As justificativas para a censura da arte são as mais variadas possíveis, mas uma dica é que elas costumam estar relacionadas à defesa da moral e dos “bons costumes”. Só no Arquivo Miroel Silveira, são mais de 6 mil processos de censura prévia no teatro aplicados entre 1930 e 1970 no Estado de São Paulo.
A análise desse arquivo deu origem ao projeto Censura em Cena, ligado ao Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Nesta quarta-feira, dia 6 de dezembro, às 19h30, no Teatro da USP (Tusp), o núcleo de pesquisa lança o livro Leituras e Releituras, que reúne ensaios sobre sete dessas peças teatrais censuradas.
Coordenadora do Obcom, a professora Maria Cristina Castilho Costa está entre os autores dos ensaios. Ela lembra que este é um momento importante para colocar a censura em pauta, considerando os recentes ataques que tiveram como alvo a produção artística no Brasil.
“Faço um ensaio sobre O Poço, de Helena Silveira, peça baseada em um crime que aconteceu na cidade de São Paulo”, diz a professora. Segundo ela, a censura dessa obra foi justificada porque o acontecimento “constrangeu” a cidade, mas em realidade seria porque a peça mostra que o crime foi resultado de opressão familiar.
Outras peças que são tema de análise incluem as obras do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, um teatro que abria espaço para a cultura afro-brasileira, mas que teve uma peça censurada com a alegação de que incitava ao racismo. Outro trabalho é sobre a peça Filha Moça, de Augusto Boal, em que o dramaturgo apresenta temas como a sexualidade feminina e denuncia as desigualdades sociais.
O lançamento de Leituras e Releituras será acompanhado da leitura dramática da peça Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki. A escolha do texto procura resgatar essa obra clássica no aniversário dos cem anos da Revolução Russa.
Segundo a professora, a opção por essa peça também é importante porque, para ela, a guerra ideológica que marcou o período da Guerra Fria ainda estaria presente através das censuras que continuam a atingir a arte.
A leitura de Pequenos Burgueses será realizada em conjunto com alunos de Artes Cênicas que participam do grupo de estudos do Obcom, sob direção de Roberto Ascar. Em seguida, a interpretação da peça será comentada pela professora da ECA e dramaturga Renata Pallottini.
O livro Leituras e Releituras, publicado pelo Instituto Palavra Aberta, será distribuído gratuitamente ao público durante o evento.
Encenação das palavras
As leituras dramáticas têm acompanhado o projeto Censura em Cena desde o início, a partir da seleção de 14 peças pertencentes ao Arquivo Miroel Silveira. As obras também foram tema de trabalhos acadêmicos, iniciativa feita em parceria com o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.
Para a professora Cristina, as leituras dramáticas são um modo de dar vida às problemáticas que existem nessas obras censuradas. “A encenação traz impacto, valoriza o texto”, lembra.
O Arquivo Miroel Silveira é fonte de pesquisas na ECA desde 2001. Sua origem remonta ao próprio Silveira, ex-professor da instituição, que em 1988 recolheu os documentos do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo destinados à destruição, após o fim da censura oficial.
Depois da morte do professor, em 1988, as peças e processos foram alocados na biblioteca da ECA, mas só começaram a receber tratamento para consulta em 2000.
O lançamento de Leituras e Releituras, acompanhado da leitura dramática de Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, acontece nesta quarta-feira, dia 6 de dezembro, às 19h30, no Teatro da USP, o Tusp (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, São Paulo). O evento é gratuito.