Livro mapeia relação entre meios de comunicação e ensino básico

A partir de pesquisa com professores e estudantes, obra aponta necessidade de incorporar meios de comunicação na escola

 20/08/2021 - Publicado há 4 meses
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As relações entre meios de comunicação e educação e sua influência no trabalho pedagógico foram analisadas em pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: August de Richelieu/Pexels CC

 

Eu tenho ideias incríveis para aprimorar minhas aulas e conteúdos, advindas do contato com as mídias de comunicação e interação virtual, mas não consigo pô-las em prática devido à falta de tempo hábil.”

“Parece que vivo dentro de uma escola sem ter tempo para nada. A docência é maravilhosa, porém nos desgasta bastante, sinto não ter tempo para me reenergizar.”

“Pouco tempo para me dedicar à preparação das aulas, projetos e correções de provas. Chego a ficar sábado e domingo preparando aula, corrigindo atividades e avaliações.”

“Por que o uso das tecnologias de comunicação acarretou sobrecarga de trabalho do professor: tenho de produzir material ‘analógico’ e também ‘digital’ para alimentar o AVA (ambiente virtual de aprendizagem). Trabalho muito mais horas fora da sala de aula do que antes de a internet chegar na escola.”

Tais declarações, vindas de professores do ensino básico, são alguns dos achados sobre a relação entre meios de comunicação e ensino que aparecem em Comunicação e Educação: Dinâmicas Midiáticas e Cenários Escolares. Organizada pelo professor Adilson Citelli, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a obra apresenta os resultados do projeto de pesquisa Inter-Relações Comunicação e Educação no Contexto do Ensino Básico”.

Realizada pelo grupo Mediações Educomunicativas (Mecom), presidido por Citelli, a pesquisa que gerou o livro procurou verificar como os discursos escolares dialogam com os meios de comunicação. Centrado nas escolas de ensino fundamental e médio, o projeto incluiu entrevistas com professores e estudantes e visitas às instituições educativas durante o segundo semestre de 2018. A maior parte do trabalho analítico aconteceu em 2019, mas o contexto da pandemia também aparece na obra.

A intenção do grupo foi mapear a existência de vínculos entre comunicação e educação nas escolas, identificando, além disso, os hábitos midiáticos de professores e estudantes, prestando atenção nos possíveis usos dos meios de comunicação no trabalho escolar. Participaram do projeto 509 professores e 3.708 estudantes de 23 Estados do País

Os pesquisadores acompanharam aulas, realizaram grupos de discussão, aplicaram questionários e fizeram entrevistas com docentes e discentes. O resultado dos trabalhos aparece distribuído no livro em 12 artigos, assinados por professores, doutores, mestres, pós-graduandos e graduandos ligados ao Mecom.

Como tais tecnologias e os meios de comunicação se fazem presentes no cotidiano, inexistindo sinais de que haverá decréscimo ou arrefecimento, é necessário ter em mira ativar a capacidade analítico-crítica dos/das discentes (e mesmo de grupos docentes) no que se refere aos dispositivos comunicacionais. Nos termos da Unesco: trata-se de promover a referida educação midiática”, escrevem os autores na introdução da obra.

Professores e estudantes conectados

“Iniciativas apresentadas durante a quarentena, apoiadas no uso de linguagens amplamente disseminadas entre estudantes, acabam por reforçar a carga já intensa de expectativas a recair sobre os professores”, segundo pesquisadores – Foto: Flickr

Os dados coletados e analisados pelos pesquisadores revelam o quadro da relação entre educação e comunicação. Em relação aos professores, 80% dos entrevistados usam o smartphone como principal meio de acesso à internet, enquanto 89% disseram acessar a rede de computadores para preparar aulas. 91% dos entrevistados afirmaram usar o computador para atividades didáticas e 93% entendem que a relação entre mídias e escola é complementar. A maioria costuma compartilhar com os estudantes conteúdos como informações sobre sua disciplina, notícias e vídeos. Por fim, 56% dos professores utilizam sempre ou quase sempre como recurso didático algum tipo de conteúdo como música, videoclipe, novela, série, filme, propaganda, telejornal, jornal ou revista.

