Inteligência artificial ganha e-book multidisciplinar

Livro trata da pluralidade da presença das IAs em nossa vida, com discussões sobre ética e tecnologia

 24/09/2021 - Publicado há 1 mês
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Disponível gratuitamente, e-book reúne contribuições multidisciplinares sobre inteligência artificial – Foto: Divulgação

 

Vão-se quase 40 anos das meditações existenciais do agente Deckard durante sua caçada neonoir aos replicantes de Blade Runner. Passaram-se também mais de 50 anos desde que o astronauta David Bowman encarou a morte na lente escarlate e na voz polida do supercomputador HAL 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço. E quase cem anos que as ruas de Metropolis viram o surgimento da Maschinenmensch, a ginoide de Rotwang.

A dança da humanidade com a inteligência artificial (IA) é antiga e os exemplos cinematográficos acima são apenas pixels isolados na imensa tela do desejo humano pela máquina pensante. Fabulosos, é claro, mas a cada dia mais ao alcance das mãos. Um pouco do que atualmente se faz e se espera das IAs acaba de aparecer no e-book Inteligência Artificial: Avanços e Tendências, organizado pelos professores Fabio Cozman, da Escola Politécnica da USP, Guilherme Ary Plonski, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, e Hugo Neri, pós-doutorando a Politécnica. A obra está disponível gratuitamente no Portal de Livros abertos da USP.

O volume é obra do IEA em parceria com o Centro de Inteligência Artificial (C4AI) da USP, com apoio da Fapesp e da IBM Corporation. Reúne uma coleção de artigos interdisciplinares que fazem o diálogo entre as ciências da computação e as humanidades. O escopo amplo é a tentativa – escrevem os organizadores – de passar a mensagem de que a principal tendência hoje da inteligência artificial é ser ubíqua.

Para isso, o livro se reparte em quatro seções. Na primeira, textos introdutórios discutem as definições de inteligência artificial e apresentam o histórico acadêmico do tema no Brasil. Conforme escrevem Neri e seus colaboradores, os números das pesquisas em IA feitas no País são animadores. De acordo com levantamento da Fapesp divulgado em maio de 2020, a produção acadêmica brasileira é a 12ª maior do mundo na área. Só em 2018 foram 1.236 publicações com participação de pesquisadores do País. Das instituições nacionais, a maior produção, entre 2014 e 2018, é da USP, seguida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Desde 2011 até os dias atuais”, escrevem os autores do artigo, “o acesso a grandes quantidades de dados, aliado à disponibilidade de computadores mais potentes e acessíveis e ao uso de técnicas de aprendizado de máquinas, tem sido aplicado com sucesso a muitos problemas, em todos os aspectos da economia. Agora a IA se estabeleceu, conquistando um mercado significativo, impulsionando o progresso e as pesquisas na área. Nesse período, o aprendizado de máquina, especialmente impulsionado pelo aprendizado profundo, revolucionou a IA e atingiu desempenho superior ao humano em várias áreas, do reconhecimento visual de objetos a jogos complexos.”

Foto: Piqsels

 

A segunda parte do e-book traz reflexões sobre ética e estética no âmbito da inteligência artificial. São discussões sobre a moral das máquinas e a elasticidade da ética quando os algoritmos entram em cena, os limites entre humano e artificial e as transformações pelas quais a noção de arte se depara quando é um computador o apreciador estético.

Para Teixeira Coelho, Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e autor de um dos textos da seção, as questões sobre a ética do computador vêm sendo mal formuladas. Partindo do exemplo de uma pesquisa divulgada na revista Nature sobre carros autônomos, Coelho critica a ênfase na “moral do algoritmo” e lembra que, antes de qualquer programação, é a ética do ser humano que comanda a relação com a máquina. “O ponto nevrálgico”, escreve, “é a insistência na ideia da separação entre o ser humano, de um lado, e a tecnologia, de outro.”

Por sua vez, os artigos da terceira parte são dedicados às ciências de maneira geral, com contribuições vindas tanto das exatas quanto das humanas. Uma das discussões, instigada pela doutora em Sociologia pela USP Veridiana Domingos Cordeiro, se debruça nos desafios que o avanço tecnológico trouxe para a sociologia. Para Veridiana, cabe à disciplina estudar não somente como os indivíduos usam a tecnologia ou como ela afeta a própria atuação dos sociólogos, mas refletir sobre a conceituação desse novo mundo surgido com o galope da digitalização da vida.

Pensar sociologicamente o mundo contemporâneo”, escreve a pesquisadora, “envolve um esforço de repensar o modo como o concebemos e quais abordagens seriam mais adequadas para abarcar uma realidade em que agentes humanos, agentes não humanos e artefatos (todos eles, em alguma medida, actantes) interagem multiplamente sem barreiras espaçotemporais com capacidade de se mútuo moldar.”

Por fim, a última seção mergulha nas ciências sociais aplicadas, com mais discussões sobre ética, uma abordagem das IAs e o direito e textos sobre startups e políticas públicas, finanças e marketing e o potencial da inteligência artificial no mercado varejista.

Foto: Pxfuel

 

No que tange às aplicações da inteligência artificial ao direito”, escrevem o professor da Faculdade de Direito da USP Juliano Maranhão e seus colaboradores, “esse processo de adaptação envolve tanto o uso das ferramentas de inteligência artificial pelos profissionais do direito quanto o aproveitamento de seu conhecimento para a construção de sistemas computacionais que sejam capazes de realizar suas atividades de tratamento de dados de formas compatíveis com a lei.”

Para os organizadores do volume, toda essa discussão ainda se insere na fase de uma inteligência artificial restrita, projetada para lidar com problemas específicos, como ganhar de humanos em jogos de estratégia ou operar reconhecimentos faciais. O horizonte é uma inteligência artificial geral, um projeto que por enquanto só existe no papel. Nela, máquinas autônomas desempenhariam ações inteligentes, mais próximas dos seres humanos, teriam memória associativa forte, capacidade de reação ao inesperado em ambientes complexos e poder de julgamento. Segundo especialistas, esse é um mundo que pode surgir ainda neste século. Mais ou menos como imaginaram Kubrick, Scott e outros cineastas visionários.

Inteligência Artificial: Avanços e Tendências, de Fabio Cozman, Guilherme Ary Plonski e Hugo Neri (organizadores), Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, 414 páginas. O livro está disponível gratuitamente no Portal de Livros abertos da USP.


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