Instituto de Estudos Brasileiros destaca a literatura de cordel

Acervo da USP conta com mais de 4 mil volumes do gênero literário mais popular do Nordeste

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Literatura de cordel – Foto: Cecilia Olliveira – Flickr

Instituto de Estudos Brasileiros destaca a literatura de cordel

Acervo da USP conta com mais de 4 mil volumes do gênero literário mais popular do Nordeste

Por Claudia Costa
18/11/2020

A literatura de cordel chegou ao Brasil no século 18 através dos portugueses – ganhou esse nome porque os folhetos eram expostos amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas – e foi responsável pela difusão da arte folclórica, principalmente no Nordeste. Através de versos e rimas, o poeta compõe uma literatura popular absorta em elementos culturais que narram o cotidiano, com temas que vão da política e da religião até milagres e disputas. Para homenagear o Dia do Cordelista, comemorado em 19 de novembro, a série Acervos do Mês, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, destaca o seu vasto acervo de literatura de cordel, que reúne documentos de diferentes períodos, advindos de doações avulsas e de pesquisas realizadas durante o período de 1968 a 2004.

A coleção do IEB reúne mais de 4 mil documentos de autores expressivos da literatura de cordel, como Leandro Gomes de Barros, considerado o primeiro escritor brasileiro do gênero, além de carregar também o título de Maior Poeta Popular do Brasil. Além disso, presta homenagem ao escritor Arievaldo Viana, autor do livro Leandro Gomes de Barros: O Mestre da Literatura de Cordel – Vida e Obra, que faleceu neste ano. Como está escrito na página do IEB: “Ele estará para sempre referenciado em nossos acervos dedicados à literatura de cordel e em nossos corações”.

O público pode acompanhar outras coleções do catálogo (o link leva à referência do documento). Da coleção de Flávio Motta são listados 150 documentos, entre eles, o folheto A Mulher que Virou Cobra por Zombar de Frei Damião, de Pedro Bandeira Pereira de Caldas, impresso pela Editora e Folhetaria Luzeiro do Norte, e História da Princesa Cristina, de João Martins de Athayde, com ilustrações de José Stênio Silva Diniz, datado de 4 de novembro de 1973 e publicado pela Tipografia São Francisco, ambos impressos em Juazeiro do Norte.

De Gilmar de Carvalho, narrador das tradições populares do Ceará e do Nordeste que está se preparando para lançar no próximo ano o livro Poéticas da Voz – Aboios, Benditos, Cantoria, Cordel, Emboladas, Loas, Saraus, Torém, Trovas, pode ser encontrado no acervo do IEB, por exemplo, o folheto de oito páginas Raul Seixas – A saga do Maluco Beleza (2000), integrante da Coleção Cordel Sempre Vivo.

Capa do livro Leandro Gomes de Barros: o Mestre da Literatura de Cordel – Vida e Obra, de Arievaldo Viana – Foto: Arquivo IEB-USP

Com mais de 150 documentos, a coleção de José Saia Neto inclui vários folhetos, como História de Rosa Branca – ou a Filha do Pescador, com 40 folhas, impresso pela Editora José Bernardo da Silva, de Juazeiro do Norte, e A Mulher de Quatro Metros que Anda de Feira em Feira, com autoria e ilustrações de Enéias Tavares dos Santos (Editora e Agência de Folhetos Casa do Trovador Rodolfo Coelho Cavalcante, 1974, Aracaju).

O escritor Valdomiro Silveira (no centro), 1937 – Foto: Arquivo IEB-USP/Fundo Valdomiro Silveira

Já a coleção da antropóloga Ruth Brito Lemos Terra reúne quase 500 obras, entre elas o folheto de dez páginas A Visão Misteriosa – O Homem que Dormiu 100 Anos, de 1974, de autoria de João Cordeiro de Lima (Editora Manoel Caboclo e Silva, de Juazeiro do Norte) e Antonio Conselheiro: o Santo Guerreiro de Canudos, de Rodolfo Coelho Cavalcante, com ilustrações de José Soares da Silva (Editora e Agência de Folhetos Casa do Trovador Rodolfo Coelho Cavalcante, 1977).

Há também obras avulsas, incluindo outros 1.600 folhetos. Destaque para a série intitulada A Chegada de Lampeão no Inferno / Continua – A Triste Sorte d’uma Meretriz, de José Pacheco da Rocha, com ilustrações atribuídas a Damásio Paulo de Oliveira (Tipografia São Francisco, 1962, Juazeiro do Norte).

Outros autores de literatura de cordel presentes no acervo do IEB são João Martins Athayde, João de Barros e Patativa do Assaré. Ha ainda panfletos, fotografias, registros sonoros e matérias extraídas de publicações sobre a literatura cordelista. A coleção também possui xilogravuras de José Martins dos Santos e outras reunidas pelo folclorista Théo Brandão.

Da esquerda para a direita: Hebel Quintela, Valdemar Cavalcante, Graciliano Ramos, Aloísio Branco, Raquel de Queiroz e José Auto, 1º de janeiro de 1931 – Foto: Arquivo IEB-USP/Fundo Graciliano Ramos

Outros acervos do mês

Ainda em novembro, a série Arquivos do Mês destaca outros dois acervos preservados pelo IEB. O primeiro deles é o da romancista, cronista, contista e dramaturga brasileira Raquel de Queiroz (1910-2003). Autora consagrada, com apenas 20 anos publicou seu primeiro romance, O Quinze, em 1930, considerado um marco na literatura regionalista, o que lhe rendeu o prêmio da Fundação Graça Aranha em 1931. Em 1977, tornou-se a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL). Na coleção do IEB se encontram documentos relacionados ao romance Memorial de Maria Moura (1993), pelo qual Rachel de Queiroz recebeu o Prêmio Camões – o arquivo ainda está em processo de organização e descrição.

O outro destaque do mês é o acervo de Valdomiro Silveira (1873-1941), escritor do início do século 20, que foi promotor público, advogado, jornalista, secretário da Educação, deputado estadual e vice-presidente da Constituinte Paulista. Como contista, fixou-se nos costumes e tradições paulistas, publicando, entre outras obras, Os Caboclos (1920), sua narrativa mais conhecida, Nas Serras e nas Furnas (1931) e Mixuangos (1937). O Fundo da Coleção Valdomiro Silveira também está em processo de organização.

A série Acervos do Mês do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP está disponível neste link.

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