiza o artista. “Essa obra é uma releitura da tela, porém lembrando os crimes ambientais.” Sua produção procura revelar traumas históricos relegados ao passado, aos arquivos confinados, em uma proposta de revisão e reelaboração coletiva da história.

Diferente da tela de Pedro Américo, a obra que o público vê não tem nenhum personagem. Os  soldados são de chumbo e estão fora da cena, acima da tela. A paisagem é um lamaçal, lembrando as tragédias de Brumadinho e Mariana. A tela de Lauriano é uma crítica ao governo atual. Sobre o lamaçal está um adesivo com o lembrete “Pra boiada passar”, numa alusão à frase “Passar a boiada”, do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, quando se referia, em abril de 2020, à importância de afrouxar a legislação de proteção ambiental. 

Esta edição enfatiza as pesquisas que resultam em questionamentos e possíveis soluções artísticas surgidas do enfrentamento de um cenário onde a barbárie está manifestada de diversas formas”, comenta Cauê Alves. “Ideais de civilização se atritam na busca da dimensão plural sobre as questões trazidas à tona a partir de obras que se relacionam tanto pela condição comum desse cenário quanto por uma diversidade de perspectivas.” 

A arte das ruas, presente no cotidiano da cidade, também está em Panorama. Com a sua instalação de luzes vermelhas que avisam “Danger” (“perigo”, em inglês), o artista paulistano No Martins passa o seu recado. O painel luminoso fica em frente à parede envidraçada do museu e pode ser visto pelos que estão fora do espaço, passeando pelo parque ao redor. 

A visitante Elana Fingueman observa as obras com muito interesse. Conta que é jornalista também, nasceu na África do Sul, mas mora hoje em Israel. Elogia a mostra, com o impacto do tema e a diversidade das obras. “A questão das queimadas presente na arte deste espaço é emocionante. Há três anos, presenciei do avião as queimadas na Amazônia. Muito triste. Mas eu acredito que a arte é uma esperança, leva as pessoas a questionarem.”

É essa esperança que se vê nos desenhos de Marcelo D’Salete que estão logo na entrada de Panorama. Ele é mestre em História da Arte pela USP e também professor da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP, além de ilustrador de livros infantis, pesquisador de arte e história afro-brasileira e quadrinhista reconhecido internacionalmente. “Seu trabalho recebe a influência da fotografia de cinema expressionista e do realismo italiano”, explica o curador e também artista Claudinei Roberto da Silva, graduado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Na exposição estão presentes desenhos originalmente realizados para as sagas Noite Luz e Encruzilhada. Ele elabora, em chave poética e ácida, a realidade a que estão submetidos negros e negras nas periferias das nossas cidades.”

O arquiteto Igor Tatagiba e o estudante Alexandre Russo, da Faculdade de Direito da USP, visitavam o MAM pela primeira vez para ver a exposição. “Somos de Rondônia e estamos admirados com a mostra. É um grande alerta, desperta a consciência para a realidade do Brasil.”

Nas quatro telas do paraibano Sérgio Lucena estão as paisagens de cores que vêm tornando a sua arte conhecida em todo o mundo. Elas habitam o espaço com a sua mensagem sensível nas camadas sobrepostas de tintas. Os objetos pontiagudos que emergem do vermelho, azul e branco sugerem histórias. Infinitas lutas. Sob as cinzas, brasa.

A exposição 37º Panorama da Arte Brasileira – Sob as Cinzas, Brasa fica em cartaz até 15 de janeiro de 2023, de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n, portões 1 e 3, Parque Ibirapuera, em São Paulo, com entrada até as 17h30). Ingresso: R$25,00 (inteira). Grátis aos domingos. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 5085-1300.


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