Livros dos séculos 18 e 19 ajudam a refletir sobre epidemias

Biblioteca Brasiliana da USP promove exposição virtual de obras antigas que tratam de epidemias no Brasil

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No presente como no passado, epidemias sempre disseminam temor entre a população e são acompanhadas de efeitos sociais e econômicos desastrosos, como o aumento da desigualdade, segundo o curador da exposição Epidemias do Passado, João Marcos Cardoso – Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Publicas

A pandemia de covid-19, que teve início em Wuhan, na China, e se espalhou com velocidade e letalidade inigualáveis, é a maior catástrofe global deste século. Mas não é a primeira vez que a humanidade enfrenta uma situação assim. A história da civilização fornece registros de muitas epidemias que assolaram diferentes povos, no Brasil e no mundo. Com o objetivo não só de apresentar algumas das mais graves epidemias, mas também de mostrar que publicações do passado podem contribuir para reflexões sobre o momento atual, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP promove a exposição virtual Epidemias do Passado. A mostra, que ainda será ampliada, traz inicialmente três obras do acervo da BBM, publicadas nos séculos 18 e 19.

Com curadoria do especialista em pesquisa João Marcos Cardoso, a exposição foi pensada “como uma forma de ampliar a divulgação do acervo digital da BBM neste momento em que o acesso a acervos físicos de bibliotecas, arquivos e museus não é possível”. Além disso, afirma Cardoso, a exposição revela a um público amplo, a partir de documentos históricos e obras literárias, experiências do passado no enfrentamento de epidemias. Segundo ele, as estratégias de enfrentamento vão do recurso à religião aos conhecimentos médico-científicos disponíveis no momento em que uma doença se propaga. “Epidemias têm assolado as populações brasileiras desde o século 16, como mostra o relato de Hans Staden sobre uma doença entre os tupinambás. As populações indígenas, aliás, têm sido desde então uma das mais vulneráveis a surtos epidêmicos”, relata.

Os documentos mostrados na exposição relatam surtos epidêmicos ocorridos no Brasil nos séculos 18 e 19. Um deles é Notícia Verdadeira do Terrível Contágio, um folheto anônimo de oito páginas publicado em 1749, em Lisboa, que aborda a epidemia de sarampo que assolou Belém do Pará entre 1748 e 1749. Outro é Historia e Descripção da Febre Amarella Epidemica Que Grassou no Rio de Janeiro em 1850, de autoria do médico José Pereira Rego (1816-1892), publicado em 1851 pela Typographia de F. de Paula Brito, do Rio de Janeiro. Pereira Rego é o autor do terceiro documento exposto em Epidemias do Passado. Trata-se de Esboço Histórico das Epidemias Que Tem Grassado na Cidade do Rio de Janeiro desde 1830 a 1870, lançado em 1872 pela Typographia Nacional, também do Rio de Janeiro.

Notícia Verdadeira do Terrível Contágio é um breve relato que deixa entrever o total despreparo da população e autoridades para combater o sarampo em Belém no século 18, sendo que nenhum método sanitário foi aplicado e o único recurso foi apelar para a intervenção divina, por meio de preces, procissões, missas e novenas – de acordo com o texto de apresentação da exposição.

Segundo o autor do folheto, “abundavam os sertões em cacau, o mar em peixes, a terra em frutos, e o céu em benignas influências”, mas a partir de 1724 a saúde e o clima da região começaram a degenerar. A situação sanitária melhorou por duas décadas, mas voltou a castigar a região em 1742 e, a partir de outubro de 1748, atingiu um patamar devastador. A causa do surto: canoas cheias de escravos vindas do sertão, isto é, indígenas capturados no interior da floresta. Certo é que a população negra, indígena e mestiça foi quem mais sofreu com a doença, conforme escreve o autor: “Não houve tapuia (termo usado na época para designar indígenas, em geral inimigos dos portugueses, que não falavam a língua tupi), ou quem dele tivesse sangue, que não padecesse a força desse contágio”.

Folheto anônimo do século 18 relata epidemia de sarampo em Belém do Pará entre os anos de 1748 e 1749 – Foto: Acervo digital BBM

A lista de efeitos das mortes é extensa: faltou espaço nos conventos para sepultar os mortos, os alimentos ficaram mais caros e escassos e a população branca, ainda que poupada pela doença, viu seu patrimônio se arruinar “porque toda a riqueza da terra consiste na multidão dos escravos e súditos. Sem os braços de negros e indígenas, foram interrompidos os serviços essenciais da cidade. A certa altura, já não havia mais escravos dispostos a carregar os cadáveres e o odor dos mortos tomou conta da cidade”. O autor do relato estimou em 15 mil o número de mortos, descontados os que pereceram nos sertões impenetráveis – a dimensão da catástrofe pode ser avaliada pela comparação com o número de habitantes da cidade em 1819, 24.500, segundo os viajantes alemães Spix e Martius.

Epidemia de febre em 1850

No final de 1849, o Rio de Janeiro e seus subúrbios enfrentaram a primeira epidemia de grandes proporções ocorrida na cidade – como explica o texto de apresentação da mostra. Capital e principal cidade do Império, o Rio de Janeiro recebia em seu porto embarcações de várias partes do Brasil e do mundo. Uma delas, provavelmente vinda da Bahia no final de 1849, trazia doentes de febre amarela, doença que se alastrou pela cidade no primeiro semestre de 1850. Participante ativo nos esforços de controle da epidemia e de cuidado dos doentes, o médico José Pereira Rego buscou sistematizar as experiências adquiridas na luta contra a febre amarela na sua obra Historia e Descripção da Febre Amarella Epidemica Que Grassou no Rio de Janeiro em 1850.

