Jean-Claude Bernardet se desconstrói diante das câmeras

No filme “A Destruição de Bernardet”, o crítico e professor da USP reflete sobre suas perspectivas de vida

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=194050
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O professor Jean-Claude Bernardet: “Faço tudo que eu posso para não me levarem a sério” – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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“Jean-Claude é uma referência no pensamento e na reflexão do cinema no Brasil desde os anos 60. Se você quer entender o cinema brasileiro, é incontornável se debruçar sobre os livros e as reflexões que ele produziu. Porém, de uns tempos para cá, ele abriu mão de ser um pensador para investir na carreira de ator. Ele está atuando em filmes que ninguém sabe sequer da existência. Eu vejo uma decadência irreversível e muito triste no que o Jean-Claude Bernardet tem feito nos últimos anos em relação a cinema.”

Essas são frases ditas numa voz em off, em tom provocativo, na primeira cena do filme A Destruição de Bernardet, em cartaz nos cinemas em várias capitais brasileiras. O longa-metragem estreou internacionalmente em Locarno, na Suíça, e, no Brasil, no Festival de Brasília, e já recebeu prêmios de melhor direção e melhor interpretação no Festival Mix Brasil.

Numa mistura de ficção e biografia, o próprio Jean-Claude Bernardet – crítico, pensador de cinema, roteirista, diretor, autor de livros referenciais e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – conta que deixou de lado o pensador para se fixar na expressão do corpo. Há mais de dez anos, aos 70 anos de idade, ele resolveu se dedicar à carreira de ator, em longas e curtas experimentais dirigidos por jovens realizadores. Caso deste filme, A Destruição de Bernardet, dirigido por Pedro Marques e Claudia Priscilla, que assina também o roteiro, ao lado do seu marido, o cineasta mineiro Kiko Goifman.

A ideia nasceu num jantar na casa da diretora, em que estava Jean-Claude Bernardet. Mas o filme não poderia ser de entrevistas e tão pouco laudatório, mas um registro de memória, como conta Claudia. “O argumento era destruir o mito de Bernardet como crítico e professor para abrir uma brecha na tentativa de mostrar o Bernardet humano”, afirma. O projeto tomou forma a partir de outro longa, Vestido de Laerte (2012), dos dois diretores, que tinha como proposta a memória construída. Na nova produção, como Pedro Marques diz, trata-se de um filme ao redor das memórias de Bernardet..

Jean-Claude Bernardet com os diretores de A Destruição de Bernardet, Claudia Priscilla e Pedro Marques – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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“Ele borra as fronteiras do documentário e da ficção, sem compromisso com o gênero, na mesma linha de Vestido de Laerte”, diz Claudia. E Bernardet continua: “De início, reagi e tive um pouco de medo, mas quando assisti a Vestido, e depois de uma conversa decisiva com Laerte, aceitei fazer o filme”. A diretora ainda ressalta que o filme está um tom acima da possibilidade do real. “Ele vai se descolando da realidade.” As filmagens foram feitas no período de um ano, com mudanças, algumas até realizadas na montagem, o que dava tempo para rever e criar durante a produção, como relata Claudia.

É nesse jogo entre ficção e realidade que Bernardet fala sobre suas perspectivas de vida, sua superação em relação à Aids – ele descobriu a doença nos anos 80, quando não havia coquetel, e sobreviveu a uma forte meningite -; sua sensação de não pertencimento ao Brasil, apesar de ser naturalizado brasileiro; a reintegração ao quadro docente da USP, depois de ser anistiado por sua atuação durante a ditadura; e suas incursões como ator, as quais ele define com uma frase: “Faço tudo que eu posso para não me levarem a sério”.

Fala ainda sobre a questão do envelhecimento e da longevidade e critica duramente a indústria farmacêutica e os grandes laboratórios, afirmando que a forma mais radical de resistência a essa “máquina da medicina”, como ele chama, seria o suicídio assistido – na opinião de Kiko Goifman, um suicídio performático. É quase uma despedida.
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Na foto, um cartomante lê a sorte de Bernardet, dizendo que ele está em um momento de despedida - Foto: Divulgação
Bernardet em uma atividade cotidiana, em seu apartamento no centro de São Paulo - Foto: Divulgação
Em uma das cenas, Bernardet treina sua voz com a cantora Cida Moreira - Foto: Divulgação

A tecla play

Porém, ao mesmo tempo em que parece se despedir, Bernardet sente a vontade de recomeçar, como ele diz, poeticamente, num trecho do filme: “Pus a fita cassete no gravador. Basta eu apertar a tecla play para que saia um som, provavelmente da minha voz, em época anterior, que eu ignoro. Se eu não apertar a tecla play, o que acontece? Esse gravador se transforma em um caixão e o cadáver que está dentro desse caixão é a minha voz de uma certa época. Se eu apertar a tecla play, eu posso fazer ressuscitar essa voz. Se eu me perguntar: você está com vontade de ressuscitar a sua voz? Minha resposta será, claramente: não. E, no entanto, a probabilidade é que eu venha a apertar a tecla play”.

Bernardet registrou um documento em cartório atestando não querer uma vida mantida artificialmente, com procedimentos, exames e cirurgias que não tragam benefícios claros – documento redigido por um médico e assinado por Bernardet e pela filha, senão não teria validade.

Mas Bernardet trata da vida, de se reinventar como ator. Trabalhar com os novos diretores, para ele, significa uma longevidade criativa e renova a sua vida. “Dizem que os diretores estão me usando, mas é exatamente o contrário”, afirma no filme.

A Destruição de Bernardet mostra ainda um Bernardet cético, que diz que “amor não existe, bondade não existe”, palavras, segundo ele, muito abstratas, que têm muitos significados. Apresenta um Bernardet performático, que gosta de situações-limite, de desafios ou, como diz sua filha em uma gravação, que gosta do tipo de filme que perturba as pessoas. Talvez este seja um filme que perturba, que deixa reticências e dúvidas sobre o que é realmente verdade e o que é apenas ficção. E a conclusão é do próprio Bernardet, que se apropria da fala de uma cineasta argentina: “A genialidade da vida está no caráter passageiro, no efêmero”.

O documentário A Destruição de Bernardet (Brasil, 2018, 72 min), de Claudia Priscilla e Pedro Marques, está em cartaz em circuito nacional. A trilha sonora é de Livio Tragtenberg e no elenco estão o próprio Jean-Claude Bernardet, Cida Moreira, Cristiano Burlan, Francisco César Filho, Kiko Goifman, Tata Amaral e outros. Mais informações na página do filme no FacebookVeja o trailer aqui

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