Livro investiga tensão entre arte e capitalismo

Partindo da arquitetura, do urbanismo e do design, obra analisa a relação entre arte e mercado hoje

 18/10/2021 - Publicado há 1 mês
Por
Capa do e-book lançado por pesquisadores da USP, que está disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP – Foto: Reprodução

 

Que o capitalismo, sobretudo em seu estágio neoliberal, concentra um poder de adaptação e cooptação brutal é sensível para praticamente qualquer terráqueo do século 21. Como isso acontece em seus múltiplos meandros, contudo, é algo que precisa de olhares mais atentos e pesquisas meticulosas para ser apreendido.

Na esfera das artes, um novo esforço acaba de surgir com a publicação de Arte e mercado: Afinidades Eletivas, e-book do Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporâneas (NEC), ligado ao Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, em São Carlos. Organizada pelo professor Ruy Sardinha Lopes, coordenador do NEC, a obra é resultado de pesquisas de mestrado e doutorado já concluídas ou em andamento feitas por integrantes do núcleo.

Os temas da arte, arquitetura, design e urbanismo são visitados no livro sob a perspectiva de suas interações com a lógica do mercado. Os estudos ora investigam como o capitalismo se apropria de princípios, provocações ou propostas vindas desses universos para se reciclar e se fortalecer, ora discutem como esses campos abordam criticamente a sociedade de consumo ou se veem obrigados a incorporar seus pressupostos para sobreviver.

“Não apenas o mercado se ‘culturalizou’, passando a operar a partir de lógicas antes vistas como ‘marginais’ ou mesmo ‘não econômicas’ – donde a insuficiência das teorias neoclássicas em explicá-lo -, como o fazer artístico, ao perder sua ‘especialidade’ e distanciamento crítico, se viu obrigado não apenas a rever seu posicionamento, mas também a incorporar uma série de procedimentos e ações ‘não artísticos’”, escreve Lopes na introdução do volume. “Assim como o trabalho ordinário se torna ‘criativo’ e o consumo ‘experiencial’, o ‘talento’ ou ‘a genialidade’ artísticos se tornam resultados de um eficiente branding e o engajamento de uma obra é medido pelo número de likes obtidos por sua visualização em alguma plataforma digital.”

A vida que se torna arte que se torna produto

Um estudo dessa “culturalização” do mercado aparece no artigo assinado por Débora Gomes dos Santos, que investiga como ambientes degradados de Nova York, ocupados por artistas marginais e de vanguarda nas décadas de 1960 e 1970, se tornaram objeto de consumo para a geração yuppie do final dos anos 1980. Débora focaliza seu interesse nos lofts do Downtown, antigos espaços fabris abandonados que se viram convertidos em espaços de efervescência estética e contracultural.

“Dos expressionistas abstratos aos artistas pop e os minimalistas”, escreve a autora, “a comunidade artística do Downtown fez explodir uma energia potencial latente de produção criativa que trazia a apropriação, a exploração e a valorização do contexto ambiental e material de acumulação histórica, social e cultural da região tanto como tema e matéria-prima quanto como identidade e estilo de vida.”

Fachadas de ferro fundido, imensas plantas livres, colunas salientes e grandes painéis de vidro banhados por rios de luz faziam da arquitetura dos lofts matéria-prima dessa energia artística. Eram cenário e fermento para uma nova consciência estética e uma nova forma de vida: a existência como acontecimento. Anti-funcionalista, o loft imiscuía trabalho, moradia e festa, negando o projeto positivista de organização e compartimentação da vida. “Constrói-se propriamente um estilo de vida ali, e esse estilo de vida, agora de forma explícita, é igualmente uma forma de arte”, explica Débora.

No filme Ghost (1990), o loft aparece como o objeto de desejo da geração yuppie – Foto: Reprodução

 

Esse modo de viver estetizado acabaria, como em toda história da arte, instrumentalizado para demonstrar poder e riqueza, continua a pesquisadora. O estilo de vida do artista se torna fator de diferenciação social e, com isso, os próprios lofts passam a ser objeto de desejo de um novo grupo, os yuppies, jovens adultos de classe média-alta originados da fritura econômica dos anos 1980. Assim, a valorização dos lofts acaba por expulsar os artistas, justamente os responsáveis por sua revitalização, e torna esses espaços residências de luxo, onde a arte vira apenas cenografia e memória.

“Há em curso um processo de consumo estético do bem-viver artístico que transforma em mercadoria a própria experiência existencial do indivíduo criativo e que vê a cidade como um gabinete de curiosidades em escala monumental”, escreve Débora. “Assim, o loft é isolado enquanto conceito espacial e produto imobiliário, aparecendo como uma nova tipologia habitacional oferecida em edifícios de alto padrão e sugerindo o estilo de vida do artista como uma nova identidade disponível ao consumo em um mercado em franca expansão.”

O design critica o design

As considerações artísticas sobre esse abocanhamento praticado pelo capital são o interesse do artigo de Marilia Solfa. A pesquisadora se debruça sobre a obra da artista estadunidense Andrea Zittel, que une arte e design de maneira irônica e provocativa. Suas séries de uniformes, tapeçarias e mobiliário são, ao mesmo tempo, herdeiros do desenho industrial estadunidense e comentários incômodos sobre o design e nossos desejos de consumo.

“É evidente que Zittel não teme a aproximação entre os universos da arte e do mercado. Ao contrário, ela constata a inevitabilidade dessa aproximação e passa a conceber e produzir seus trabalhos a partir dela”, escreve Marilia. Um dos exemplos dessa aproximação é a obra Comfort Unit, um móvel que reúne cama e estação de trabalho, e antecipa, ainda nos anos 1990, a questão do home office, tornada onipresente pela pandemia.

Comfort Unit, o mobiliário que reúne cama e estação de trabalho, antecipando o sonho (ou o pesadelo) do home office – Foto: Reprodução

 

Comfort Unit também evidencia a idealização social existente por trás do processo de cooptação do cotidiano pelo trabalho produtivo”, escreve a autora. “Ao fundir uma cama e uma estação de trabalho em um mesmo móvel, a proposta abre uma brecha para que o próprio tempo de descanso do usuário se torne produtivo. O ‘trabalho no conforto do lar’, embora idealizado pela sociedade, representa um preocupante processo de flexibilização e precarização do trabalho, impulsionado também pelo desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação. O home office, quando associado a altas metas de produtividade, ameaça suprimir a existência do tempo vago, dedicado ao ócio e à manutenção da própria vida.”

Assim, segundo Marilia, se o Comfort Unit materializa em um mobiliário as promessas de autonomia e liberdade do home office, também revela ao espectador/usuário a falha desse objeto e a ilusão de suas pretensões. Dessa forma, como em outras obras, Zittel constrói com sua cama/estação de trabalho uma reflexão dentro do próprio campo que deseja contestar. A artista imita os modos de ação do design para poder compreendê-lo e, na sequência, subvertê-lo.

“É a partir dessa aproximação que a artista investiga a existência de ‘brechas’ nesse sistema, onde busca plantar sua atuação”, escreve a pesquisadora. “Se a atuação do design contemporâneo, aliada aos campos da propaganda e da moda, busca construir a imagem de um mundo totalmente desenhado e programado, à artista cabe intervir nesse sistema investigando meios para que o espectador se confronte com sua própria realidade cotidiana e existencial, desnudando as contradições da sociedade do presente.”

De Oiticica ao Google

Espaço do Campus Café, no Google Campus São Paulo: mobiliário “criativo” para pessoas “criativas” – Foto: Reprodução

Outros artigos do volume espraiam a discussão e mostram que o Brasil não está desconectado dessa tensão entre arte e mercado. É o caso do texto de Rafael Goffinet, que discute os laboratórios de experiências criativas indo das experimentações de Helio Oiticica e Andy Warhol e chegando ao Google Campus São Paulo.

Segundo Goffinet, os laboratórios de experiências criativas, como o Google Campus, se inserem em um novo paradigma cultural, produtivo e subjetivo, que recontextualiza expressões como “experiência”, “criatividade” e “colaboração”, em pauta desde os anos 1960. “Antes elementos centrais para a crítica e promessas de transformação das relações de trabalho e de vida vigentes, [essas expressões] informam, hoje, as transformações discursivas ocorridas entre os campos da cultura e da economia, do lazer e do trabalho, em direção à constituição de novos circuitos hegemônicos de produção e de subjetivação.”

Enquanto Warhol, nos anos 1960, instalava em um loft de Manhattan sua The Factory – misto de ateliê e ponto de encontro de artistas, boêmios e outras figuras da contracultura –, Oiticica se preparava para, alguns anos depois, pensar colaboração, participação e a obra de arte inserida na vida em trabalhos como Babylonests – a transformação do seu apartamento em Nova York em uma “casa-obra”. Dois modelos de espaços arquitetados para o “estado de permanente invenção” buscado por Oiticica e cujos ecos capitalizados apareceriam no século 21 em conceitos como o Google Campus.

“A uma distância de cerca de cinco décadas das experimentações do artista”, escreve o pesquisador, “vemos como a defesa de estruturas abertas, germinativas, capazes de ativar o comportamento do público, ecoa as premissas de um novo contexto produtivo que exige dos indivíduos a capacidade de, como aponta Claire Bishop, ‘ser empreendedor, abraçar os riscos, procurar seus próprios interesses, performar suas próprias marcas e estar disposto à auto-exploração’.”

É uma ética empresarial da colaboração que se materializa, portanto, em espaços como o Google Campus São Paulo, situado próximo à Avenida Paulista, em um edifício de seis andares – quatro reservados para empresas residentes –, com espaço aberto para o público em geral e atividades variadas relacionadas ao mundo do empreendedorismo, como workshops, palestras, treinamentos e sessões de yoga. Para os frequentadores/clientes, é um espaço customizado com apelo visual e sensorial que, segundo Goffinet, evocam a Babylonests de Oiticica e a Factory de Warhol.

“A novidade é que, no Google Campus, a customização significa a conformação de um ambiente de trabalho positivo entre os empreendedores visitantes ou residentes, como se o sucesso da empresa, ou a capacidade produtiva individual, dependesse de um ambiente que estimule ou favoreça a interatividade e a sensação do ‘trabalho vivo’, isto é, menos como labor, pois criativo”, escreve o autor.

É dessa perspectiva, segundo Goffinet, que a multiplicação desses laboratórios de experiências criativas surge como a formação de novos circuitos de produção, responsáveis não apenas por dissolver os limites entre cultura e economia, mas também por gestar dispositivos de controle social e de subjetivação. “Momento em que o sonho de ‘viver e trabalhar como um artista’, como diria Bishop, é o pesadelo real de reduzir-se a uma ‘empresa autoadministrada’, escreve o autor.

Arte e Mercado: Afinidades Eletivas, de Ruy Sardinha Lopes (organização), Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporâneas (NEC) do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, 189 páginas. Disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.