Livro explora os antagonismos do maior militar do século 20

“O General Estadista – Douglas MacArthur e o Século Americano” destaca as nuances das ações do general

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O general Douglas MacArthur em 1945. Foto: Reprodução / Douglas MacArthur – O General Estadista

Cada nação tem seus ídolos – pessoas que, por seus feitos militares, atléticos ou políticos, abraçaram valores que moldam os princípios de um povo. Ainda que produções culturais não consigam reviver esses personagens em sua forma mais complexa, o estudo e a pesquisa da história podem propor quadros nítidos de suas ações. É o caso do livro O General Estadista – Douglas MacArthur e o Século Americano, de Sean Purdy, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que reconstrói o “mito” Douglas MacArthur em sua forma mais real. A obra integra a Coleção Entr(H)istória, que publica trabalhos de professores e alunos do Programa de Pós-Graduação em História Social da FFLCH, através da Editora Intermeios.

Para desvendar o general estadista, o professor Sean Purdy mergulhou nos registros sobre a vida de MacArthur. Documentos oficiais, escritos do próprio general, memórias de seus oficiais e artigos foram a base primária da pesquisa. Mas, para entender um oficial do século 20, é necessário entender o país onde ele está inserido. Por isso, o contexto norte-americano, em meio às duas Guerras Mundiais e à Guerra Fria, é objeto de estudo secundário da obra. Assim, a pesquisa se amplia para revistas, biografias e artigos que discutem espaço, tempo e cenário em que MacArthur atuou.

Fuzileiros navais norte-americanos, nas Ilhas Solomão, em janeiro de 1944. Esses soldados foram essenciais para a tomada de ilhas durante as campanhas no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial – Foto: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”

Douglas MacArthur nasceu para fazer carreira militar, literalmente. Filho do herói da Guerra de Secessão (1861-1865) Arthur MacArthur Jr., ele nasceu em 26 de janeiro de 1880, na base militar de Little Rock, no Arkansas, nos Estados Unidos, onde o pai era capitão de infantaria. Os relatos de MacArthur contam a forte influência de seus pais para que seguisse os passos da família. Mudando constantemente de casa devido ao fato de o pai ser designado para diferentes postos, MacArthur frequentou escolas militares pelos Estados Unidos, onde começou a trilhar uma carreira de destaque.

Ele se formou em 1903 na Academia Militar dos Estados Unidos, de West Point, com notas máximas em disciplinas acadêmicas, ocupando o pódio dos melhores alunos da história do colégio. Começa então uma carreira sinuosa, em que MacArthur demonstra genialidade em manusear seu talento militar, sua rede de contatos e sua habilidade como figura pública.

Primeira: Brigadeiro-General MacArthur, Château St. Benoit, França, 19 de setembro de 1918. Segunda: Chefe do Estadi-Maior, Douglas MacArthurm 1932. Terceira: Estátua de MacArthur na entrada do MacArthur Memorial, Norfolk, Virginia, 1996. Fotos: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”
Fuzileiros Navais sob fogo durante a Batalha por Saipan, Ilhas Marianas, Junho de 1944. Foto: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”
Jean MacArthur, esposa do general, com o presidente Ronald Reagan e a primeira-dama Nancy Reagan, na inauguração do corredor general Douglas MacArthur no Pentágono, 1981. Foto: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”
MacArthur aportando na praia da ilha de Leytem cumprindo sua promessa de voltar às Filipinas, outubro de 1944. Uma das mais famosas imagens da guerra, feita pelo fotógrafo pessoal do general, o capitão Gaetano Faillace. Foto: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”
MacArthur inspecionando o 24 Regimento de Infantaria, Kimpo, Coreia, fevereiro de 1951. Foto: Reprodução / “Douglas MacArthur – O General Estadista”

Antes de enfrentar campos de batalha e treinar soldados, MacArthur trabalhou na capital norte-americana, Washington, onde aprendeu bem o jogo político. Atuando ao lado do presidente americano Woodrow Wilson, foi o primeiro porta-voz das Forças Armadas, em 1916. Em meio à Primeira Guerra Mundial, ele precisava defender, ou melhor, vender para o público e para a mídia a importância do alistamento obrigatório no períodos de guerra. No cargo, MacArthur caiu nas graças de jornalistas e de seus superiores, por executar bem sua tarefa.

