Livro mostra a resistência da mulher através da arte-educação

Obra organizada pela professora Ana Mae Barbosa será lançada nesta quinta-feira, dia 25, em São Paulo

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Batalha dos Guararapes ou Árvore da Liberdade, 1999, de Tereza Costa Rêgo – Foto: Acervo da família

Um livro só sobre mulheres – porém com artigos de homens e mulheres – destaca o desafio feminino de batalhar pelo ensino da arte e do design. O título Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio – Arte, Design, Educação, gravado em vermelho e preto, é uma referência ao outdoor da artista norte-americana Barbara Kruger. O desenho foi criado em 1992 a pedido de Ana Mae Barbosa, então diretora do Museu de Arte Contemporânea  (MAC) da USP, para a inauguração da sede da instituição na Cidade Universitária. Kruger lembra às mulheres a sua importância na luta em prol da arte, educação e cultura.

A professora Ana Mae Barbosa – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Publicado pela Editora Cortez, o livro será lançado nesta quinta-feira, dia 25, às 19 horas, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, durante o Congresso de Ensino/Aprendizagem das Artes na América Latina: Colonialismo e Questões de Gênero, que acontece a partir desta terça-feira, dia 23, até quinta-feira, dia 25. A obra conta com a organização das arte-educadoras Ana Mae Barbosa e Vitória Amaral. “Esta obra é uma bricolagem; é pesquisa, é memória, é celebração, é homenagem, é ativismo em prol da conscientização das arte-educadoras e arte-educadores acerca da condição periférica da mulher na arte-educação e da arte-educação em relação aos poderes dominantes”, explica Ana Mae, também professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

O livro faz uma reconstrução histórica, destacando a presença das mulheres na arte e na arte-educação na década de 1960. “Tentamos descortinar a resistência pela ação que tiveram as mulheres desse período. Estou convencida de que aprender é reconstruir, e ensinar é pesquisar constantemente”, observa Ana Mae. A edição é um dos muitos resultados positivos do caminho que a professora começou a trilhar há quase cinco décadas. Foi a primeira especialista em arte-educação no País. Uma formação que compartilha, ao longo de 43 anos, na USP, com centenas de alunos. Orientou cerca de 60 mestres e doutores na ECA, especialistas que hoje desenvolvem projetos de arte-educação em todo o País. Desde 1978, os livros e artigos da professora são referência nas pesquisas e no ensino da arte. 

1 – Anunciação, 1951, obra de Yolanda Mohalyi, têmpera, mural na Capela do Cristo Operário, em São Paulo – Foto: Reprodução
2 – Imagens que registram o movimento da Bauhaus – Reprodução do livro Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio
3- O Torso, 1915/1916, de Anita Malfatti, obra duramente criticada por Monteiro Lobato – Foto: MAC-USP

As ditaduras buscam reprimir as mulheres, limitar a visibilidade de seus afazeres artísticos ou apagá-las da história.”

“Este início do século 21 está marcado pela luta em favor da aceitação da diversidade”, comenta Ana Mae no capítulo “Mulheres: arte, artesanato, design”. Explica que, ao falar sobre diversidade, prefere se referir às conquistas dos direitos humanos e da democracia. “Venho me interessando há muito tempo pela análise do reconhecimento das mulheres na arte e verificando que os países onde tem um reconhecimento são exatamente os mais democráticos. As ditaduras buscam reprimir as mulheres, limitar a visibilidade de seus fazeres artísticos ou apagá-las da história.”

 A artista plástica Tomie Ohtake (1913-2015) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A professora Dulcília Schroeder Buitoni, da ECA, destaca na orelha do livro informações importantes para o leitor: “O painel histórico a respeito de mulheres e design, passando pelas garotas de Glasgow, Bauhaus, John Dewey e o legado de Marta Erps Breuer, acompanhado por dois ensaios visuais, é seguido por reflexões sobre as mulheres que influíram na história do ensino da arte no Brasil: Noemia Varela, do Movimento Escolinha de Arte do Brasil, Salete Navarro, da Escolinha de Arte Cândido Portinari, e Yvonne Jean, do jornalismo na defesa da mulher, da arte e da educação”. Essas homenagens trazem as pesquisas dos especialistas Fernando Antonio Gonçalves de Azevedo, da Universidade Federal de Pernambuco, Vicente Vitoriano Marques Carvalho, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e José Mineri Neto, da ECA. “A terceira parte reúne entrevistas e declarações. Ana Mae é entusiasmada com entrevistas, pois ‘são uma plataforma mais acurada da memória que as autobiografias’.”

O entusiasmo da ex-diretora do MAC está na entrevista com a inglesa Eleanor Hipwell, pioneira internacional na arte-educação, e também na conversa de Tomie Ohtake com os seus alunos na exposição da artista, em outubro de 2000, no Paço das Artes, em São Paulo. Importante destacar também o registro sensível de Vitória Amaral, professora da Universidade Federal de Pernambuco, em sua pesquisa sobre a artista Tereza Costa Rêgo. “Em seu percurso pessoal, Tereza foi encontrando a sua poética artística e tem uma estética inconfundível”, acentua Vitória. Aos 89 anos, continua pintando. 

Trabalhou no Museu do Mamulengo até há pouco tempo e dá exemplo às mulheres para se libertarem de repressões e escravidões que lhes foram impostas socialmente.”

Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio – Arte, Design, Educação, de Ana Mae Barbosa e Vitória Amaral (organizadoras), Editora Cortez, 442 páginas, R$ 89,00.

O lançamento do livro será nesta quinta-feira, dia 25, às 19 horas, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, em São Paulo), durante o Congresso de Ensino/Aprendizagem das Artes na América Latina: Colonialismo e Questões de Gênero, que acontece desta terça-feira, dia 23, até quinta-feira, dia 25.

Congresso em São Paulo reúne arte-educadores
da América Latina

Livro “Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio - Arte, Design, Educação” será lançado no dia 25

Idealizado pela educadora Ana Mae Barbosa, o Congresso de Ensino/Aprendizagem das Artes na América Latina: Colonialismo e Questões de Gênero reúne, a partir desta terça-feira, dia 23, pesquisadores, professores e estudantes de toda a América Latina. O evento continua até esta quinta-feira, dia 25, das 10 às 17 horas, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, em São Paulo).

“A prioridade desse congresso serão os debates, conferências e mesas temáticas”, explica Ana Mae.  “A meta é valorizar nossa cultura. Todo cidadão precisa conhecer sua arte e sua história, estar consciente de seu papel na sociedade, através do diálogo dos diversos agentes envolvidos com o ensino e aprendizagem de arte.”

O livro Mulheres Não Devem Ficar em Silêncio –  Arte, Design, Educação será lançado no encerramento do congresso, no dia 25, às 19 horas.

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