Livro traz realidades que marcam a história política contemporânea

O recém-lançado livro “Tempos de Guerra e de Paz” reúne artigos que enfatizam o desafio por ética e justiça hoje

Por - Editorias: Cultura
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Desenho de Lasar Segall para capa do caderno Visões da Guerra (1940-1943) – Acervo do Museu Lasar Segall / Reprodução

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“A guerra sempre foi uma questão fundamental para a humanidade, e o sonho de paz sempre a acompanhou identificado com o pensamento de grandes personalidades, como Gandhi, Albert Einstein, Sigmund Freud, John Lennon e Martin Luther King, para citar alguns.” É essa questão que permeia a trajetória do mundo que a historiadora e professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investiga e busca refletir com o leitor na organização do livro Tempos de Guerra e de Paz: Estado, Sociedade e Cultura Política nos Séculos XX e XXI, que acaba de ser lançado pela Editora Humanitas.

Lasar Segall, desenho original do caderno Visões da Guerra (1940-1943) – Acervo do Museu Lasar Segall / Reprodução

O livro, dividido em quatro capítulos, reúne trabalhos de filósofos, historiadores, cientistas sociais e críticos de arte e literatura do Brasil e do exterior. “O livro pretende dar visibilidade aos conteúdos e aos debates que fizeram parte do Colóquio Internacional Tempos de Guerra e Paz: Estado, Sociedade e Cultura Política nos Séculos XX e XXI, apresentado em 2011”, explica Maria Luiza. “O evento foi organizado pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da FFLCH, em parceria com a Universidade de Coimbra, Universitá degli Studi di Bologna, a Universidade de Vigo e o Museu Lasar Segall de São Paulo.”
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A violência continua a obstruir o diálogo entre as civilizações, da mesma forma como a xenofobia, o racismo e o nacionalismo exacerbado.

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Maria Luiza destaca que guerra e paz não são temas ficcionais. “São realidades que marcam a história política contemporânea, configurando que, embora em momentos distintos, tanto uma como a outra não são eternas”, ressalta. “Tendo em vista os diferentes contextos político e social vivenciados por todas as nações, podemos afirmar que o equilíbrio ainda é precário. A violência continua a obstruir o diálogo entre as civilizações, da mesma forma como a xenofobia, o racismo e o nacionalismo exacerbado continuam a minar as possibilidades de convivência pacífica.”

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Lasar Segall, desenho original do Caderno Visões da Guerra (1940-1943) – Acervo do Museu Lasar Segall / Reprodução

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A edição é aberta com o tema Mecanismos de violência e controle da repressão, conformismo e resistência em tempos de totalitarismo, autoritarismo e democracia. O professor Mirco Dondi, da Universidade de Bologna, faz uma análise sobre os instrumentos de controle e de ação da Guerra Fria, na Itália, analisando o período de 1945 a 1974. “A estratégia de provocar tragédias, de inspiração fascista, e as ameaças de golpe de Estado não são fenômenos estranhos às instituições, mas provêm parcialmente destas e, quando não são idealizadas por estruturas ligadas ao Estado, os altos oficiais se preocupam em ocultá-las, encobrindo a sua natureza, como aconteceu com o atentado do trem Flecha do Sul e o assassinato dos carabineiros em Peteano.”

A análise de Heloísa Paulo, historiadora da Universidade de Coimbra, em Portugal, sobre a resistência e a ação política no exílio em Portugal de 1940 a 1947 é outro artigo que traz subsídios para a compreensão da história política e social do mundo contemporâneo. “O advento da ditadura militar em Portugal deu início à diáspora de uma plêiade de exilados e emigrados políticos, que buscavam no exterior espaço seguro para continuar a sua luta pelo retorno da democracia em Portugal. Durante 48 anos, países como Espanha, França, Marrocos, Estados Unidos, Venezuela e Itália acolheram sucessivas levas de refugiados que escapavam do regime de força implantado em Portugal.”

Maria das Graças Andrade Ataíde de Almeida, professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, escreve o artigo A outra face do espelho: cotidiano, mulher e resistência em tempos de autoritarismo, em que faz uma análise detalhada sobre a descrição da polícia política sobre as mulheres ditas “subversivas”. E destaca o perfil de Adalgisa Cavalcanti no discurso endossado pela polícia política sobre o papel da mulher como agente social.
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Lasar Segall, Estudo para campo de concentração (1945) – Acervo do Museu Lasar Segall / Reprodução

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Em tempos de cercas de arame farpado barrando fronteiras, que ferem na carne, as histórias de imigrantes parecem mais próximas da guerra do que da paz.

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Políticas imigratórias e o papel do Estado: conflitos de identidade. Assimilação e integração é outro tema do livro que incita ao questionamento e à reflexão. Os artigos apresentados tratam da realidade das migrações no Brasil. No texto, Mirian Silva Rossi e Sedi Hirano – respectivamente doutora em História Social e Professor Emérito, ambos da FFLCH – investigam as histórias de imigrantes em tempos de guerra e paz.
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Lasar Segall, desenho do caderno Visões da Guerra (1940-1943) – Acervo do Museu Lasar Segall / Reprodução

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“O registro dos dramas vivenciados por aqueles que buscaram a paz em países das Américas é testemunho dos trágicos eventos que marcaram para sempre o século 20 e os protagonistas que deles fizeram parte. Essa é uma nódoa que não se apaga nem da história nem da memória”, consideram. “O que é impossível calar, mistificar e entender é que todo o sofrimento, todas as dores excruciantes, todo o cortejo de calamidades que atingiram uma parte da humanidade não foram suficientes para evitar que retornem.”

Mirian e Hirano consideram que o século 21 revive as iniquidades do século 20, quando as liberdades individuais foram tolhidas e milhões de pessoas procuram refúgio que lhes é negado. “Em tempos de cercas de arame farpado barrando fronteiras, que ferem na carne, as histórias de imigrantes parecem mais próximas da guerra do que da paz.”

Tempos de Guerra e de Paz: Estado, Sociedade e Cultura Política nos Séculos XX e XXI, organizado por Maria Luiza Tucci Carneiro. Editora Humanitas, 366 páginas. Preço: R$ 60,00 (encontrado com desconto na Editora Humanitas).

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