Livro mostra as várias faces da obra de José de Souza Martins

Ensaios abordam temas, métodos, fontes e influência do pensamento do sociólogo e professor da USP

  • 215
  •  
  •  
  •  
  •  
O Sepultamento, túmulo no cemitério da Consolação, em São Paulo, assinado por Victor Brecheret: José de Souza Martins foi pioneiro em estudar o tema da morte nas ciências sociais – Foto: José de Souza Martins

.
Trata-se de uma obra que contempla, essencialmente, sujeitos sociais relegados e, quando trata da modernização do Brasil, privilegia os deserdados do movimento dominante. É dessa forma que a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sintetiza a trajetória intelectual do sociólogo José de Souza Martins, no prefácio do livro A Sociologia Enraizada de José de Souza Martins, que acaba de ser publicado pela Editora Com-Arte.

O professor da USP José de Souza Martins: um dos mais importantes sociólogos brasileiros da atualidade – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Organizado pela professora Fraya Frehse, do Departamento de Sociologia da FFLCH, o livro traz 15 ensaios, de diferentes autores, sobre vários aspectos do pensamento de Martins. Além dos textos, o livro dá acesso a uma trilha sonora em homenagem ao sociólogo, com arranjos e composições de Ivan Vilela, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. As músicas podem ser acessadas através de um QRcode, publicado na página 307. Fotografias que Martins produziu em trabalhos de campo – assim como fazia Claude Lévi-Strauss – e até uma poesia dedicada a ele também são publicadas no volume. “José de Souza Martins é um dos melhores sociólogos de sua geração e se conta entre os que mais contribuíram para lançar um olhar novo sobre os fenômenos sociais”, analisa o ex-presidente da República e professor aposentado da FFLCH Fernando Henrique Cardoso, que assina o texto das orelhas do livro. “Na sociologia de Martins, o tradicional aparece como crítica incompleta dos efeitos e consequências da modernidade, diz um de seus analistas. E, por consequência, a dualidade moderno/arcaico vista como uma ruptura é um equívoco analítico.”

Hoje com 80 anos, internacionalmente reconhecido e em plena atividade, Martins é Professor Emérito da FFLCH, onde nos anos 60 foi aluno de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, entre outros, e com eles constituiu a chamada Escola Paulista de Sociologia. Autor de 30 livros escritos ao longo de 60 anos – entre eles, Uma Sociologia da Vida Cotidiana (2014) e Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder (2016) -, Martins foi o terceiro brasileiro a ocupar, em 1993 e 1994, a Cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, antes ocupada por Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso.

Viagem, 2011 - Foto: José de Souza Martins
Viagem, 2011 - Foto: José de Souza Martins
Emaranhado, 1999 - Foto: José de Souza Martins
Assédio Urbano, 2004 - Foto: José de Souza Martins
Da Boca pra Fora, 2002 - Foto: José de Souza Martins
Sem título - Foto: José de Souza Martins
Portal do Tempo, 2007 - Foto: José de Souza Martins
Amadeo Zani, Sepulcro do Conde Siciliano, 2006 - Foto: José de Souza Martins

.
Karl Marx e Henri Lefebvre

O livro sobre José de Souza Martins, organizado pela professora Fraya Frehse – Foto: Reprodução

Com 314 páginas e dividido em quatro partes, o livro organizado pela professora Fraya Frehse traz artigos que analisam os temas, os métodos interpretativos, as fontes e o impacto social da “sociologia enraizada” de José de Souza Martins – termo com que o sociólogo busca “dar sentido às peculiaridades” da sua sociologia, “uma sociologia de envolvimento com o destino de todos”, como ele mesmo define.

Na primeira parte – dedicada aos temas investigados pelo sociólogo -, destacam-se as contribuições de Martins para a análise do meio rural no Brasil, tão significativas a ponto de ele ser chamado – “equivocadamente”, segundo Fraya – de “sociólogo rural”. Por exemplo, o artigo “Singularidades do capitalismo brasileiro no mundo rural”, assinado pela professora Leonilde Servolo de Medeiros, da Universidade Federal Rural do Rio de janeiro (UFRRJ), mostra a visão crítica com que o sociólogo considera a exploração do campo no Brasil. “Martins faz um esforço de entender o rural brasileiro como parte do processo de produção e reprodução do capitalismo, jogando luz sobre suas singularidades, mas sempre situando-as no quadro mais geral de reprodução do capital”, escreve Leonilde. “Revelar as faces estruturais da expropriação, do significado da terra na sua forma de renda capitalizada e da possibilidade da ocorrência de situações como a do trabalho escravo na reprodução do moderno é, segundo ele, a contribuição que o pesquisador pode dar aos grupos explorados.” Mas a sociologia de José de Souza Martins não se restringe ao meio rural, como demonstram os artigos “A sociologia da sociedade brasileira”, da professora Elide Rugai Bastos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e “A sociologia da vítima como sociologia do espaço”, de Fraya Frehse.

