Instituto de Estudos Brasileiros da USP discute os rumos do Brasil

No dia 19, com transmissão via Youtube, seminário vai marcar o lançamento do livro “Estudos Brasileiros em 3 Tempos”

 14/10/2021 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 15/10/2021 as 17:02
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O livro que será lançado no dia 19 de outubro pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Reprodução

Discutir criticamente a realidade brasileira e refletir sobre os desafios do Brasil são as propostas do livro Estudos Brasileiros em 3 Tempos: 1822-1922-2022 – Pensar o Brasil: Desafios e Reflexões, publicação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que será lançado no dia 19 de outubro, das 14h30 às 16h30, no canal do IEB no Youtube. A iniciativa faz parte da Série Paralelos 22, que comemora o centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da Independência, além dos 60 anos do IEB.

Produzido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras do IEB, o livro integra a Coleção Estudos Brasileiros, publicada pela Editora Fino Traço, e foi organizado pelos professores Fernando Paixão e Flávia Camargo Toni,do IEB, em dois volumes: Pensar o Brasil: Desafios e Reflexões e Ensaios sobre o Modernismo, que também já está disponível (leia o texto abaixo). “Apresentamos duas publicações: a primeira se centra em temas diversos da história e das culturas brasileiras; a segunda é dedicada ao modernismo artístico, entendido a partir de distintas obras e perspectivas de abordagem”, explicam os organizadores na apresentação. Além desses dois livros, já foram lançados outros cinco títulos, que podem ser baixados gratuitamente nos sites da editora e do IEB. Leia mais neste link.

É Possível o Objeto Brasil?, texto de Jaime Tadeu Oliva, abre o primeiro volume de Estudos Brasileiros em 3 Tempos. “No cenário das ciências humanas brasileiras, as obras clássicas cujo objeto era o Brasil visto globalmente nem sempre foram bem recepcionadas”, escreve o autor. Segundo Oliva, os “intérpretes do Brasil” Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Raymundo Faoro e outros respondiam sobre como pensar o Brasil utilizando o ensaio como gênero discursivo e quase sempre a figura teórica da “formação”. “Se atualmente for possível pensar globalmente sobre o País, não será uma empreitada que possa prescindir de uma avaliação da relação dessa herança com o quadro que se estruturou nas ciências humanas no Brasil, principalmente no seu aspecto epistemológico. Também não se pode escapar de uma problematização rigorosa do objeto-país Brasil, configuração de difícil definição, cuja constituição é externa ao pensamento científico e que condensa contradições abundantes que o tornam mais ou menos hostil aos métodos dominantes de tratamento científico.” Além disso, Oliva destaca uma outra questão: “Do ponto de vista prático, esse pensar o Brasil hoje exige ainda uma nova relação com as realidades sociais, que obviamente podem ser compreendidas de formas mais complexas”.

O tempo é tema de Inês Gouveia em O Ar do Tempo: Uso do Passado e Idealização de Futuro nos Paralelos 1922-2022. “Busca-se neste ensaio refletir sobre a elaboração do tempo, a partir de eventos que atravessam os ‘paralelos 22’: pandemias, comemorações da ‘Independência’, vanguarda artística e guerras. Fragmentos do passado e do presente, que marcam um sentido de ciclo e espelhamento”, afirma a autora. Ela aponta as inquietações que motivaram sua escrita: “Os sujeitos dos idos de 1922 deglutiram a sua experiência pandêmica de 1918? Como, diante de eventos celebrativos e catastróficos, se pode elaborar sobre o futuro? Com qual expectativa? Qual a potência da celebração na fundação de novos tempos e qual o papel das vanguardas artísticas na sua enunciação?”

Destaque ainda para O Brasil e os Brasis no Antropoceno: Bifurcações à Vista, de Stelio Marras, que repensa o futuro do Brasil. “Decerto ecoarei boa parte de minha geração ao lembrar ter crescido sob a promessa de um Brasil que ainda seria, ainda viria. Era o tal ‘país do futuro’ que chegaria para superar sua existência arremedada e embaraçosa, isso que tão frequentemente, mas ainda hoje, se qualificava, com toda a carga negativa, como ‘subdesenvolvido’, ‘atrasado’, ‘periférico’”, afirma. “O redentor futuro, imaginava-se, inclusive nas obras de ficção dessa época em que o tempo parecia correr mais lento, aquele tal futuro devia ser lá pelos anos 2000. E eis que esses anos chegaram, já um emblemático 2022 despontando no horizonte, quando agora o colapso ecossistêmico do planeta, em pleno e acelerado curso, põe em causa os hábitos e os habitats, superestruturas e infraestruturas, visões de passado e futuro até então minimamente estáveis, como também as pertinências do Estado-nação, tais os imperativos da autonomia e da soberania nos seus territórios circunscritos”, analisa, e lança as seguintes questões: “Que será, doravante, daquelas 337 pertinências quando os pertencimentos ao mundo se veem constrangidos a revisões radicais? Quanto a nós, que será do Brasil, que será dos brasis?”.

Também integram o livro ensaios sobre as dívidas ativas dos municípios paulistas durante a primeira metade do século 19, de autoria de Luciana Suarez Galvão; A Biblioteca do Povo e das Escolas, uma coleção que circulou entre Brasil e Portugal ao longo de 42 anos, com 29 séries e 237 livros, editados entre 1881 e 1913 por David Corazzi, abordada pela professora e diretora do IEB Diana Gonçalves Vidal; Acessibilidade em Museus, que apresenta reflexões teóricas que contribuíram para a inclusão de pessoas com deficiência e novos públicos, por Viviane Sarraf; e os artigos O “Sertão do Conselheiro”: Dinâmica Social e Transformações Econômicas na Comarca de Itapicuru (Bahia, século XIX), de Monica Duarte Dantas, O Pensamento Econômico e Sociológico sobre o Desenvolvimento no Brasil: Interações entre Dois Campos em Formação nos 1950 e 1960, de Alexandre de Freitas Barbosa, e Contribuições da Obra de Milton Santos para os Estudos Discursivos da Técnica Algorítmica: Uma Introdução ao Problema dos Objetos Técnicos como Partícipes da Produção dos Sentidos, de Luciana Salazar Salgado.

O livro Estudos Brasileiros em 3 Tempos: 1822-1922-2022 – Pensar o Brasil: Desafios e Reflexões, publicação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, será lançado no dia 19 de outubro, das 14h30 às 16h30, no canal do IEB no Youtube. Grátis.

Ensaios sobre o Modernismo

Estudos Brasileiros em 3 Tempos: 1822-1922-2022 reúne artigos sobre o movimento modernista no Brasil. Um deles é Ensaios sobre o Modernismo, de Paulo Teixeira Iumatti, que se debruça sobre o modo de funcionamento da vida pública brasileira durante a Primeira República e sua relação com o advento do Modernismo e das universidades. Segue-se o ensaio de Ana Paula Cavalcanti Simioni, Modernismo Brasileiro: entre a Consagração e a Contestação. Segundo Ana Paula, “a glorificação do Modernismo no Brasil é um processo que perpassa todo o século 20 e que envolve um conjunto de agentes – críticos, historiadores, curadores de arte – e diversas práticas sociais, como o mercado de arte, as aquisições realizadas pelos museus e, ainda por vezes, uma política cultural explícita levada a cabo pelo Estado, em sua dimensão nacional ou regional”. Em linhas gerais, enumera, pode-se dividir o processo em três fases: de 1917 a 1940, caracterizado pela construção de uma história da arte moderna no Brasil; de 1940 a 1970, “entendida como momento de institucionalização da crença no valor da arte moderna no Brasil, processo que contou com a chancela dos trabalhos produzidos no interior do sistema universitário, bem como as aquisições oficiais de acervos notórios de artistas modernistas”; e final da década de 70, quando se inicia um momento de revisionismo crítico.

Destaque também para o ensaio Retratando o Brasil, da professora Walnice Nogueira Galvão, que traça um paralelo com a obra Retrato do Brasil, de Paulo Prado, que tirou quatro edições sucessivas, à época fenômeno editorial raríssimo. “O autor também era influente pessoalmente, pois se tratava de um devotado mecenas dos modernistas, que abria seu bolso e sua casa em São Paulo para os artistas. Mário de Andrade dedicou-lhe Macunaíma, que é de 1928, mesmo ano de Retrato do Brasil e do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (cujo primeiro livro, Pau-Brasil, de 1925, Paulo Prado prefaciara)”, informa, comentando ainda que cada um desses textos – “em que pesem suas diferenças quanto à natureza e à extensão” – pretende fazer uma interpretação global do Brasil.

O volume ainda apresenta textos sobre Monteiro Lobato e a crítica de arte naturalista, por Luiz Armando Bagolin; o memorialismo de Mário de Andrade, por Marcos Antonio de Moraes; a obra Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), por Fernando Paixão; além de textos sobre a música popular brasileira com o consagrado LP Chega de Saudade, de João Gilberto, por Gabriel Lima Rezende, e a composição Funeral de Um Lavrador, por Walter Garcia. Há também um ensaio sobre o Congresso de Arte Popular de Praga (1928), de Flávia Camargo Toni, que busca entender quais as contribuições de quatro estudiosos convidados pelo comitê brasileiro para colaborar no evento: Edgard Roquette-Pinto, Mário de Andrade, Luciano Gallet e Renato de Almeida.


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