Como a finalização do livro foi parcialmente realizada já no contexto da pandemia, alguns apontamentos sobre as aulas remotas também foram apresentados. “A ideia de que os educadores e educadoras foram beneficiados ao ministrarem as disciplinas de suas próprias casas não se sustenta, uma vez que, afora a tensão gerada pela ameaça da doença e a trágica evolução do número de casos e mortes, eles/as são obrigados/as a lidar com os desgastes físicos e emocionais, efeitos de experiências atípicas, como o distanciamento social e as saídas involuntárias para ‘gravar aulas’, sob precauções rígidas para evitar a contaminação”, apontam Sandra Pereira Falcão e Rogério Pelizzari de Andrade em um dos artigos.

A dupla destaca também que as antigas pressões sobre os professores – a realização de cursos e capacitações para progressão na carreira e reinvenções de práticas pedagógicas para manter o controle e a atenção dos estudantes – são reforçadas pela centralidade dos dispositivos tecnológicos. “Iniciativas apresentadas ao longo do período de quarentena, apoiadas no uso de linguagens amplamente disseminadas entre estudantes, como o TikTok”, escrevem os pesquisadores, “conquanto representem alternativas válidas de mediação do processo ensino-aprendizagem, acabam por reforçar a carga já intensa de expectativas a recair sobre os/as professores/as, os quais se sentem pressionados/as a incorporar à prática docente atividades típicas de um influenciador digital.”

De acordo com o professor Citelli, conforme escreve em outro artigo do livro, no qual investiga a falta de tempo e a sensação de sobrecarga dos professores, estes se situam hoje no interior de um processo de mudanças sociotécnicas que repercutem diretamente em seu trabalho. “Em boa monta, os professores e professoras possuem idade e tempo de exercício do magistério consentâneos à ampliação dos dispositivos comunicacionais, particularmente em anos recentes ancorados nas tecnologias digitais.”

“Tal esclarecimento promove compreensível aproximação entre docentes e discentes, haja vista circularem em universo comum atravessado pelos inúmeros aparatos técnicos, midiáticos, e suas variadas implicações. Isso não significa, entretanto, existir maior ajuste de passo entre os andamentos das aulas em seus modelos atuais e os reptos pedidos a uma educação que tem à sua frente incitamentos da comunicação mediada”.

Quanto aos estudantes, os resultados da pesquisa reforçaram a percepção da relação estreita entre os jovens e as mídias digitais. O smartphone aparece como o meio mais utilizado para acessar a internet para 86% dos entrevistados, seguido de longe pelos notebooks (32%) e desktops (23%). Os conteúdos mais procurados por eles são vídeos (81%), redes sociais (76%), sites de busca (56%) e jogos (52%).

Observamos que a oferta de uma miríade de recursos visuais e sonoros, assim como a possibilidade de entrar em contato com outras pessoas e de não apenas consumir, mas também de produzir conteúdo, em qualquer lugar e a qualquer hora, acabam por reduzir o espaço e o tempo da educação formal”, escrevem Sandra e Andrade. “A concorrência de produtos considerados mais atraentes, em geral voltados ao entretenimento, relega a segundo plano as atividades associadas às relações ensino-aprendizagem nas salas de aula — é preciso considerar que o estudo das matérias, a preparação para as provas, a realização dos trabalhos e deveres escolares são atravessados e, no limite, preteridos por experiências recortadas pelos media.”

