“Mas será o Benedito?” Fraseologia ajuda a combater fake news

Professor da USP contesta as supostas origens de expressões populares, aceitas sem nenhum espírito crítico

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A expressão “Mas será o Benedito?” tem origem mais antiga do que a nomeação do interventor Benedito Valadares em Minas Gerais (acima, o interventor entre Getúlio Vargas e o então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, na inauguração da Avenida do Contorno, em 1940) – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

A expressão “Mas será o Benedito?” não tem origem na inesperada nomeação de Benedito Valadares como interventor de Minas Gerais, feita pelo então presidente Getúlio Vargas em dezembro de 1933, como supõem pesquisadores em livros sobre fraseologia e declaram acadêmicos em programas de televisão. Ela já era cantada numa marchinha de carnaval em 1931 – Todas as meninas vão perguntar: Será o Benedicto? -, que caiu na boca do povo, e foi até título de uma notícia publicada no Diário da Tarde, em 3 de março de 1933, sobre a compra de cracks do Botafogo pelo Fluminense, entre eles um jogador chamado Benedicto.

Essa e outras descobertas estão num artigo do professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação (FE) da USP, que acaba de ser publicado na revista eletrônica Convenit Internacional, uma das publicações do Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente (Cemoroc) da FE, dirigido por Lauand. O professor destaca que na área da fraseologia – uma de suas especialidades – se torna mais evidente a predisposição do povo brasileiro em aceitar fake news. “No afã de atinar com o sentido originário de uma expressão que o povo repete, difundem-se com preocupante frequência – com ares de certeza científica – explicações estapafúrdias”, escreve o professor. “É muito importante que os jovens desenvolvam mecanismos de identificação dessas solenes lorotas e delírios fantasiosos desprovidos do mais elementar espírito crítico.” Lauand é autor também de um Minidicionário de Gírias e Expressões Brasileiras, já disponível em outra revista do Cemoroc, a International Studies on Law and Education (clique aqui).

Entre as “lorotas e delírios” citados por Lauand está uma expressão muito popular: o “conto do vigário”. De acordo com uma interpretação difundida em sites famosos – entre eles o Brasil Escola, do Uol, e o Terra -, essa história teria ocorrido no século 18 em Ouro Preto (MG), onde duas paróquias, a de Pilar e a da Conceição, disputavam uma mesma imagem de Nossa Senhora. O esperto vigário da igreja de Pilar sugeriu que a imagem fosse amarrada num burro e este, colocado entre as duas igrejas. Aquela para onde o animal se dirigisse ficaria com o objeto tão desejado. Acontece que o burro pertencia ao vigário de Pilar e, naturalmente, foi para lá que ele andou.

“Conto do vigário”: a história da disputa de uma imagem de Nossa Senhora por duas igrejas mineiras é inverossímil. Acima, cena do filme O Conto do Vigário, de Federico Fellini – Foto: Divulgação

Os sites, artigos e até uma tese de doutorado que divulgam essa versão nunca citam as fontes documentais e bibliográficas que confirmariam tal narrativa “inverossímil”, como diz Lauand. De acordo com ele, a expressão “conto do vigário” é registrada não no século 18, mas só em 1885. Desse ano até 1889, ela é citada cerca de 300 vezes na imprensa nacional e, na década seguinte, aparece mais de mil vezes. “Será que a história do burro do vigário não é apócrifa e não passa de uma vigarice?”, questiona o professor, que, para investigar a origem de expressões populares, recorre a bancos de dados digitais como os da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e do jornal O Estado de S. Paulo.

“Casa da mãe Joana” é outra expressão cuja origem é questionada por Lauand. De acordo com a versão clássica do folclorista Câmara Cascudo (1898-1986), Joana era rainha de Nápoles e condessa da Provença, que em 1346 precisou se refugiar em Avignon. No ano seguinte ela regulamentou os bordéis da cidade, um deles instalado no seu próprio paço – termo que, não sendo popular no Brasil, foi substituído por “casa”. Lauand não acha essa história plausível. Ele notou que a expressão aparece nos jornais, com o sentido claro de “bagunça”, somente em 1878, num texto em que o jornal A Revolução cita várias províncias brasileiras (hoje Estados) e conclui: “Mas o Rio é a mãe Joana”. “Será que a expressão procede mesmo da rainha de Nápoles ou a ‘Joana’ é simplesmente uma referência arbitrária, como a Geni do Chico Buarque?”, sugere Lauand.

“Casa da Mãe Joana” provavelmente não se refere à rainha de Nápoles que mantinha um prostíbulo em sua própria casa – Fotomontagem/Jornal da USP

Menos plausíveis ainda, para o professor, são as supostas origens das expressões “Inês é morta”, “larápio” e “Teresa”, esta usada para se referir à corda usada por prisioneiros para fugir da prisão.

Inês teria sido a amante do rei de Portugal D. Pedro, no século 14, que foi decapitada pelo pai do rei porque representava uma ameaça ao poder na sucessão do trono. Inconformado, D. Pedro teria tirado Inês do túmulo, colocado seu corpo num trono e desfilado com ela “por todas as aldeias de Portugal”. Isso não teve nenhum efeito, porque “Inês é morta”.

Sem nenhuma evidência documental, “larápio” é divulgada como uma expressão que teria surgido a partir do nome do suposto e nunca citado juiz da Roma antiga Lucius Antonius Rufus Appius, que assinava L. A. R. Appius e tinha o costume de vender sentenças a quem pagasse mais.

“Larápio”: o suposto juiz corrupto da Roma antiga L.A.R. Appius jamais foi citado ao longo da história – Ilustração: Wikipedia Commons

Já “Teresa” é digna das típicas lendas e crendices medievais: quando o místico espanhol São João da Cruz (1542-1591) estava preso num convento carmelita, eis que lhe surge em visão Santa Teresa de Ávila (1515-1582), que orientou o místico a fazer tiras com o seu cobertor, amarrar umas nas outras e fugir. São João da Cruz obedeceu e escapou da prisão pela corda. Na rua, encontrou um cachorro e, seguindo-o, foi dar no convento de Santa Teresa, que o acolheu.

De forma irônica e divertida, Lauand lembra que alguns pesquisadores que sustentam essas histórias como verdadeiras se baseiam no livro Mas Será o Benedito?, de Mário Prata. Porém, o próprio autor avisa, na introdução da sua obra, que se trata de explicações fantasiosas, pura invenção. “Sempre tive a curiosidade de saber a origem de certas expressões brasileiras. Comecei a pesquisar e descobri que cada autor (e/ou filólogo) dá uma versão diferente para a mesma expressão”, escreve Prata. “Já que a situação era essa, resolvi escrever este livro, dando as minhas ‘versões’.”

“O que prevalece em nossa sociedade – incrivelmente acrítica e pouco dada a cultivar rigor científico – é o se non è vero, è bene trovato, se não é verdadeiro, é uma boa tirada”, escreve Lauand. “Infelizmente o precioso campo das origens das expressões é objeto de um incrível desprezo pelos mais mínimos critérios de seriedade científica. E não se trata só de ‘avalizados’ sites, mas também, por vezes, de prestigiosos professores e acadêmicos.”

O artigo “Será o Benedito?”, “Conto do Vigário” etc. – Desmascarando Falsas Explicações sobre a Origem de Expressões Populares, do professor da Faculdade de Educação da USP Jean Lauand, está disponível através deste link.

 

 

 

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