Livro mostra o caipira que não conhecemos

Obra lançada pela Edusp apresenta, em fotos em preto e branco, um modo de vida pré-industrial no interior paulista

Por - Editorias: Cultura
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Benedita Maria da Conceição Monteiro em seu sítio - Foto: Pedro Ribeiro
Benedita Maria da Conceição Monteiro em seu sítio – Foto: Pedro Ribeiro

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Imagine o “inimaginável”: ficarmos sem internet, sem acesso aos nossos e-mails, sem acesso aos nossos sites favoritos, sem acesso às nossas redes sociais etc. etc. etc. pelo período de, digamos, dois dias. Um sonho ruim, um pesadelo? Teremos crise de abstinência?

Pois a alguns quilômetros, aqui do nosso lado, em Cunha, o fotógrafo e etnógrafo Pedro Ribeiro, depois de uma pesquisa de doutorado de cinco anos acompanhando uma família caipira no seu dia a dia, deu à luz brilhantemente, via Edusp, o livro Vida Caipira, um mais do que interessante documento de como vivem as pessoas que não têm qualquer tipo de ambição urbana e vivem muito bem, obrigado, num mundo pré-Revolução Industrial. O livro é uma versão reescrita da tese de doutorado de Ribeiro, defendida no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação do professor José Carlos Sebe Bom Meihy.

A Cachoeira do Desterro - Foto: Pedro Ribeiro
A Cachoeira do Desterro – Foto: Pedro Ribeiro

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O que mais chama a atenção no livro, de imediato, é a qualidade impressionante das fotos de Ribeiro, todas em preto e branco. Ora, sabemos que as fotos no popular PB são as mais bonitas e elegantes de toda a história da fotografia por serem as mais difíceis. É preciso ser muito bom para manter um nível alto de qualidade nos registros dessas imagens. Isso, Ribeiro tem de sobra – um parêntese: mostrei o livro a várias pessoas, que ficaram encantadas com a qualidade imagética alcançada por Ribeiro em Vida Caipira.

Para minha surpresa, pensando na qualidade (texto + imagens), mergulhei na leitura, e é livro de se ler “numa sentada”, como se costuma dizer. Ficamos sabendo da família Monteiro: Maurílio, o pai, Dita, a mãe e uma espécie de líder das mulheres da região, Zé Maurílio, o filho, e a caçula, a adolescente Maíra, que por sua beleza e certa enfermidade é o xodó da casa. A família Monteiro mora num bairro rural chamado Engenho.

Terreiro do sítio dos Monteiro, retratado no livro da Edusp - Foto: Pedro Ribeiro
Terreiro do sítio dos Monteiro, retratado no livro da Edusp – Foto: Pedro Ribeiro

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Bem, eu me disse à certa altura, estou na roça. No mundo da roça, em que galináceos, porcos e cavalos vivem soltos, juntamente com cães, gatos, bois e vacas. Nesse mundo o universo feminino é circunscrito à casa – visita para entrar nos aposentos, só se tiver um grau de intimidade com a família. A figura de Dita “explica” isso ao longo do livro. Em geral, as visitas ficam no quintal varrido. É Dita a responsável pela comida e limpeza da casa – no que é ajudada por Maíra.

Em contraposição à figura da mulher, o universo masculino é o universo do trabalho. Maurílio, por exemplo, que se autodefine como “um lavradô”, está em atividade o tempo todo, seja durante a semana, quando carpe a própria roça, seja aos sábados, quando, em regime de mutirão, ajuda seus vizinhos, que, por sua vez, já o ajudaram antes também. Ninguém cobra nada de ninguém. Aos domingos, Maurílio tampouco fica ocioso, sempre lidando com coisas para consertar – seja uma panela, uma cadeira etc. – ou ajudando dona Dita, lavando e enxugando a louça.

O mundo de Maurílio é uma paisagem “de amplidão quase sem escala dos campos, metáfora de um universo masculino extremamente dinâmico”, diz Ribeiro, onde todo trabalho é voltado para a economia doméstica.

Maíra Monteiro e José Maurílio - Foto: Pedro Ribeiro
Maíra Monteiro e José Maurílio – Foto: Pedro Ribeiro

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Se os pais estão imersos e satisfeitos nesse mundo pré-Revolução Industrial, Zé Maurílio, o filho mais velho, não parece tão satisfeito assim. Ele tem várias cabeças de gado, que cuida na terra de um vizinho que, por sua vez, não lhe cobra nada. Diferentemente das outras pessoas dos arredores, Zé Maurílio usa chapéu de caubói e tem um Fusca, que o leva até Cunha, quando ele acha que as coisas estão paradas demais.

É a primeira notícia do livro sobre a questão do tempo. Maurílio, por exemplo, só ajuda a cuidar do gado do filho a contragosto (“sou lavradô”).

E Maíra? Quase nenhuma notícia sobre a moça, que Pedro Ribeiro diz ser bela e mimada pelos pais (o que não a impede de ter de ajudar a mãe na casa). E só. Guardada pela família como joia preciosa e por “certa enfermidade” de que, em certo momento, o autor, citando Dita, diz que já está bem melhor, quase curada.

Maurílio e Benedita Monteiro - Foto: Pedro Ribeiro
Maurílio e Benedita Monteiro – Foto: Pedro Ribeiro

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Nas palavras de Ribeiro: “O sítio, domínio do núcleo familiar, é a unidade mínima da organização caipira”. A religião que aí domina é a católica romana, sincretizada por benzedeiras e pessoas com certos poderes para fazer curas.

Se Pedro Ribeiro conseguiu conquistar o respeito da família Monteiro pelo tempo que passou junto a eles, isso fica bem explícito quando a pessoa se volta para a qualidade imagética, fotográfica, que deu origem ao livro. Nossos personagens são constantemente fotografados – uma elegante foto de Dita estampa a capa. Aqui estamos numa esfera verdadeiramente exuberante. Como já insisti acima, as fotos em preto e branco num bom papel couché são, sem sombra de dúvida, trabalho de artesania de mestre.

Não há uma imagem sequer de qualidade duvidosa, sejam retratos, fotos de caipiras trabalhando, de festas religiosas (tão importantes para a vida do bairro rural) ou simplesmente de paisagens.

A capa do livro de Pedro Ribeiro, lançado pela Edusp - Foto: Reprodução
A capa do livro de Pedro Ribeiro, lançado pela Edusp – Foto: Reprodução

Aliás, as fotos de paisagens, a meu ver, são as melhores. Não que as outras sejam menos boas, mas é que aí está o “olho mágico” do autor. A segunda foto, abrindo-se o livro, em que Pedro Ribeiro está dentro da mata exuberante ao pé de uma cachoeira, é de indiscutível beleza e elegância. Mais não digo e convido vivamente o leitor deste texto a procurar o livro de rara beleza e argúcia, uma vez que o autor não toma qualquer tipo de posição – por exemplo, isso está certo, aquilo está errado. Nada disso. Ele apenas toma nota das vidas das pessoas de seu livro, sem emitir qualquer juízo de valor, como bom etnógrafo que é.

Para nós, pobres mortais que à primeira queda de energia nos sentimos impotentes, Vida Caipira, de Pedro Ribeiro, livro que acaba de sair pela Edusp, é uma belíssima viagem no espaço e, principalmente, no tempo. Um tempo, de certa forma, conhecido de nossos avós, que, a rigor, segundo contam, eram pessoas bem mais felizes do que nós. Como a família Monteiro.

Vida Caipira, de Pedro Ribeiro, Editora da USP (Edusp), 152 páginas, R$ 74,00.

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