Mostra no Maria Antonia traz equilíbrio entre poesia e militância

Exposição mostra trabalhos que contemplam os 20 anos de carreira da artista plástica Ana Teixeira

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Obra Para Que Algo Aconteça – Instruções – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“É tarde para falar que o corpo é nosso, para exigir os mesmos salários e direitos, é tarde para tudo isso. Mas ainda temos tempo e vamos continuar na luta”, afirma a artista plástica Ana Teixeira, explicando o título de sua mais nova exposição, É Tarde, Mas Ainda Temos Tempo. Segundo a artista, a ideia do nome surgiu antes mesmo de ela começar a planejar a mostra, que foi inaugurada no dia 23 de agosto e fica em cartaz até 29 de outubro, no Centro Universitário Maria Antonia da USP, em São Paulo.

Cachecol confeccionado durante a ação Escuto Histórias de Amor – Foto: Aline Borghesan

Concentrada numa única sala, a exposição utiliza o clássico preto e branco em quase tudo. Alguns contrastes aparecem aqui e ali, como no vermelho intenso da tira de tricô em Escuto Histórias de Amor e no azul-esverdeado das fotos de Para Fazer-se Ar, Para Fazer-se Mar. Além disso, algumas frases na parede acompanham o visitante pela escada que leva até a sala. Essas frases compõem o trabalho Linha de Sonhos.

A mostra segue o mesmo caminho do mais recente livro de Ana, Para que Algo Aconteça, publicado em 2018. Ambos traçam um panorama dos 20 anos de atuação da artista. Em É Tarde, Mas Ainda Temos Tempo, ela apresenta uma releitura de várias de suas obras. Algumas delas precisaram ser realocadas de seu ambiente original ou adaptadas para outros formatos.

É o caso do filme-relato Empresto Meus Olhos aos Seus, de 2019, que reproduz uma performance da artista realizada em 2007, e da obra Em Contato, que utiliza as boias infláveis que compuseram uma instalação feita em 2014, numa piscina.

A artista também apresenta obras inéditas, como Cala a Boca Já Morreu, que inclui uma série de desenhos, em tamanho ampliado, de mulheres entrevistadas por ela. Segundo Ana Teixeira, o objetivo dessa obra é dar voz a quem normalmente não é ouvido. “Como mulher branca, estudada e de classe média, eu tenho um espaço para falar que várias outras mulheres não têm. Nesse trabalho, eu quis dividir esse lugar com elas.”

Esse caráter militante é defendido por Ana como uma das vertentes de sua arte. “As pessoas costumam ver esses trabalhos como muito poéticos, mas eles são mais do que isso, são um ato político.”

Outro aspecto característico das obras é a interação com o público. Isso fica claro na exposição, em que os visitantes são convidados pela artista a vivenciar o espaço de diversas maneiras.

Painel de Cala a Boca Já Morreu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ainda sobre o sentido de troca com o público, Ana diz: “Sou alimentada por literatura, cinema e gente”. Por isso a grande importância, para ela, de promover essa conexão entre o visitante, a obra e o artista. Para que Algo Aconteça – Instruções é um exemplo disso, pois apresenta algumas das ações da artista quase em formato de receita, propondo às pessoas que vivenciem essas performances também do ponto de vista da autora.

Essa experiência é potencializada pela utilização de diversos suportes, como desenho, escrita, áudio e vídeo. Para Ana, “na arte contemporânea as técnicas estão a serviço das ideias e a exposição reflete muito bem isso. Nesse sentido ela é bem plural”. Em Falta-me Qualquer Coisa Que Seja Feita de Vento, por exemplo, um cartaz vai da parede ao chão e carrega o título da obra. Um fone de ouvido pendurado ao seu lado transmite a gravação de um texto apresentado como performance da artista em 2010.

A curadora da exposição, Galciani Neves, sintetiza o trabalho da artista em seu texto de abertura da mostra. “Ana vivencia a polifonia da escuta, guiada pelo sensível, confiando na organicidade da troca. É nesse contexto em que ela atua e também no contexto da supressão de tempo, seja para o encontro, para a convivência sem maiores pretensões, para a militância”, escreve.

Parte do trabalho Linha de Sonhos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Galciani destaca a importância que a exposição ganha ao ser realizada num prédio marcado pela resistência ao autoritarismo, como é o caso do edifício do Centro Universitário Maria Antonia, que nos anos 60 sediou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e foi palco da chamada “Batalha da Maria Antonia” – conflito entre estudantes da USP e da Universidade Mackenzie ocorrido em 2 de outubro de 1968, considerado um dos motivos para o enrijecimento do regime militar.

“Em 1993, o prédio reabriu com a tarefa de ser arena de discussões sobre arte, cultura e direitos humanos, deixando latentes os tempos de convulsão como os de agora”, escreve a curadora, insistindo na urgência de “manter viva a história de locais como esse” e fazê-los dialogar com produções como as de Ana Teixeira.

Boias do trabalho Em contato – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A exposição É Tarde, Mas Ainda Temos Tempo fica em cartaz até 29 de outubro, de terça-feira a domingo e feriados, das 10 às 18 horas, no Centro Universitário Maria Antonia da USP (Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque, em São Paulo). Entrada grátis. 

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