Museu de Arte Contemporânea apresenta a gravura moderna

Novas técnicas e métodos experimentais são destaques de “Atelier 17 e a Gravura Moderna nas Américas”

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=230893
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Montagem da exposição Atelier 17 e a Gravura Moderna nas Américas, que reúne obras realizadas entre 1910 e 1960, período marcado por uma onda de inovação e experimentação na gravura – Foto: USP Imagens/Cecília Bastos

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O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, em parceria inédita com a Terra Foundation for American Art (Estados Unidos), inaugura, neste sábado, dia 23 de março, a exposição Atelier 17 e a Gravura Moderna nas Américas, reunindo 56 obras em gravura do MAC e de três instituições norte-americanas – a própria Terra Foundation, o Brooklyn Museum e o Art Institute of Chicago. Realizadas entre 1910 e 1960, período marcado por uma onda de inovação e experimentação na gravura, as obras ilustram as várias possibilidades técnicas e visuais, métodos, processos e materiais do campo expandido da gravura moderna.

O Atelier 17 foi um estúdio coletivo fundado pelo britânico Stanley William Hayter, que, em 1927, se estabeleceu em Paris e, em 1940, após a invasão da França pelos nazistas alemães, se mudou para Nova York. O estúdio tornou-se muito influente e tinha uma estrutura não convencional, trocando a relação mestre-aluno por um espaço de experimentação de novas técnicas e métodos, em um ambiente de colaboração entre artistas experientes e novos artistas. O Atelier 17 configurou-se como um centro para artistas com diferentes formações e de diversos países, como França, Itália, Inglaterra, Argentina e Brasil e, longe de promover a uniformidade, queria despertar o espírito criativo e a produção pessoal.

A ideia da mostra partiu da pesquisa de dissertação de mestrado de Carolina Rossetti de Toledo – atualmente doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte do MAC -, que assina a curadoria ao lado da professora Ana Gonçalves Magalhães, vice-diretora do MAC, e de Peter John Brownlee, da Terra Foundation of American Art. Pela primeira vez, são apresentadas, em seu conjunto, as 25 gravuras norte-americanas da coleção do MAC, originárias de uma doação, em 1951, feita por Nelson Rockefeller ao antigo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), e de uma segunda doação, realizada em 1956 pelo colecionador norte-americano Lessing Rosenwald. “É a primeira vez que ela é entendida como conjunto e, efetivamente, há obras que nunca foram expostas”, informa a vice-diretora do MAC.

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Conferência do estado de conservação das obras durante a montagem da exposição Atelier 17 e a Gravura Moderna nas Américas – Foto: USP Imagens/Cecília Bastos

.São gravuras modernas norte-americanas do início do século 20, expostas ao lado de obras brasileiras, todos de artistas que frequentaram o Atelier 17. A pesquisa de mestrado evidencia que as gravuras doadas vieram de uma mostra itinerante sobre a nova gravura norte-americana, com foco no Atelier 17, que percorreu várias capitais da América do Sul e, quando chegou a São Paulo, foi realizada no MAM. Segundo a vice-diretora do MAC, a então mestranda Carolina Rossetti de Toledo percebeu, durante a análise, que o conjunto de obras não só enfocava essa nova experimentação da gravura dos Estados Unidos que tinham relação com Atelier 17 como praticamente todos os artistas ali contemplados vinham do Atelier 17.

Stanley William Hayter
Londres, England, 1901 – Paris, France, 1988
Tarantelle (Tarantela), 1943
verniz mole e buril em cores sobre papel (tiragem: 27/50)
Coleção MAC USP
© Hayter, Stanley William / AUTVIS, Brasil, 2019
Foto: Ding Musa
Louise Nevelson
Pereyaslav-Khmelnytskyi, Ucrânia, 1899 – New York, New York, USA, 1988
The Ancient Garden, 1952-54
água-forte s/ papel
Brooklyn Museum
© Louise Nevelson / AUTVIS, Brasil, 2019
Geraldo de Barros 
Chavantes, SP, Brasil, 1923 – São Paulo, SP, Brasil, 1998
Abstração, 1951
água-tinta e água-forte sobre papel
Coleção MAC

Como conta Ana Magalhães, em Nova York o Atelier 17 teve um papel fundamental para difundir a experimentação na gravura, além de ter sido um importante centro de formação para os jovens expressionistas abstratos norte-americanos. Passaram por lá artistas como John Ferren, Jackson Pollock, Louise Nevelson, Minna Citron, Sue Fuller e Ann Ryan, atraindo ainda a atenção de artistas brasileiros, como Geraldo de Barros, Livio Abramo e Teresa D’Amico, todos presentes na exposição. “É muito bonita a história do Atelier 17, que, além de ser esse centro de experimentação, muito próprio da experiência moderna em arte, era um centro de recepção de artistas imigrantes. O próprio Hayter era um imigrante nos Estados Unidos naquele momento”, comenta.