Em muitos aspectos – ainda de acordo com o texto da mostra -, a evolução da epidemia de febre amarela no primeiro semestre de 1850 guarda semelhanças com a pandemia de covid-19 enfrentada pelo mundo no primeiro semestre de 2020. “É possível notar elementos comuns entre as epidemias de séculos atrás e a do presente. Junto a uma epidemia sempre se dissemina um temor entre a população atingida; as epidemias tendem a ter impacto maior nos setores mais vulneráveis da população, e elas são acompanhadas de efeitos sociais e econômicos: ampliam efeitos da desigualdade, impactam o trabalho, a distribuição de alimentos, a circulação de pessoas”, constata o curador João Marcos Cardoso.

Publicação do médico José Pereira Rego, que participou ativamente dos esforços de controle da epidemia de febre amarela que se espalhou pelo Rio de Janeiro em 1850 – Foto: Acervo digital da BBM

Segundo o relato de Pereira Rego, identificado o foco da doença, as autoridades sanitárias se apressaram em estabelecer uma quarentena obrigatória para os navios vindos do norte do Brasil e criaram um lazareto (estabelecimento para controle sanitário) na Ilha de Bom Jesus, na Baía de Guanabara. Contudo, como está descrito, o número de doentes continuou a aumentar e o sistema hospitalar já não comportava a progressão dos casos – são preparadas, então, novas estruturas para acolher os enfermos e é formada uma comissão de autoridades governamentais e médicas para enfrentar a crise. Havia medidas oficiais de combate à doença – muitos charlatões vendiam soluções de cura – e auxílio às populações mais vulneráveis.

Se há semelhanças entre as epidemias do passado e as do presente, há também grandes diferenças. Estas residem nos conhecimentos e recursos médico-científicos hoje disponíveis. “Em 1850, os médicos e cientistas ainda não tinham ciência da existência de microrganismos, como bactérias e vírus. Tampouco tinham condições de supor que mosquitos podiam ser os transmissores da doença. Portanto, eram enormes as limitações impostas para o conhecimento sobre a propagação da febre amarela, uma doença causada por um vírus que é transmitido aos humanos por algumas espécies de mosquito (no Brasil, o principal é o Aedes aegypti).”

Na época, as causas levantadas por Pereira Rego e seus pares estavam ligadas a fatores climáticos, como temperatura e umidade, à precariedade das condições sanitárias e de higiene, “elementos importantes para a compreensão de surtos epidêmicos, mas que não resolviam a questão central da causalidade, que era atribuída principalmente a miasmas, emanações de matéria orgânica provenientes de charcos e pântanos”, cita o texto.

Ainda assim, o termo vírus já era utilizado em 1850 e Pereira Rego se vale dele, embora em sentido muito diverso do que ele adquiriria a partir do fim do século 19, com o desenvolvimento da microbiologia. Como diz o médico: “Por ventura estará demonstrado que no tifo, na escarlatina, no cólera, na coqueluche e outras moléstias reputadas contagiosas é antes um vírus que um miasma que as produz? Conhece-se também já a diferença essencial que há entre um miasma e um vírus? Cremos que não”.

Os métodos terapêuticos eram outro ponto de fragilidade no combate à febre amarela, e embora Pereira Rego defendesse a eficácia dos tratamentos utilizados por ele e alguns de seus colegas cariocas, é pouco provável que eles tenham surtido grandes efeitos, mostra o texto da exposição. As indicações terapêuticas buscavam “estabelecer e ativar a transpiração, promover as evacuações, e recorrer às emissões sanguíneas gerais e locais com a prudência e cautelas que exigia a natureza do mal”, como escreve o médico. “Em conformidade pois com os princípios acima expostos, logo que os primeiros incômodos se manifestavam, tratava-se de provocar o suor pelos pedilúvios quentes, pelas infusões de borragem, de flores de sabugueiro, de cascas de limão, pelo acetato de amoníaco, pelo acônito, pelas bebidas nitradas dadas com profusão, e pelos banhos de vapor.”

Nas regiões mais centrais do Rio de Janeiro, a doença atingiu seu pico em 15 de março, com mais de 90 mortos em um único dia. Dali em diante, os casos começaram a diminuir até que em junho a epidemia foi considerada superada nas zonas centrais, no mês seguinte nos subúrbios e em setembro nos navios atracados na Baía de Guanabara. “Com os dados que conseguiu coletar, Pereira Rego calculou em 90.658 o número de doentes ao longo da epidemia, dentre os quais teriam morrido 4.160. Infelizmente, esse era apenas o fim de um capítulo, pois epidemias de febre amarela voltariam a assolar a cidade muitas outras vezes ao longo do século 19 e início do século 20.”

Segundo o curador da exposição, em breve outras obras do acervo da BBM farão parte da mostra virtual Epidemias do Passado. A próxima será um conto do escritor João do Rio que aborda uma epidemia de varíola no Rio de Janeiro no começo do século 20.

A exposição virtual Epidemias do Passado, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, pode ser acessada através deste link.

 

 

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