Folclore amazonense é tema de teatro para cegos

Voltada para portadores de deficiência visual, peça “Visões” conta a lenda do boto em quatro versões distintas

Por - Editorias: Cultura
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A peça Visões: espetáculo vai além do mero contar – Foto: Divulgação/Cristiana Gimenes

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O espetáculo Visões, escrito e dirigido por Cristiana Gimenes, traz aos palcos um enredo baseado na obra O Baile do Judeu, de Inglês de Souza, contando versões sobre a lenda do boto — folclore amazônico em que o animal deixa o rio para namorar mulheres durante as noites. A diferença encontra-se na plateia. O público-alvo do espetáculo são portadores de deficiência visual e espectadores, vendados, interessados em vivenciar uma experiência na categoria de teatro para cegos.

“A ideia surgiu durante uma conversa com minha irmã, que também é educadora, sobre como é difícil colocar em prática a questão da inclusão, principalmente no ramo da cultura”, comenta Cristiana, que faz mestrado em Estudos Culturais na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. “Falando sobre teatro, poucos são aqueles que têm experiência e recursos suficientes para construir uma peça desse tipo. Espetáculos com audiodescrição tornam-se muito caros, porque são necessários equipamentos como os de tradução simultânea”, completa.

Com o debate, a diretora começou a pesquisar um pouco mais sobre teatro para cegos, descobrindo que já havia pessoas que trabalhavam com esse tipo de encenação. Motivada pela ideia de construir um espetáculo acessível, Cristiana levou a ideia aos atores com quem trabalhava e começou a elaborar o texto.

Cena de Visões: obra da imaginação – Foto: Divulgação/Cristiana Gimenes

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A construção da peça não foi tarefa simples. A equipe começou a estudar sobre localização dos sons, uso das vozes e divergências na interpretação do texto. Durante o espetáculo, são contadas quatro versões, alcançando diferentes estilos narrativos, sobre o que possivelmente aconteceu na noite em que o boto saiu do rio e foi à cidade namorar.

“No começo achávamos que era algo simples, uma peça para não ser vista, semelhante a uma contação de histórias, mas sem os recursos visuais. No entanto, é muito diferente”, aponta. “A primeira coisa que fizemos foi tentar montar um espetáculo de maneira normal, mas, quando coloquei a venda e experimentei aquela sensação de não enxergar, pude notar que o enfoque deveria ser completamente diferente do que havíamos pensado. Era algo que precisava ir além do mero contar.”

Com o objetivo de construir um espetáculo teatral em sua essência, segundo a diretora, Visões não busca ser um mero “desfile de sensações”. São apenas quatro atores trabalhando na peça, responsáveis pela representação de diversos personagens. Cristiana, como diretora e escritora da peça, também participou de todos os papéis durante os ensaios. “A ideia era que todos os atores tivessem a dimensão de como seriam aquelas cenas no papel de espectadores, que não estariam enxergando.”

Peça é baseada na obra O Baile do Judeu, de Inglês de Souza, que conta a lenda do boto – Foto: Divulgação/Cristiana Gimenes

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Construindo visões

Durante a peça, não são utilizados sons gravados — tudo é feito ao vivo. A percepção de ruídos vindos simultaneamente de diversos locais foi considerada exclusiva e necessária para melhor aproveitamento da experiência. A peça trabalha com uma enorme brincadeira, em que se criam ambientes a partir do som, alimentando a criatividade dos espectadores.
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Muitas vezes o público, ao final da peça, vem conversar sobre as impressões que tiveram durante o espetáculo. Muitos acabam achando impressionante a baixa quantidade de atores para os papéis apresentados, outros debatem como conseguiram “enxergar” perfeitamente todos os cenários e figurinos. Obra da imaginação.

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A experiência vai além do espetáculo. As vendas são colocadas ainda na parte externa do teatro, fazendo com que os espectadores experimentem, mesmo que por um pequeno instante, as dificuldades diárias dos portadores de deficiência visual.

Aos não portadores de deficiência, diz a diretora, Visões atinge duas áreas: a aflição artística, com um choque sensorial, e a aflição social, proporcionando a vivência de como é não enxergar, mesmo que seja por apenas uma hora. Aos portadores, o espetáculo é gratificante, como uma ação cultural que, finalmente, foi pensada para eles, acrescenta Cristiana.

A próxima apresentação da peça Visões ocorre no dia 29 de julho, sábado, às 20h30, no Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2.500, São Paulo, ao lado da Estação Sumaré do Metrô). Para mais informações, acesse o site.

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