Alguns episódios militares são fundamentais para entender sua carreira, como sua atuação na França, entre 1918 e 1919, e o período em que atuou como marechal do exército filipino, entre 1935 e 1941.

O debute em confronto armado de MacArthur se deu em Lunéville, na França, no início de 1918. No posto de brigadeiro-general, segundo no comando da Divisão 42, formada e treinada por MacArthur, o militar começa a demonstrar sua personalidade em campo. “Foi na Primeira Guerra Mundial que MacArthur desenvolveu um complexo paranoico, culpando colegas ‘inimigos’ pelos obstáculos enfrentados nas suas operações militares e na sua carreira”, analisa Sean Purdy.

O comandante ainda usava de excentricidades para se destacar, como o uso de uniformes “não-ortodoxos”, táticas de guerra individualistas e até mesmo ofuscar companheiros de comando, atribuindo para si toda a glória de uma conquista. Estratégias ofensivas, com manobras flexíveis de infantaria, foram efetivas para vitórias de prestígio, ainda que custassem a vida de milhares de soldados americanos, ao mesmo tempo em que lhe renderam  popularidade dentro e fora das Forças Armadas.

O seu desempenho na França rendeu frutos no futuro. “Esse sucesso foi crucial para a carreira de MacArthur e o ajudou a chegar ao cargo de chefe do Estado-Maior uma década depois”, aponta Sean Purdy. Seu mandato foi controverso, sendo chamado de “tirano” pela mídia, por esmagar uma manifestação de 40 mil veteranos de guerra, com gás lacrimogêneo e tanques de guerra.

Após seu mandato no cargo militar mais alto dos Estados Unidos,  foi enviado para as Filipinas, como marechal do exército filipino, por seis anos. Nesse período, o historiador destaca inúmeras “rivalidades pessoais e profissionais” entre o marechal e outros oficiais.

MacArthur era levado por interesses pessoais, poder e privilégios. Sobre as várias cartas que enviou para Washington, exagerando o progresso de seu exército, Sean Purdy faz menção ao historiador Richard Frank, para quem era comum o general “anunciar o estado de coisas que ele desejava, ao invés de como eram”.

Capa de O General Estadista – Douglas MacArthur e o Século Americano, de Sean Purdy – Foto: Reprodução

Na primeira metade do século 20, a figura militar tinha forte atuação política. A experiência militar era essencial para uma carreira no governo, assim como contatos e vínculos políticos eram fundamentais para uma ascensão militar. Por isso é impossível entender MacArthur sem entender o governo americano.

“Ao longo do livro, há uma tentativa de colocar MacArthur dentro de contextos históricos particulares para mostrar sua atuação frente a forças históricas mais amplas, em especial a expansão do capitalismo e imperialismo norte-americano”, explica Purdy sobre sua obra.

Por isso, decisões militares, estratégias e até o narcisismo de MacArthur são discutidos do ponto de vista histórico. Como mostra Purdy, o patriotismo e o heroísmo em frentes de batalha, as táticas de guerra infalíveis e a defesa dos ideais americanos classificam o general como um protagonista bem-intencionado. Por outro lado, os muitos desentendimentos com superiores, declarações mentirosas, atitudes sinuosas e excentricidades demonstram sua personalidade egoísta e ambiciosa.

Purdy desmonta a imagem maniqueísta do militar vilão ou herói, e põe lado a lado em sua narrativa atitudes e motivações na carreira militar, política e até mesmo como homem. Além disso, por entendê-lo sob a ótica de ser o produto do contexto em que vive, a figura de MacArthur se expande e se torna um elemento integrador de um mundo em guerra.

O General Estadista – Douglas MacArthur e o Século Americano, de Sean Purdy, Editora Intermeios, 182 páginas.

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