“Isto aqui é uma ação contra o sistema”, diz KL Jay na USP

Evento no Instituto de Estudos Avançados debateu as potencialidades da dança e da música na periferia

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O DJ KL Jay e a rapper Karol Conka participaram da mesa Sons que ecoam na periferia, no evento Centralidades Periféricas, no dia 25 de março, organizado pela Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da USP ─ Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Na segunda-feira passada, dia 25, a Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da USP promoveu um dia inteiro de programação para refletir sobre as produções de dança e música na periferia. O evento fechou o ciclo Centralidades Periféricas, que ao longo de cinco encontros buscou promover discussões através do contato entre agentes culturais intimamente ligados à periferia e acadêmicos.

Os debates ficaram marcados também por comporem o último evento da educadora e ativista social Eliana Sousa Silva como titular da cátedra. Idealizadora do ciclo, Eliana reforçou em sua fala de abertura que o Centralidades Periféricas é uma provocação no sentido de se pensar a periferia a partir de suas potências, que muitas vezes são tornadas invisíveis..

Participantes da mesa de debate Expressões de corpos periféricos na cidade ─ Foto: Marcos Santos / USP Imagens.

Com certo atraso por conta de problemas técnicos, já eram quase 10 horas quando todos se acomodaram para a primeira mesa de debate. A dinâmica que se repetiu ao longo do dia foi de pequenas apresentações individuais, para então abrir a conversa ao público. Assim, o evento se iniciou dando voz aos dançarinos presentes para exporem suas vivências. “Eu não estudei em universidade, mas me sinto extremamente apto a estar aqui em nome da ‘universidade da vida’, a periferia é o meu ambiente de ensino”, contou o bailarino e coreógrafo Rubens Oliveira.

Única mulher negra da mesa, a pedagoga e dançarina Renata Prado reforçou como é imprescindível relacionar as questões raciais e de classe no momento em que se discute o porquê de o funk ser visto como arte subalterna. “A mulher no funk, quando esboça sua sensualidade, está comungando a arte, mas seus corpos são erotizados a tal ponto que a arte acaba por ficar em segundo plano”, disse Renata.

Já no final da mesa, em discussão com o público, ao refletir sobre o papel da universidade frente à cultura periférica, Lia Rodrigues, cofundadora do Centro de Artes da Maré, no Rio de Janeiro, apontou que a universidade não é o único lugar do saber para a dança, embora tenha papel importante. “O mundo não é feito apenas de doutores. As falas sobre experiências pessoais postas aqui valem tanto quanto uma tese de doutorado”, disse..

As reverberações da música produzida na periferia foram o tema da segunda metade do evento ─ Foto: Marcos Santos / USP Imagens.

Durante a tarde, a proposta foi prosseguir com o diálogo, porém transferindo a temática para o âmbito da música. Com a presença de nomes famosos como a rapper curitibana Karol Conka e o DJ KL Jay, do consagrado grupo Racionais MC’s, o público presente aumentou consideravelmente.
Um dos maiores representantes nacionais no que diz respeito ao hip hop, KL Jay abriu sua fala reforçando como esse gênero musical mudou e ainda muda a realidade de uma população que estava fadada pela sociedade a fracassar. Ele também reforçou a importância da atuação da universidade em locais periféricos, para que haja um real estímulo e incentivo aos jovens dali, que são diariamente bombardeados com a ideia de que não podem frequentar o espaço universitário. “Sempre fugi da universidade porque não era um ambiente onde eu me enxergava, eu não estava naquele padrão”, contou a rapper Karol Conka.

Ao final das discussões, os presentes ainda tiveram a oportunidade de assistir à apresentação de KL Jay ─ Foto: Marcos Santos / USP Imagens

“Não basta que o conhecimento periférico ocupe a universidade como objeto de estudo. A universidade progride conforme a periferia ocupa seus bancos”, complementou Acauam Oliveira, professor da Universidade de Pernambuco (UPE).
A mesa foi encerrada numa conversa com o público, em que KL Jay comentou sobre a entrada na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp do livro Sobrevivendo no Inferno – baseado no disco de mesmo nome do Racionais MC’s -, e como isso retrata toda uma gama de ideais com potencial para desestabilizar a estrutura excludente para a periferia sobre a qual se monta o Estado. “Cada um de nós que não concorda com a máquina estatal tem o potencial de transformação. A nossa única solução é lutar. Isto aqui é uma ação contra o sistema”, concluiu.

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