Livro traz cartas trocadas por Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima

Editora da USP publica a correspondência entre o escritor e o crítico literário de 1925 a 1944

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Carta de Alceu Amoroso Lima para Mário de Andrade, de 28 de setembro de 1925, e apontamentos de Alceu Amoroso Lima sobre o livro A Escrava que não é Isaura – Foto: Biblioteca de Alceu Amoroso Lima/CAALL e IEB/USP

“Em março de 1944, Mário de Andrade (1893-1945), escrevendo ao jovem jornalista carioca Moacir Werneck de Castro, refere-se ao tom ríspido da correspondência que desde 1925 vinha trocando com o crítico literário e pensador católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), o Tristão de Ataíde. Entre São Paulo e Rio de Janeiro, circularam ‘cartas por vezes ásperas, duras, ferintes mesmo, de amigos que são inimigos e se combatem’.” A afirmação é do professor Marcos Antonio de Moraes, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, na orelha do livro Correspondência Mário de Andrade & Alceu Amoroso Lima, que acaba de ser lançado pela Editora da USP (Edusp). A obra reúne 56 correspondências, incluindo cartas, bilhetes e telegramas, que foram organizadas pelo professor Leandro Garcia Rodrigues, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Este é o sétimo volume da Coleção Correspondência de Mário de Andrade, editada sempre numa parceria entre a Edusp e o IEB, que conserva o acervo do escritor modernista, constituído por uma biblioteca, arquivo e uma coleção de artes visuais. Os volumes já publicados destacam as cartas trocadas entre Mário e Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral, Henriqueta Lisboa, Luiz Camillo de Oliveira Netto, Newton Freitas e escritores e artistas argentinos.

Mário de Andrade, em São Paulo, em 1929 – Foto: IEB/USP

A correspondência entre Mário e Alceu Amoroso Lima é uma troca epistolar apaixonada pelo debate, marcada pela divergência de ideias, mas sempre com um profundo respeito entre ambos, como diz Marcos de Moraes. “A bem da verdade, em alguns momentos, ambos usam a carta para elogios e admirações recíprocos, especialmente quando Mário vê em Alceu o protótipo do crítico literário ideal ou quando Alceu percebe em Mário o cerne do equilíbrio criativo e estético entre tradição e vanguarda, como ele próprio afirmou várias vezes.” A correspondência durou até dezembro de 1944, pouco tempo antes da morte de Mário de Andrade, ocorrida em fevereiro de 1945. Em memória aos 15 anos da morte de Mário, Alceu Amoroso Lima escreveu um depoimento no qual afirmava que “Mário de Andrade, em suas cartas, tinha alguma coisa de Proust. Sua correspondência era imensa e se perdia em minuciosas explicações que bem demonstram o espírito sempre ocupado e preocupado em captar todos os entretons dos sentimentos e da realidade”.

Para o professor, distinguem-se dois momentos na comunicação entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima. “O primeiro, de 1925 a 1928, coloca em cena o escritor de vanguarda em face do respeitado resenhista d’O Jornal carioca; no segundo, a partir da conversão religiosa do crítico fluminense até 1944, ganha relevo o debate sobre o catolicismo, em seu sentido institucional (a Igreja e suas ações) e pessoal (a fé e suas vicissitudes), fase em que se agudizam divergências entre eles, produzindo uma acabrunhante rarefação nas mensagens, entre 1933 e 1943.” Ele reitera: “A religião, ou pelo menos o discurso religioso, estava envolvido e/ou problematizado na vida literária, nas relações pessoais, na produção intelectual e artística. Por isso a importância dessa correspondência, que se mostra intensa quanto aos debates e especulações a respeito da fé e da religiosidade de ambos – Mário e Alceu, esses dois grandes nomes da cultura brasileira que fizeram diferentes e sintomáticas leituras do Brasil”.

Alceu Amoroso Lima – Foto: Centro Alceu Amoroso Lima Para a Liberdade (CAALL)

São cartas densas, laboratórios de criação, de pensamento e estilística, que tinham como principal assunto a problemática de natureza religiosa e existencial, mas também a crítica literária, as amizades, as desavenças entre pessoas e grupos e até as divergências entre os diferentes projetos da modernidade literária para o Brasil. Uma correspondência que é iniciada pela admiração de Mário pelo crítico literário. “Imensamente lhe agradeço o artigo que escreveu sobre a Escrava. Li reli repensei aproveitei. O que mais me agrada em você é um dom de penetração quase jesuítico. Nunca vi ler tão bem nas entrelinhas”, escreve Mário de Andrade na segunda carta enviada a Alceu Amoroso Lima, em 28 de maio de 1925. E termina com a admiração de Alceu Amoroso Lima pelo escritor, com o depoimento “Mário de Andrade e o catolicismo”, publicado em seu livro Companheiros de Viagem: “O que desejo provar, com a revelação dessas cartas particulares que há trinta anos e mais guardo como um tesouro, é que a religião foi o elemento central da vida de Mário de Andrade (20-27 de março de 1960)”.

Correspondente fecundo

“Mário de Andrade foi um correspondente fecundo e contumaz, como ele próprio se considerou. Dialogava com escritores, artistas plásticos, músicos e personalidades do seu tempo”, como se lê no texto de apresentação do volume, assinado pelos coordenadores editoriais da Coleção Correspondência de Mário de Andrade, Marcos Antonio de Moraes, Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Segundo eles, o professor Antonio Candido tinha razão quando, no ano seguinte à morte de Mário de Andrade, anunciava o valor da contribuição da epistolografia do criador de Macunaíma: “A sua correspondência encherá volumes e será porventura o maior monumento do gênero em língua portuguesa: terá devotos fervorosos e apenas ela permitirá uma vista completa de sua obra e do seu espírito”.

O livro lançado pela Editora da USP – Foto: Reprodução

Como contam os coordenadores editoriais, Mário de Andrade não se furtava a confidências sobre si próprio, mas procurou resguardar a intimidade alheia, determinando assim que, após a sua morte, as cartas recebidas e por ele guardadas em pastas permanecessem fechadas à consulta e à publicação durante 50 anos. A família cumpriu seu desejo e lacrou a correspondência, guardando-a na casa do escritor, na rua Lopes Chaves, 546, na Barra Funda, zona norte paulistana. No IEB, permaneceu intocada em um cofre de aço Bernardini, especialmente comprado em 1968, até a data-limite imposta pelo escritor. Três projetos permitiram o processamento arquivístico da correspondência de Mário de Andrade, contando com a ajuda de pesquisadores e professores da USP, além de estagiários e de apoio financeiro de diferentes instituições. “Esse grande legado é de capital importância não apenas para a literatura, mas para o conhecimento da cultura brasileira.”

Correspondência Mário de Andrade & Alceu Amoroso Lima, Coleção Correspondência Mário de Andrade, volume 7, organizado por Leandro Garcia Rodrigues, Edusp/IEB, 328 páginas, R$ 43,20. Mais informações neste link

 

 

 

 

 

 

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