Morre Boris Schnaiderman, pioneiro da difusão da cultura russa no Brasil

Amigos e discípulos destacam as contribuições do professor da USP, que morreu no dia 18, aos 99 anos, para a cultura e a educação no Brasil

Por - Editorias: Cultura
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20160520_00_boris2Morreu na noite de 18 de maio, quarta-feira, o professor Boris Schnaiderman, prestes a completar seu centenário. O intelectual, escritor e tradutor da língua russa estava internado no Hospital Samaritano, em São Paulo, após a realização de uma cirurgia no fêmur e o agravamento do caso hospitalar, ao contrair pneumonia.  Formado em Agronomia pela Escola de Agronomia do Rio, o professor aposentado ministrou aulas no curso de Língua e Literatura Russa da então chamada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP – hoje Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) –, o qual ele mesmo criou. Seu corpo foi velado na manhã do dia 19, às 14h no Centro Universitário Maria Antonia (Ceuma) da USP, na Vila Buarque, local que abrigava a antiga FFCL.

Nascido na cidade de Uman, na Ucrânia, em 1917 e radicado no Brasil na sua infância – naturalizou-se em 1941 –, Schnaiderman lutou na Segunda Guerra Mundial pela Força Expedicionária Brasileira (FAB), episódio que lhe rendeu um livro, Guerra em Surdina. Mais recentemente, publicou livros como Tradução – Ato Desmedido, sobre o ofício de traduzir, e Caderno Italiano, sobre sua experiência no campo de batalha.

Foi uma figura pioneira no que se refere à disseminação da cultura russa no Brasil, uma vez que foi o responsável pela tradução de grandes clássicos da língua russa para o português. Traduzia do original, numa época em que autores russos costumavam ser traduzidos do francês ou do espanhol, e assinava sob o pseudônimo de Boris Solomonov. Sua primeira tradução data de 1944, e a partir daí foi responsável por títulos de autores como Dostoiévski, Tolstói, Púshkin, Thekhov, Górki, Maiakovski, Pasternak, Tchekhov e Isaac Babel.

Durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), Schnaiderman foi detido em plena sala de aula – no mesmo local em que foi velado – devido ao seu trabalho com a cultura russa, o que o levou a ser acusado de envolvimento com o comunismo (episódio contado no artigo que escreveu para o livro Um mundo Coberto de Jovens, da Editora Com Arte). Seu trabalho foi reconhecido com o recebimento de importantes premiações, como o Prêmio de Jabuti de Literatura, em 1983, o Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2003, e a Medalha Púchkin, dada pelo governo russo em 2007 pelo seu trabalho em difundir a cultura russa em um país estrangeiro.

Contatada pelo Jornal da USP, a professora Aurora Bernardini – docente da área de Língua Russa da FFLCH e próxima ao professor Boris Schnaiderman –, abalada porque acabara de voltar do velório do mestre e amigo, não quis se pronunciar. No entanto, cedeu um discurso que ela pronunciou na cerimônia em que Schnaiderman recebeu o título de Professor Emérito da USP, em 2001. No discurso, a professora, além de ressaltar a sua coragem moral e extrema calma, descreveu o amigo como “crítico, atento, cuidadoso, refratário às paixões súbitas que levam à adesão ou rejeição imediatas. Sabe estabelecer relações e discutir com os autores, e, uma vez feito o balanço, reconhecer o que eles têm de mais ou menos válido”.

Jacó Guinsburg, presidente da Editora Perspectiva (responsável pela publicação de várias traduções do professor) e amigo próximo de Schnaiderman, lamentou a morte do professor. “É uma amigo de 50 anos que perco. E, mais do que isso, é uma perda para o mundo universitário e cultural. Ele trouxe para o leitor brasileiro uma relação de proximidade com a literatura russa de uma maneira que ninguém houvera feito antes. Era um homem de integridade, coerente com suas ideias e era firme na defesa dos princípios democráticos e culturais”, afirma Guinsburg.

A professora Arlete Cavaliere, também da FFLCH, enfatiza a contribuição acadêmica de Schnaiderman: “É necessário destacar a importância do professor Boris na luta para a existência, e mesmo sobrevivência, em tempos muito difíceis de nossa história política, não apenas do curso de Russo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, mas também do Departamento de Letras Orientais, onde atuou como professor e pesquisador, departamento este que muito se orgulha de tê-lo como seu Professor Emérito”. Arlete ainda destacou que “suas atividades de docência e pesquisa, as de crítico literário, ensaísta e tradutor renomado e ainda a figura humana excepcional, enfim, a excelência de uma carreira acadêmica exemplar constitui uma referência obrigatória para toda uma nova geração de eslavistas criada pelo grande mestre, que ele sempre foi”.

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