Livro reúne cartas de Rubens Borba de Moraes a livreiro português

Organizada pelo professor da USP Plinio Martins Filho, obra traz correspondências enviadas entre 1961 e 1985

Por - Editorias: Cultura
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O bibliófilo Rubens Borba de Moraes (1899-1986) – Foto: Reprodução

A BBM Publicações acaba de lançar o livro Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, organizado pelo professor Plinio Martins Filho, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Através dessas cartas – escritas entre 1961 e 1985 -, é possível acompanhar a formação da biblioteca brasiliana do bibliófilo, bibliotecário e ensaísta araraquarense Rubens Borba de Moraes (1899-1986), hoje integrada à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. 

Mas não é só. Suas cartas revelam também a visão de Borba de Moraes sobre a política brasileira ao longo das mais de duas décadas em que foram elaboradas. Na carta datada de 8 de abril de 1964 – a primeira escrita após o golpe militar de 31 de março daquele ano -, por exemplo, ele se refere assim ao movimento que tirou do poder o presidente João Goulart: “Recebi sua carta de 30 do mês passado. Não respondi logo pois ela me veio ter em plena revolução! Os jornais já lhe devem ter contato o que se passou. Escapamos por um triz da comunização do Brasil. O golpe comunista estava marcado e tudo pronto quando o Exército resolveu intervir. O extraordinário em todo esse movimento foram as manifestações populares democráticas que precederam o golpe militar. Foram comícios de centenas de milhares de pessoas organizadas por mulheres que saíram à rua pedindo a ação do Exército contra o comunismo! Foi de empolgar”.

Quatro meses depois, em nova missiva ao livreiro português, Borba de Moraes volta a se referir à situação do Brasil: “Acresce que o custo de vida tem subido constantemente e os impostos acabam de ser aumentados, sobretudo o imposto de renda. Não sei onde vão parar os burgueses aposentados como eu. Os comerciantes e industriais sempre se defendem, mas nós os rentiers? Se continuarem assim as coisas, não terei remédio senão voltar a trabalhar, procurar um emprego qualquer para me dar a manteiga que me tiram do pão de cada dia. A minha ‘manteiga’ são os livros que compro”.

“O cômico desta situação” – continua a carta – “é que não posso deixar de aplaudir a política financeira do governo. Os governos do Juscelino e do Goulart levaram este país às garras. Estamos arruinados e se não fizermos sacrifícios sérios não sairemos desta inflação. Teremos de pagar mais impostos, pagar mais caro tudo que se importa e pagar o dobro, como estou fazendo, esta luz elétrica que me ilumina, bem mal por sinal, pois estamos com eletricidade racionada.”

Para mudar de assunto e falar de livros, ele se interrompe: “Mas vamos a coisas mais alegres, que falar do Brasil entristece e não há consolo”.

O primeiro contato com António Tavares de Carvalho se deu por indicação de um amigo, o senhor Gropp, como Borba de Moraes observa na primeira carta escrita ao livreiro português, datada de 27 de março de 1961: “Prezado Senhor, meu amigo, o Sr. Gropp, recentemente chegado de uma viagem a Portugal, indicou-me seu nome como pessoa interessada em procurar livros raros para colecionadores e deu-me uma relação de obras que V.S. deseja vender”.

O livro, que não traz as respostas do livreiro português, é separado por ano. Não há nenhum registro de 1984, o que pode ser explicado por Borba de Moraes estar debilitado, já que na época tinha 85 anos. Mas a última carta do bibliófilo, de 16 de dezembro de 1985, não tem tom de despedida. Pelo contrário: “Espero vê-lo aqui no próximo ano. Seria uma festa para este seu velho amigo”. Borba de Moraes morreu em 2 de setembro de 1986.

Rubens Borba de Moraes foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, dirigiu a hoje chamada Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade e fundou o Departamento de Cultura de São Paulo, atual Secretaria Municipal de Cultura. Na área acadêmica, atuou como professor e organizou o curso de Biblioteconomia da Prefeitura de São Paulo, em 1936, que contribuiu para a organização e a documentação do acervo do Departamento de Cultura. Borba de Moraes criou a Associação Paulista de Bibliotecários. Após estudar biblioteconomia nos Estados Unidos, tornou-se diretor da Biblioteca da Organização das Nações Unidas (ONU), até 1959. Anos depois, ao voltar ao Brasil, tornou-se docente na Universidade de Brasília (UnB).

O livro tem organização de Plinio Martins Filho e é uma edição da BBM Publicações – Foto: Reprodução

 

A versão digital de Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho está disponível gratuitamente  aqui.

Além dessa obra, a BBM Publicações lançou no dia 13 passado o livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, da curadora da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin Cristina Antunes. Leia mais aqui.

 

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