Vozes cruzadas

“A ideia de que os educadores foram beneficiados ao ministrarem as disciplinas de suas próprias casas não se sustenta, uma vez que eles são obrigados a lidar com desgastes físicos e emocionais”, escrevem pesquisadores no livro – Foto: 123RF

Ao cruzar os dados obtidos com os professores e os estudantes, a pesquisa pôde encontrar alguns entendimentos e propostas comuns aos dois grupos no que tange à relação entre comunicação e educação. Tanto professores quanto estudantes reconhecem nos dispositivos técnicos e nos conteúdos midiáticos uma forma de tornar as aulas mais dinâmicas, diferenciadas e estimulantes. “Os dois grupos apontam principalmente para a relação intrínseca dos/as jovens com os meios e para a interação que estes podem proporcionar entre estudantes e docentes e entre o espaço educativo e o que acontece fora dele”, escrevem Eliana Nagamini, Maria do Carmo Souza de Almeida e Tatiana Luz-Carvalho.

As pesquisadoras frisam, entretanto, que alguns estudantes e professores percebem que os recursos midiáticos podem não ser eficientes caso não funcionem de maneira adequado ou se os docentes não souberem usá-los corretamente. “Cabe ressaltar, portanto, que apenas a presença dos recursos na sala de aula não garante a melhoria nos fazeres pedagógicos”, escreve o trio. “Para isso, é essencial o/a docente deter conhecimentos sobre o funcionamento dos suportes tecnológicos, bem como as especificidades de suas linguagens.”

Sobre o celular, o dispositivo mais presente tanto entre docentes quanto discentes, as pesquisadoras apontam que a orientação do professor é decisiva para a utilização do aparelho como recurso pedagógico. “Porém”, afirmam, “enquanto os/as docentes reconhecem esse potencial no contexto restrito da ação pedagógica, os/as discentes indicam-no como auxiliar na comunicação para além dos muros da escola. Ou seja, para o ethos docente, o celular deve limitar-se às atividades didáticas; já o ethos discente torna mais abrangente o alcance do aparelho.”

As pesquisadoras ainda pontuam a dupla percepção do tempo que esse processo imprime na dinâmica das aulas. Para os professores, há uma corrida para aprender e compreender o alcance das opções tecnológicas, um movimento que cria a percepção da inexistência de tempo para formação adequada. Já para os estudantes, as mídias fazem a aula dinâmica, tornando o tempo também rápido para eles, mas vinculado não à pressão, mas ao prazer.

Tecnologias como mediadoras da aprendizagem

Com um vasto conjunto de dados quantitativos e qualitativos, o volume tem entre seus méritos colocar como ponto de partida para se pensar a relação entre comunicação e educação as vozes de professores e estudantes. Disso decorre que em suas páginas não surgem propostas acabadas, mas as percepções de quem está diariamente na linha de frente do processo, vivendo a realidade da entrada das tecnologias na escola e a urgência de se pensar o que fazer com elas.

Mesmo que a unidade educativa não possua determinados equipamentos para fins didáticos, a presença do celular, dos computadores, da internet é algo objetivo no cotidiano da maioria dos professores e professoras, alunos e alunas”, escreve Citelli. “Isso requisita da cultura, digamos, tradicional da escola uma nova forma de relacionamento com as técnicas e estratégias para incorporá-las aos andamentos didático-pedagógicos. Tal assertiva, extraída dos dados coletados, remete a outra reflexão: não cabe pensar as tecnologias de modo instrumental, e sim como mediadoras da aprendizagem. Vistos sob tal ângulo, os recursos, ao menos alguns dos mais referidos (internet, computadores, celulares, tablets), precisam fazer parte do ecossistema comunicativo das escolas, e de algum modo − como vem acontecendo em vários casos, segundo depoimentos de docentes e discentes − colaborar no ajuste de passo entre a sala de aula e o mundo inclusivo, no qual os desafios dos dispositivos e suas linguagens estão fortemente presentes”, conclui o professor.

Capa do livro Comunicação e Educação – Foto: Reprodução

Comunicação e Educação: Dinâmicas Midiáticas e Cenários Escolares, de Adilson Citelli (organizador), Editora da Uesc, 229 páginas. A obra está disponível gratuitamente neste link (clique aqui).


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