“Florestan foi coerente em suas convicções até o fim”

“Ele não se esqueceu da sua história, da pobreza experimentada, lembrando sempre de outros, pobres como ele”

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Por Janice Theodoro da Silva

Janice Theodoro da Silva – Foto: Youtube

 

Conheci Florestan Fernandes em 1969, quando fui aprovada no vestibular de História e Ciências Sociais da USP. Ele era um mito entre os estudantes. Florestan estava na linha de frente do combate à ditadura, e, com postura radical, ensinava, analisava e desafiava o poder tanto do ponto de vista teórico como prático.

Em seu livro A questão da USP (Brasiliense, 1984), Florestan escreveu:

A USP foi uma das linhas de frente das lutas políticas provocadas por essa inteligência da situação histórica. Ela sofreu, por conseguinte, um esmagamento cuidadosamente elaborado. Não estava em questão a atividade de alguns professores que corriam por toda a parte, tentando galvanizar resistência e mobilizar a ira popular contra a usurpação do poder político. Eu participei intensamente dessa atividade e acumulei experiência suficiente para saber que ela incomodava, mas não exigia que a ditadura desfechasse o golpe de misericórdia. Nesse nível, o que a ditadura não tolerava era que uma instituição-chave oficial pudesse ser o núcleo de uma resistência que não era meramente defensiva, que ousava desafiar o poder arbitrário e suscitar o fantasma de uma revolução democrática. Impunha-se guilhotinar algumas cabeças, expelir por outros meios a massa de inimigos flutuantes (entre os quais se contavam estudantes e jovens em início de carreira) e reunir as condições para uma reforma universitária às avessas, que aprisionasse as universidades a um sistema de coleiras. (…)

Entre fins de 1968 e o início de 1969 começou, portanto, um período de agonia. Não foram límpidas as lições que recebemos, os que estávamos no confronto mais direto com a ditadura. Primeiro vieram as oscilações que retiraram a maioria da participação responsável e corajosa. Exemplo, a última reunião da Congregação da qual participei. Ainda havia a oportunidade de uma manifestação pública. Lembrei aos colegas o que sucedera com o advento do nazismo na Alemanha. Não podíamos lavar as mãos. Era preciso denunciar seja o sentido da evolução política da ditadura, seja a maquinação contra a universidade e a sua função crítica.

A minha relação com Florestan Fernandes ficou mais profunda quando, em 1974, pude desfrutar de sua companhia na minha casa em Austin, nos Estados Unidos. Tinha sido presa e, ao recuperar a liberdade, optei por aprofundar meus estudos sobre América Latina na Universidade do Texas, na época junto com o meu companheiro (linguagem de época) Carlos Guilherme Mota.

Janice Theodoro da Silva, Florestan Fernandes e Carlos Guilherme Mota – Foto: Arquivo pessoal

Florestan, aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Número 5 (AI-5), deixou o Brasil e foi convidado pelos seus colegas para dar aulas nos Estados Unidos e Canadá. Os amigos, naquela época, procuravam ajudar uns aos outros. Silviano Santiago, com sua inteligência refinada e crítica, garantia o clima “pós-concretista” entre todos nós. Éramos, apesar das diferenças de idade, companheiros de caminhada, como falava o antigo e rebelde timoneiro Jean-Pierre Vernant. Richard Graham, professor da Universidade do Texas, David Jackson, também professor da Universidade do Texas, Silviano Santiago e Carlos Guilherme Mota organizaram, em Austin, um encontro voltado para os especialistas em América Latina. A ideia era trazer um pouco de alegria para o mestre de todos nós. Florestan Fernandes, exilado, ficou na minha casa por algum tempo. O convívio cotidiano criou laços de amizade. A trama foi urdida por meio de histórias de vida, dificuldades enfrentadas na infância, lugares de dor, medo, pobreza, origem de um forte sentimento de injustiça social.

Janice Theodoro da Silva com Silviano Santiago e Florestan Fernandes – Foto: Arquivo pessoal

Lembro, à noite, a louça suja em cima da pia, a preguiça, esperando coragem para lavar tudo, de preferência no dia seguinte. Não demorava muito, ele levantava e começava a limpar tudo. Eu pedia para ele deixar para o dia seguinte, como era costume. Lavaria tudo pela manhã (coisas de mulher naquela época). Ele explicou que só conseguia dormir quando tudo em volta estivesse limpo, sem pratos sujos e restos de comida. O motivo era o poder das sobras de comida de atrair baratas. Tratava-se de um medo de infância, momento duro de sua vida, quando, ainda pequeno, dormia num porão frequentado por baratas e roedores.

Ele não se esqueceu da sua história, da luta diária de sua mãe, da pobreza experimentada, lembrando sempre de outros, pobres como ele, temerosos da entrega para o sono. Florestan nunca se esqueceu da tragédia humana, da desigualdade social, nem mesmo utilizou hospitais privados para combater a doença que o levou à morte. Foi impecável, coerente em suas convicções até o fim.

Não é fácil.

Desse contato, breve e profundo, ditado pela circunstância da ditadura e pela perseguição, restaram imagens do mestre Florestam Fernandes que compartilho com seus colegas-amigos, antigos alunos, discípulos partícipes com ele de um acirrado e por vezes cruel debate intelectual. Florestan foi fundador de uma reflexão crítica e corajosa de importância significativa para o desenvolvimento do pensamento sociológico no Brasil.

O tempo passa, a memória fica.

Feliz aniversário, professor.

Janice Theodoro da Silva é professora titular aposentada do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

 

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