Livro reverencia a arte, a cultura e o ser japonês

O professor da USP Wataru Kikuchi organiza livro sobre a língua e a cultura japonesa, lançamento é da Editora Humanitas

Por - Editorias: Cultura
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Imagem do artista japonês Utagawa Kunisada (1786-1864) reproduz cena de uma peça de kabuki (teatro japonês) – Foto: Reprodução

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“Nossos poetas, no lugar da loquacidade, descobriram o silêncio e criaram uma poesia especial sem igual no mundo.” O depoimento de Hagiwara Sakutarô, um dos poetas representativos da modernidade japonesa, abre o artigo de Takuro Moriyama, da Universidade Waseda. O professor justifica a originalidade da poesia japonesa mostrando as expressões e a gramática dos versos. Pontua a ambiguidade que leva à representação de causa e efeito e exemplifica com o poema Eu, o Passarinho, o Guizo, de Kaneko Misuzu:

Mesmo eu abrindo os meus braços,
Não consigo voar pelo céu de jeito nenhum,
Mas o passarinho que consegue voar
Não consegue correr tão rápido pelo chão como eu.

Mesmo eu sacudindo o meu corpo,
Não consigo tocar um som bonito,
Mas aquele guizo que toca
Não sabe tantas músicas como eu!

O guizo, o passarinho, e então eu,
Somos todos diferentes, e somos todos bons.

Essa discussão sobre a reflexão e o silêncio dos versos japoneses é apenas um dos temas abordados no livro Língua, Literatura e Cultura Japonesa – Comemoração aos 50 Anos da Habilitação em Japonês – Curso de Letras da FFLCH – USP, organizado por Wataru Kikuchi, professor do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A publicação da Editora Humanitas apresenta os temas do Simpósio Internacional de Estudos de Língua, Literatura e Cultura Japonesa: Evento em Comemoração aos 50 Anos da Habilitação em Japonês na FFLCH – USP, em setembro de 2013.

Cena de kabuki, por Utagawa Kunisada – Foto: Reprodução

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“A presente edição vem complementar essa comemoração, reunindo artigos do referido evento, assim como contribuições de outros autores que vieram também coroar essa efeméride”, explica Kikuchi na apresentação do livro. Os artigos são assinados por especialistas de universidades de diversos países, como Harumi Befu, Professor Emérito da Universidade de Stanford. “Nesse trabalho, o professor analisa a sociedade japonesa pela ótica do multiculturalismo e multietnicismo, focando as transformações ocorridas na sua composição étnica a partir dos anos 1980 e, sobretudo, nos 1990, período este que coincide com o início do movimento migratório de brasileiros descendentes de japoneses em busca de trabalho na terra de seus ancestrais.”

Cena de kabuki retratada por Utagawa Kunisada – Foto: Reprodução

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A descoberta da palavra amor

O professor da Universidade de Mie, no Japão, Yasumitsu Onishi escreve sobre o romantismo na literatura moderna japonesa, fazendo um foco nas obras de Kitamura Tôkoku, um dos principais autores do Período Meiji, de 1868 a 1912. Onishi lembra que a literatura de Tôkoku é conhecida como a primeira a utilizar a palavra amor. Cita o início de uma de suas obras mais representativas, chamada O Poeta Pessimista e a Mulher: “O amor é a chave secreta da vida. Somente após existir o amor, a vida humana passa a existir”. E, no final do parágrafo, o escritor questiona: “Mesmo assim, por que razão as estranhas aparições que entendemos como poetas, dentre os observadores mais sagazes da vida humana que escrutinam suas profundezas mais secretas, são os que mais fabricaram pecados motivados pelo amor?”.

O leitor encontra também a visão dos especialistas brasileiros em literatura japonesa no artigo de Andrei dos Santos Cunha, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e de Victor Uehara Kanashiro, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Eles tecem reflexões sobre o comportamento da imprensa brasileira em diferentes momentos históricos em relação à vida e à obra do escritor japonês Yukio Mishima, um dos autores mais traduzidos no Brasil”, observa o organizador Kikuchi.
Segundo os professores Cunha e Kanashiro, a literatura japonesa é rica em grandes obras, tanto em sua fase clássica como contemporânea. “Do ponto de vista brasileiro, a cultura japonesa é de grande importância, tendo em vista os laços de amizade entre os dois países e a importante parcela da população brasileira que descende de japoneses, a maior população nikkei do mundo.”

Cena do filme Tokyo Monogatari, de Yasugirô Ozu, 1953 – Foto: Reprodução

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Coração antigo, forma nova

A representação da atuação na pintura japonesa é o tema do artigo de Madalena Hashimoto Cordaro, professora do Departamento de Línguas Orientais da FFLCH. Especialista em literatura japonesa clássica e moderna, pintura e xilogravura japonesa, a autora pontua a história da arte japonesa e cita a ascensão do teatro kabuki, no período Edo. “Com o objetivo de servirem de divulgação de peças, atores e produtores, as estampas exerciam um papel pragmático, serviam como elementos de uma propaganda que acabava por torná-las imprescindíveis, conquanto descartáveis”, analisa. “Entretanto, o grande número das estampas que ainda restam aponta qualidades inerentes a obras que transcenderam suas finalidades e tornaram-se o que chamamos de ‘arte’.”

Capa do livro – Foto: Reprodução. (Clique na imagem para ver em maior resolução)

Madalena dá uma visão da trajetória da arte japonesa na escrita, pintura e teatro. “Se a estampa xilográfica manual é substituída pelo daguerreótipo, processo de repetição pela luz, os processos fotomecânicos ora dão lugar aos modos digitais e a narrativa do teatro kabuki se transmuta em mangá, animê, cinema”, pondera. “Os modos de representação dos artistas do corpo e da atuação, assim, seguem ainda a máxima ‘a forma é antiga; o coração é novo’, professada por Fujiwara Teika, que, por vezes pode também ser interpretada em perífrase como ‘o coração é antigo; a forma é nova’.”

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Língua, Literatura e Cultura Japonesa – Comemoração aos 50 anos da Habilitação em Japonês – Curso de Letras da FFLCH – USP,
organização de Wataru Kikuchi. Editora Humanitas, 348 páginas, R$ 47,00
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