O pensador alemão Karl Marx (1818-1883) e o sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991) são duas das mais importantes fontes da sociologia de José de Souza Martins, segundo o professor William Héctor Gómez Soto, da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), autor do artigo “Entre Henri Lefebvre e Karl Marx”, publicado na segunda parte do livro, relacionada à discussão sobre os métodos interpretativos do sociólogo. Segundo Soto, existem duas noções-chave para a compreensão do pensamento e da obra de Martins – o conceito de resíduos, concebido por Lefebvre, e a ideia de menos-valia, de Marx. A teoria dos resíduos de Lefebvre se refere ao fato de que todos os sistemas de poder que se constituem produzem “resíduos”, que escapam a esses sistemas, como o corpo, o cotidiano, a imaginação e o tempo. Já a menos-valia é um conceito marxista equivalente à ideia de resíduo. “A noção de menos-valia aparece como contraponto dialético da acumulação do capital, da mais-valia e do tempo linear”, explica Soto. “O diálogo crítico que Martins estabelece com Lefebvre é fundamental tanto no que se refere aos temas como ao ponto de vista teórico e metodológico. Mas também a leitura crítica da obra de Marx foi decisiva.”

Entre as fontes documentais da sociologia de Martins – tema da terceira parte do livro – está a fotografia. A esse respeito, o professor Etienne Samain, da Unicamp, escreve no artigo “‘Atravessar o espelho das aparências'”: “Existe no trabalho visual de Martins uma cumplicidade entre textos, sons e imagens. Longe de se duplicarem, textos e imagens se desafiam à maneira de violeiros repentistas. Completam-se, acoplam-se e levam o espectador a questionar, a pensar, a imaginar o mundo tanto a partir daquilo que vê como a partir de vozes vindas de muito longe, e que deve escutar”. O sociólogo é um observador dos detalhes, de coisas aparentemente sem importância e dispensáveis, que, no entanto, estão carregadas de significações, continua Samain. “Martins recolhe os ‘modos menores’ da realidade; ou, nos seus próprios termos, a ‘menos-valia do sistema social’.”

As fotografias são utilizadas também em estudos pioneiros nas ciências sociais feitos por Martins – aqueles referentes à morte. Esse pioneirismo do sociólogo é o tema do artigo “O intangível e suas formas materiais de sentido”, do professor Antonio Motta, da Universidade Federal de Pernambuco (UFP). No artigo, Motta destaca os trabalhos do sociólogo que tiveram como base imagens de túmulos instalados em cemitérios de São Paulo, entre eles O Sepultamento, de Victor Brecheret, que guarda os restos mortais de Dona Olívia Guedes Penteado (1872-1934) no cemitério da Consolação. Algumas das fotos de Martins citadas nos artigos de Samain e de Motta estão reproduzidas nesta página (veja acima).

Já a quarta e última parte do livro reúne artigos que evidenciam o impacto do pensamento de Martins em diferentes áreas da sociedade brasileira. Esse impacto está presente, por exemplo, no trabalho da professora Marilia Pontes Sposito, da Faculdade de Educação da USP, que dedicou toda sua carreira acadêmica à pesquisa educacional. No artigo “Uma contribuição pioneira às relações entre sociologia e vida cotidiana”, ela se refere à sociologia da vida cotidiana de Martins como “uma de suas vertentes mais criativas e desafiadoras para aqueles que acompanharam sua trajetória intelectual e nela se inspiram”. Outros artigos publicados nessa parte do livro são “Camus na festa do Bom Jesus”, do Professor Emérito da FFLCH, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Alfredo Bosi, e o “Discurso de Recepção de José de Souza Martins na Academia Paulista de Letras”, pronunciado em 3 de setembro de 2015 pelo poeta Paulo Bomfim. “José de Souza Martins vê a vida com olhos de poeta, cérebro de sociólogo, espírito de historiador e inquietação de jornalista. Tudo convergido para a paixão de ensinar”, discursou Bomfim.

A Sociologia Enraizada de José de Souza Martins, de Fraya Frehse (organizadora), Editora Com-Arte, 314 páginas, R$ 70,00.

 

 

 

  • 215
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados