Grupo NUO encena e canta as histórias da plateia

Atores transformam o drama, comédia, romance e aventura do público em ópera do improviso

Por - Editorias: Cultura
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Os atores emocionam pela criação coletiva – Foto: Divulgação

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O público é quem decide as histórias que os atores vão representar, cantar, dançar. E também quanto eles devem pagar pelo ingresso. Nesse clima, onde a regra é a troca espontânea com o espectador e a criatividade coletiva, nasce o espetáculo A Ópera do Improviso do NUO – Ópera Laboratório, um grupo formado há 13 anos por cantores líricos, com formação universitária, a maioria na USP.

Cerca de 20 produções marcam a arte do grupo, que, além de ter um público cativo, está inaugurando o seu próprio teatro. O diretor e fundador, Paulo Maron, e sua esposa Marília Velardi, integrante do grupo e professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, não pensaram duas vezes para vender o apartamento e o carro, juntar as economias e investir num sonho.

Compraram um terreno e construíram o Espaço Núcleo. Próximo da Estação Alto do Ipiranga, linha verde do Metrô, já está sendo apontado como o novo ponto cultural da região e da cidade. Uma conquista que não dependeu de verbas ou de leis de incentivo, só de idealismo e talento.

A ópera tem o enredo que reúne histórias contadas pelo público – Foto: Divulgação

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A Ópera do Improviso
pode ser vista neste fim de semana, dias 10 e 11, em apresentações especiais. O NUO estreou no início do mês, mas quem vai assistir sempre encontra um espetáculo diferente. Com novas óperas inspiradas em enredos sempre sugeridos pelas histórias reais dos espectadores.

São óperas que jamais se repetem, encenadas pelos atores e tocadas por uma orquestra de 15 instrumentistas que fica ao lado do palco, em um espaço à parte, invisível ao público. A música é composta na hora pelo maestro Paulo Maron, doutorando do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Atores e cantores que estudam na USP integram o NUO – Foto: Divulgação

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Drama, aventura, comédia, romance

O ator e antropólogo Yuri Tambucci pergunta para a plateia quem tem um drama, uma aventura, comédia ou romance para contar. O teatro está lotado. Muitos levantam a mão. Mas só quatro candidatos, muito à vontade, resolvem contar. Na plateia não faltam risos. Em 15, 20 minutos, lá estão os atores vivendo as histórias que são encenadas quase que simultaneamente.

A viagem de navio do casal Maria Francesca e Giuseppe, imigrantes italianos, é contada pela neta. “É uma recordação que foi passada de geração para geração. Meus nonos vieram para o Brasil em uma viagem de navio, 40 dias e noites de sofrimento. Os passageiros que morriam eram jogados no mar. Os dois filhos pequenos de Maria Francesca e Giuseppe morreram. Para proteger os seus corpos, eles embrulharam as crianças num cobertor e ficaram com eles no colo até chegarem ao Brasil, para serem enterrados. O filho que estava na barriga e outros nove nasceram em terras brasileiras.”

A história de Fernanda, que viajou num fim de semana para Ilha Bela para descansar e pôr o pé no mar, virou comédia. “Cheguei lá exausta, não conhecia a ilha. De repente, senti umas picadas. Aí pensei que eram moscas de bananeira. Lá fui eu em direção ao mar. Foi pôr o pé na calçada e fui atropelada por uma bicicleta. Quebrei o pé. Não consegui pôr o pé no chão, quanto mais na areia. Passei o fim de semana num pronto-socorro, com o pé inchado e tudo o mais.” O drama virou comédia quando o ator se posicionou como uma bananeira.

O romance ficou por conta de um casal que se conheceu na Austrália. Amor à primeira vista. Paulo voltou para o Brasil triste porque a namorada preferiu ficar do outro lado do oceano. Semanas depois, ela foi ao seu encontro. Casaram. O encontro foi interpretado pelos atores com humor e criatividade.

A aventura de Fernanda e Carolina, que resolveram, com 16 anos, visitar uma amiga que se mudou para Taiwan, também resultou em uma ópera afinada. Elas viajaram sozinhas e quando chegaram à China estavam tão encantadas que acabaram sendo sequestradas por um tuque-tuque. O final? Feliz, sim. As duas saltaram do triciclo e saíram correndo. Imagine agora, todas essas histórias sendo improvisadas e narradas pelos atores do NUO com maestria, sem texto e só a música para dar o ritmo do enredo? Enfim, só vendo para acreditar. Setenta minutos depois, o público aplaude em pé. Enfim, vale a pena ir lá, contar e rever a sua história sob a interpretação do grupo.

O Espaço Núcleo é um dos pontos culturais do Ipiranga – Foto: Divulgação

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Um caminho próprio

“Minha intenção, desde a criação do grupo, era explorar as possibilidades cênicas na ópera, chegando, enfim, a um grupo que fosse antes de tudo formado por atores-cantores capazes de fazer tudo no campo teatral, independente se fosse numa ópera tradicional ou numa peça teatral com música”, conta Maron. “Creio que, hoje, o NUO Ópera-Laboratório, termo que remete a Grotowsky, chega ao nível teatral que tanto buscamos.”

O diretor conta que a criação do espetáculo A Ópera do Improviso tem como referência o Playback Theater, que surgiu nos Estados Unidos nos anos 70, período subsequente à Guerra do Vietnã.
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É uma forma teatral que lida essencialmente com o improviso, inclusive com músicas que são construídas a partir de acordes e ritmos que são sugeridos aos atores durante a representação e que são executadas por um pianista ou por um grupo jazzístico.

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Apesar da referência creditada aos atores Jonathan Fox e Jo Salas, A Ópera do Improviso segue o seu caminho com André Estevez, Angélica Menezes, Carolina Colepicolo, Pedro Ometto, Paulo Bezulle, Vivian Poyart, Wesley Fernandez, entre outros, e também os músicos da Camerata NUO.

A Ópera do Improviso (Playback Opera), com música de Paulo Maron, está no Espaço Núcleo (Rua Belas Artes, 135, Ipiranga, próximo ao Metrô Alto do Ipiranga). Em cartaz nos dias 10 e 11 de junho, sábado, às 20 horas, e domingo, às 18 horas. Ingressos: pague o quanto você acha que vale o espetáculo. Reservas: página do NUO no facebook, inbox (é bom reservar com antecedência).

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