Nota-se também forte presença feminina no Atelier 17, tema de um minicurso que acontece em abril, paralelamente à mostra (leia texto abaixo). “Por conta dessa estrutura não hierarquizada, há muitas mulheres artistas”, afirma a vice-diretora. Segundo ela, ainda existem evidências de que Fayga Ostrower tenha frequentado o ateliê, embora não tenha sido aluna de Hayter. “Às vezes os artistas iam ao ateliê para fazer uso dos equipamentos ou verificar as novas técnicas de gravura”, relata. “Também recebemos no final do ano passado, via Pinacoteca do Estado, um conjunto de 40 obras da artista Lucy Citti Ferreira, que foi aluna de Lasar Segall, e descobrimos dentro dele uma gravura de Hayter, que estará na exposição”, diz a vice-diretora, informando que ainda é preciso investigar se há uma relação entre a artista e o Atelier 17.

Destaques e atividades paralelas

A mostra tem dois núcleos principais. “O primeiro traz um conjunto de empréstimos importantes, principalmente da Terra Foundation, mostrando o que era a experiência da gravura nos Estados Unidos antes da chegada de Hayter, e, no segundo momento, o que é a experiência da gravura depois da chegada de Hayter, com a presença de algumas obras brasileiras”, afirma a curadora Ana Gonçalves Magalhães.

O destaque fica para os trabalhos do próprio Hayter, como sua obra-prima Tarantela, além de Cinco Personagens, com duas cópias da mesma gravura, na qual o público vai poder comparar as cópias e ver como funcionava essa técnica e também como era realizado o processo de experimentação no Atelier 17. Também está na mostra Chronos, de Hayter, que traz, além da obra, a matriz em metal, ambas vindas do Art Institut of Chicago, e um exemplar do livro New Ways of Gravure, segundo a curadora uma espécie de grande manual sobre a experimentação na gravura e bastante difundido entre os gravadores brasileiros.

Minna Citron 
Newark, New Jersey, USA, 1896 – New York, USA, 1991
Marine (Marinha), 1948
água-tinta e verniz mole sobre papel
Coleção MAC
Minna Citron 
Newark, New Jersey, USA, 1896 – New York, USA, 1991
Squid under Pier (Lula sob Pier), 1948
água-forte em cores sobre papel
Coleção MAC

No âmbito da exposição, o MAC e a Terra Foundation promovem ainda atividades paralelas, incluindo conferência, minicurso e lançamento de uma publicação bilíngue (português/inglês). A conferência internacional Atelier 17 – a Gravura no Brasil e nos Estados Unidos: 1900 a 1950 será realizada nos dias 11 e 12 de abril, reunindo especialistas nacionais e internacionais que vão discutir questões relativas à gravura moderna norte-americana da primeira metade do século 20 e o incentivo à produção e circulação dessa arte. O evento é aberto ao público em geral, mas especialmente aos alunos de graduação e de pós-graduação, pesquisadores, artistas, curadores e outros profissionais da área interessados no tema.

No período de 15 a 18 de abril, acontece o minicurso As Mulheres do Atelier 17, com a curadora independente norte-americana Christina Weyl (ministrado em inglês), focando nas experiências das mulheres artistas e como o ateliê propiciou a formação e a apresentação dessas mulheres no contexto das galerias e museus. Serão investigadas cerca de cem mulheres artistas que integraram o Atelier 17 durante suas estadias em Nova York, entre 1940 e 1955, e o impacto sobre o desenvolvimento criativo e suas trajetórias.

Geraldo de Barros
Chavantes, SP, Brasil, 1923 – São Paulo, SP, Brasil, 1998
Entre Acte, 1950/51
monotipia sobre papel (colorida a mão)
Coleção MAC
Boris Margo
Volotshyk, Ucrânia, 1902 – Hyannis, Massachusetts, USA, 1995
O Mar (The Sea), 1948-49
cellocut em cores sobre papeltiragem: 1/10 (print edition)
Coleção MAC

Tanto a exposição como as atividades paralelas examinam a intrincada rede de intercâmbio internacional entre artistas, curadores, colecionadores e públicos no Brasil e nos Estados Unidos, mostrando como esse aspecto de experimentação da gravura reverbera em outros meios e oferece perspectivas contemporâneas. Além disso, essa é a primeira de muitas colaborações entre a Terra Foundation for American Art e instituições brasileiras. Segundo Ana Magalhães, a instituição americana pretende expandir as relações entre Estados Unidos e Brasil, criando, inclusive, uma cátedra de estudos sobre as artes das Américas. “Ela está em contato com três universidades paulistas, Unifesp, Unicamp e a própria USP, e, caso a escolha recaia sobre a Universidade de São Paulo, a sede ficará instalada no MAC”, informa.

A exposição Atelier 17 e a Gravura Moderna nas Américas será inaugurada neste sábado, dia 23 de março, às 11 horas, no Museu de Arte Contemporânea da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). A temporada vai até o dia 2 de junho, com visitação de terça a domingo, das 10 às 21 horas, e entrada gratuita. As inscrições para o seminário internacional custam R$ 50,00 e o minicurso é gratuito. Mais informações pelo telefone (11) 2648-0254 e no site

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